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09/04/2010

"Se continuar a proliferação de armas nucleares, elas acabarão nas mãos de terroristas", diz especialista russo

El País
Pilar Bonet
Em Moscou
  • Barack Obama, presidente dos EUA, e Dmitri Medvedev, presidente da Rússia, assinam o que é considerado o maior acordo de redução de armas nucleares em 20 anos

    Barack Obama, presidente dos EUA, e Dmitri Medvedev, presidente da Rússia, assinam o que é considerado o maior acordo de redução de armas nucleares em 20 anos

O tratado de redução de armas estratégicas que os presidentes Barack Obama e Dmitri Medvedev assinaram ontem em Praga abre novas perspectivas entre as duas superpotências nucleares que poderão desembocar em longo prazo na criação de um escudo antimísseis conjunto e em uma aliança que diluiria o confronto Rússia-Otan. É a opinião dada em uma entrevista por Alexei Arbatov, respeitado especialista em segurança e desarmamento, que foi vice-presidente do Comitê de Defesa da Duma Estatal (Parlamento russo).

Segundo Arbatov, o novo tratado parte de uma base de confiança inexistente em 1991, quando Washington e Moscou assinaram o Start, o tratado de redução de armas estratégicas que expirou em dezembro passado. Chegar a um acordo de desarmamento nuclear era uma exigência do artigo 6º do Tratado de Não-Proliferação (TNP), que obriga as potências nucleares a manter negociações para reduzir seus arsenais.

"Se continuar a proliferação de armas nucleares, estas acabarão caindo irreversivelmente nas mãos de terroristas, e a única questão é quando e onde ocorrerá a primeira explosão", diz o especialista, que analisa a evolução da política de segurança e defesa da Rússia em um interessante livro, "A Direção da Segurança". "No ritmo em que se difundem hoje os materiais e as tecnologias nucleares, antes de dez anos poderá haver a explosão de uma carga atômica simples, como em Hiroxima ou Nagasaki", declara.

O novo tratado de desarmamento estratégico russo-americano parte da "presunção de inocência" do parceiro, mas não renuncia ao controle, embora menos rígido que o estabelecido em 1991. Entre aquele documento e o de agora houve uma tentativa abortada de regulamentação em 2002. Foi o Tratado de Redução de Armas Ofensivas, ou Sort na sigla em inglês. EUA e Rússia o assinaram e ratificaram, mas não entraram em acordo sobre as regras de contabilidade das cargas nucleares, o sistema para controlá-las e o procedimento para liquidá-las.

"O Sort deveria durar dez anos, mas equivalia a uma declaração de intenções e ficou no papel. Contudo, Moscou e Washington continuaram reduzindo seus arsenais em paralelo. "Os EUA para poupar meios supérfluos e a Rússia porque muitas cargas velhas haviam ficado obsoletas e era preciso eliminá-las de qualquer modo", relata Arbatov. Washington e Moscou contavam com a norma e os procedimentos que haviam sido estabelecidos para o Start.

"O novo acordo introduz novas regras de contabilidade, novos sistemas de verificação e controle e contempla uma nova redução, não muito profunda em comparação com o documento de 2002, mas juridicamente vinculatório", explica. O acordo não limita as armas defensivas, mas em seu preâmbulo reconhece sua vinculação. "Isto não obriga a muito, mas em futuras negociações poderemos nos negar a continuar reduzindo nosso potencial, se temermos que um escudo antimísseis possa ser utilizado contra nós", explica.

"A Rússia renova suas armas ofensivas, mas tem um sistema de defesa antimísseis muito limitado, resíduo da Guerra Fria. Por outro lado, os EUA cancelaram os planos do governo anterior, mas não renunciam à ideia de um sistema antimísseis global, embora não tenham pressa, porque sua prioridade hoje é enfrentar as ameaças da Coreia do Norte e do Irã, e por isso estão interessados em um sistema regional. A Rússia insiste em que lhe deem a segurança de que esse sistema não possa ser utilizado contra suas armas ofensivas", disse Arbatov.

Ao renunciar a instalar elementos de um escudo antimísseis global na Europa central, o governo Obama possibilitou o tratado que hoje é assinado, mas sua indefinição sobre o futuro preocupa a Rússia. "Nos próximos cinco ou dez anos não haverá um escudo de defesa antimísseis americano que ameace a segurança da Rússia", mas dentro de 15 ou 20 anos a situação poderá mudar. Por isso, "a Rússia gostaria de assinar um novo acordo para desenvolver conjuntamente um escudo antimísseis ou que os EUA se comprometam a limitar seus sistemas de defesa antimísseis para que não afetem o potencial estratégico da Rússia, explica.

Um escudo antimísseis conjunto russo-americano "só pode vir a ocorrer entre dois aliados muito próximos", salienta Arbatov, e indica que Washington não tem um escudo antimísseis conjunto nem mesmo com seus aliados da Otan. Propõe avançar passo a passo e recuperar o acordo assinado há uma década para criar em Moscou um centro conjunto de intercâmbio de dados sobre o lançamento de mísseis balísticos.

Esse acordo "congelado" é de interesse mútuo, já que pode evitar que o lançamento de mísseis por parte de terceiros seja confundido com o lançamento de mísseis por parte do outro ou contra o outro. A etapa seguinte pode ser já a "criação de uma defesa antimísseis tática ou de teatro, já que - pelo tratado de 1987 que suprimiu os mísseis de curto e médio alcance -, a Rússia e os EUA não têm contradições entre o ofensivo e o defensivo nesse campo e poderiam criar um escudo para defender o território europeu da Rússia e a Europa dos ataques do sul, Líbia, Argélia, Paquistão ou, no futuro, Arábia Saudita". "Por enquanto as conversações de Moscou e da Otan sobre esse tema não passaram dos jogos de computador", diz Arbatov.

Para criar um sistema antimísseis de maior envergadura, é necessária uma mudança substancial nas relações russo-americanas. "Países que baseiam sua segurança em equipar-se com grande quantidade de mísseis não podem colaborar simultaneamente na criação de um escudo para interceptá-los. Isso é uma esquizofrenia." "Criar um escudo antimísseis global conjunto representa uma aliança e a renúncia à filosofia da contenção nuclear, e talvez uma aliança da Rússia com a Otan. Disso já se começou a falar aqui", salienta.

Arbatov opina que o Ocidente se equivoca ao receber a proposta russa de uma nova arquitetura de segurança na Europa como um gesto de propaganda "para dividir e enfraquecer a Otan e impedir sua ampliação". Na proposta de Medvedev há dois pontos que a Otan poderia ter aceitado sem se considerar prejudicada, a saber, que nenhuma das partes constrói sua segurança contra a outra e que qualquer país pode pedir ajuda a outro para garantir sua segurança. "A Otan deveria ter compreendido isso, porque há países neutros e pós-soviéticos que desejariam pedir ajuda à aliança, mas é pouco provável que haja países que peçam ajuda à Rússia."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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