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12/04/2010

Fellini, o grande sedutor

El País
Miguel Mora
  • O diretor de cinema italiano Federico Fellini

    O diretor de cinema italiano Federico Fellini

Fianmmeta Profilli, secretária do cineasta, conta suas memórias 50 anos depois de “La Dolce Vita”

Charmoso, sedutor, infiel e leal ao mesmo tempo, indagador compulsivo, imaginativo e mentiroso, egoísta e generoso, apaixonado pelo cinema e pelas mulheres, autoritário e fascinante. Assim e de mais outras dez ou doze formas diferentes é que Fiammetta Profilli se lembra de Federico Fellini. Ela o conheceu bem, porque foi assistente e secretária (bilíngue) do genial diretor durante seus últimos 13 anos de vida, entre 1980 e 1993. Foi um trabalho, e principalmente um prazer, encontrado quase por acaso. “Minha mãe, norte-americana, tinha ido para Roma em busca de seu namorado, um diplomata italiano que conheceu quando era cônsul em Los Angeles, e para poder vir ela se tornou secretária de Mervin LeRoy durante a filmagem de ‘Quo Vadis’.”

Para celebrar os 50 anos de “La Dolce Vita”, Profilli, que agora trabalha na televisão, contou algumas de suas memórias ao “El País” durante um encontro num dos restaurantes favoritos de Fellini, situado não muito longe da casa onde vivia Marcello Mastroianni, que Fiammetta considera o grande amigo de Fellini. “É preciso ter cuidado com isso porque Fellini era um grande sedutor e um grande mentiroso, e fazia com que qualquer pessoa se sentisse o centro do universo. Todos diziam: ‘Eu sou seu melhor amigo, seu escritor preferido, seu grande amor’. Era um dom que ele tinha. Ele olhava para as pessoas, abraçava-as como um polvo e as convencia de que nunca havia conhecido ninguém igual na vida. Mas Marcello era um grande amigo de verdade. Às vezes passavam meses sem se ver, mas era sempre igual, como se tivessem acabado de se despedir.”

Profilli é exatamente como se pode imaginar a secretária de Fellini. Inteligente, vivaz, pequena, com olhos inquisitivos e um cérebro muito veloz. “Giulietta (Masina) dizia que ele era o homem mais bonito do mundo, e é verdade que ele era muito atraente, alto e magro, e tinha um olhar impressionante que via através das pessoas”, diz ela. “Giulietta era uma santa, porque ele era muito generoso com todos, sobretudo com as mulheres; sempre almoçava e jantava fora, gostava muito de convidar as pessoas e dar presentes, adorava sair, e embora ela sempre lhe fizesse o jantar, ele raramente aparecia na Via Margutta. Costumava dizer: ‘Como eu gostaria de morar num hotel!’. Ela ficava chateada, mas não muito. Nos últimos anos era ele que estava mais chateado, porque não recebia um centavo pelos filmes; sempre teve má sorte com as empresas, e ficava indignado por não lhe pagarem pelos direitos, dizia que o Círculo Del Cine se preocupava com a guerra do Vietnã, mas não reclamava seus direitos, e como ela controlava as contas, isso o deixava irritado.”

As memórias se amontoam à toda velocidade; vê-se que Profilli sente falta daquela época. Principalmente porque se divertia muito. “Conhecê-lo mudou minha vida completamente. Meu pai era um homem muito autoritário, e com 20 anos eu passei a conviver todo dia com uma figura como Fellini, cheia de fantasia, liberdade, leveza, senso de humor, que fazia os outros rirem com vontade. Era muito rápido e as pessoas eram obrigadas a acompanhar seu ritmo.”

Fellini e Profilli se conheceram quase por acaso. E foi um amor à primeira vista, só que profissional. “Um dia acompanhei Melton Davis, jornalista do The New York Times, numa entrevista ao cineasta no Cinecittà, onde Fellini se instalava para trabalhar. Ele me pediu para traduzir a sinopse de 'E La Nave Va'; eu traduzi e um dia fomos juntos de carro a Fregene. Eu fiquei calada, e talvez isso o tenha convencido a me contratar. Ele gostava muito de pensar no carro, e eu sempre dirigia, embora ele competisse com Mastroiani comprando carrões. Ele também gostava muito de ir de metrô ao Cinecittà para ver os rostos das pessoas. 'É assim que encontro os rostos fellinianos', dizia. Se via algum que o interessasse, parava a pessoa e dava-lhe o endereço. Sempre que havia projeção, formavam-se filas imensas. ‘Dizem que é porque sou felliniano’, ria-se.”

Fellini tinha um poder de adivinhar os rostos e as pessoas. “Dizia para alguém: ‘Você vai ser um maquinista de trem’. E o homem respondia: ‘Pois meu pai era cobrador!’. Ele sempre acertava. Em “Ginger e Fred” decidiu colocar um homem que falava com os mortos. Sua mãe também o fazia. Tinha milhares de fotos antigas arquivadas em caixas enormes, muitas delas catalogadas como “tardone piaccenti” (senhoras mais velhas e vistosas). “Chame esta”, dizia. “Deve estar morta”, respondíamos. “Não pode ser!”, insistia, “chamem-na!”. Quando a mulher chegava, já era uma velhinha.

“Ele tinha uma grande curiosidade pelas mulheres. Queria saber tudo de todas. Uma de suas grandes paixões eram as cartomantes. Ia a todas, estivessem onde estivessem. Depois saía e fazia justamente o contrário do que tinham dito a ele. Sempre contava que sua vida mudou quando conheceu Gustavo Rol, que tinha grandes dotes. Ia com frequência a Turim para vê-lo junto com Dino Buzzati e faziam teletransporte de matéria. Rol, durante a guerra, libertou muitos prisioneiros pregando truques nos nazistas. Fellini dizia: 'Todos nós esperamos que a vida não seja só isso, e desde que conheci Rol tenho a certeza de que há outras dimensões'. Não fez o filme “A Viagem de Mastorna” porque Rol pensava que morreria se o fizesse. Recebeu uma mensagem paranormal.”

Trabalhando, era justamente o contrário, um cientista, conta Profilli. “Sempre dizia que o cineasta é como um cientista. Que dirigir exigia uma grande precisão e que a filmagem era como o Cabo Canaveral. No estúdio, ele se transformava, era muito autoritário, sabia muito bem o que queria. E se Giulietta não acertava na primeira, ele ficava irritado. Com Mastroianni ele tinha uma cumplicidade extraordinária, eles se entendiam muito rapidamente, embora tivessem ficado cinco anos sem se ver.”

“No estúdio ele gritava muito, sem se dar conta. Fazia algumas pessoas chorar e depois estranhava. Está chorando porque você disso isso e aquilo. Ele não se lembrava. Era um grande mentiroso. Contar mentiras era natural para ele. Reconstruía a verdade. Se disséssemos que ele gritava, ele falava que estávamos todos loucos.”

“Odiava o futebol porque tinha horror às massas. E não gostava da vida fora das filmagens. Era um trator, se tinha 39 de febre e era dia de filmagem, ele se curava. Nos últimos anos já não queria nem escrever um resumo de roteiro. Esperava que os produtores confiassem que ia ser um filme de Fellini, mas eles não raciocinavam assim. Essa guerra o estimulava muito, pedia sempre um adiantamento para se comprometer e não poder ficar para trás.”

“Dizia que a religião católica havia sido útil para ele porque o havia levado à rebelião, à vontade de fugir, à fantasia. Uma vez me disse: 'Acredito em tudo, até no inferno'. Era muito divertido, gostava de fazer piadas. Um dia, na praça de Espanha, estávamos conversando com o desenhista Tirelli, chegaram uns estudantes para pedir um autógrafo e ele disse: 'O senhor Fellini é ele', e saiu correndo”.

“Fellini nunca conseguiu ser fiel a Giulietta, com quem ficou casado durante 50 anos, até sua morte. Não conseguia evitar, tinha muito interesse pelas mulheres, apaixonava-se, convidava-as a contar sua vida. Ela sabia quem ele era e o entendia. A cena do harém do filme '8 e meio' reflete sua essência. Dizia que a cultura muçulmana era a única que havia compreendido o homem. Teve histórias longas; o caso com Sandra Milo durou 17 anos, com altos e baixos. E foi assim até sua morte.”

Ainda há muitas histórias a serem contadas. A de Anita Ekberg, por exemplo, de quem ele gostou muito, e que ainda vive nos arredores de Roma rodeada por cachorros e com a pensão vitalícia deixada pelo advogado Agnelli. Enquanto Fiammeta Profili posa para as fotos, os clientes do restaurante olham assombrados. Com certeza conhecem essa mulher que compartilhou 13 anos de vida com um homem único e inigualável, a quem com certeza não conhecem até hoje.

Tradução: Eloise De Vylder

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