UOL Notícias Internacional
 

14/04/2010

"Se nos reconciliamos com a Alemanha, podemos nos reconciliar com a Rússia", diz Wajda

El País
Cristina Galindo
Enviada especial a Varsóvia
  • O diretor de cinema polonês Andrzej Wajda

    O diretor de cinema polonês Andrzej Wajda

A recente estreia na televisão russa do filme "Katyn", sobre o extermínio da elite militar polonesa pela polícia secreta de Stálin em 1940, foi considerada um gesto sem precedentes da Rússia em relação à Polônia e um passo chave no caminho para a reconciliação de dois velhos inimigos. O responsável pelo filme, o diretor polonês Andrzej Wajda, 84 anos, não podia acreditar quando soube que o filme havia sido televisionado na Rússia e crê que estão surgindo condições para que Varsóvia e Moscou possam normalizar suas relações.

Em uma entrevista nos estúdios Akson, na capital polonesa - três dias depois do acidente aéreo em que o presidente polonês, Lech Kaczynski, perdeu a vida junto com dezenas de altos funcionários políticos e militares, justamente quando se dirigiam para lembrar as vítimas daquela chacina -, Wajda se declara um otimista em relação à possível reconciliação entre os dois países e afirma que, embora a Polônia tenha avançado consideravelmente, ainda está ligada a alguns pesos do passado.

El País: É possível a reconciliação com a Rússia?
Andrzej Wajda:
Tudo o que se está fazendo em Moscou aponta para a possibilidade de uma reconciliação. Oxalá a chacina de Katyn seja logo esclarecida. Se nos reconciliamos com a Alemanha, podemos nos reconciliar com a Rússia. Creio que é muito possível.

El País: Seu filme se transformou em um elemento de aproximação entre os dois países?
Wajda:
Se for assim, será preciso situá-lo como uma peça de um quebra-cabeça mais complexo e amplo: a atitude dos cidadãos russos diante dos crimes do stalinismo. Se Moscou está disposta a uma certa revisão do que aconteceu na União Soviética, a reconciliação com a Polônia é bastante possível. Estive em Katyn em 7 de abril, quando o primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, e o russo, Vladimir Putin, prestaram homenagem às vítimas daquela chacina, e me impressionou a atitude de Putin. É preciso enfrentar o passado stalinista.

El País: Como o senhor viveu a transmissão de seu filme "Katyn" no canal temático Kultura da televisão russa, em 2 de abril passado?
Wajda:
Fiquei estupefato. Jamais teria imaginado, jamais, que "Katyn" fosse transmitido na televisão russa. Tinham comprado o filme há um ano e não pensei que chegassem a programá-lo. Afinal foi em um canal temático de audiência limitada, mas o fizeram. Mas o que me pareceu totalmente incrível é que o passaram no último domingo na televisão pública, com milhões de telespectadores e no horário de maior audiência. Fiquei boquiaberto. Só falta que o passem nos cinemas (só foi projetado em sessões restritas).

El País: É possível que a Rússia abra os arquivos secretos da época ou que chegue a pedir perdão oficialmente por Katyn?
Wajda:
Poderia ser. Pode-se dizer que estão dando passos nessa direção e as coisas não acontecem por acaso, são pensadas de antemão.

El País: Seu pai foi um dos 22 mil militares executados na floresta de Katyn em 1940. O que foi o pior daquela chacina?
Wajda:
Primeiro, o assassinato da elite de todo um país. Catedráticos, médicos, policiais... os mais informados foram executados. Foi muito doloroso. É algo que está em meu coração e continuará ali para sempre. Segundo, a mentira também foi horrível. Durante a ditadura comunista não se pôde falar sobre o assunto.

El País: Alguns comentaristas comparam a chacina de Katyn com o acidente de sábado, pois no avião iam membros da elite do país. O senhor concorda?
Wajda:
Não é comparável. Nem no número de mortos, nem nas circunstâncias das mortes. Em 1940 foram assassinados e no segundo caso trata-se de um acidente. É claro que em nível pessoal todos são insubstituíveis.

El País: A reação na Polônia à tragédia aérea foi de união, acima das ideologias, para lembrar as vítimas do acidente. O senhor crê que essa atitude se consolidará?
Wajda:
Reagimos de maneira muito emotiva e será preciso ver se esse espírito é viável em longo prazo.

El País: No outono de 2007, quando houve uma mudança de governo e Jaroslaw Kaczynski, o irmão do presidente morto, perdeu as eleições, o senhor parecia abrigar a esperança de que uma nova Polônia acabava de nascer. Kaczynski havia concentrado sua política em perseguir o passado comunista, e o novo primeiro-ministro, Donald Tusk, prometia uma renovação. O senhor se decepcionou?
Wajda:
Sempre fui muito cético. Antes e hoje. Mas continuo apoiando a Plataforma Cívica. O ambiente político se acalmou. Já não se perseguem as pessoas por seu passado comunista. E nos aproximamos da UE. Houve muitas mudanças, mas ainda há restos do passado, como o Instituto para a Memória Nacional (onde os historiadores vasculham os arquivos da polícia secreta comunista). Ainda não estamos diante de uma nova Polônia. Para uma renovação total será preciso esperar as próximas eleições.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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