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17/04/2010

Cidade de Ramala é vitrine de sucesso no Oriente Médio

El País
Enric González
  • Vendedor arruma manequins com óculos de sol na cidade palestina de Ramala

    Vendedor arruma manequins com óculos de sol na cidade palestina de Ramala

Será que a paz poderia se parecer com isso? Talvez sim. Talvez a paz signifique um crescimento econômico superior aos 8% anuais, ruas seguras e movimentadas, um forte auge da construção, uma relativa abundância de carros de luxo. Isso já existe em Ramala, a capital administrativa da Autoridade Nacional Palestina (ANP). Por diferentes razões, tanto o primeiro-ministro palestino, Salam Fayad, como o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, exibem Ramala como um sucesso. Qualquer um que passe por Ramala pode pensar que a paz está virando a esquina. E que, como assegura Fayad, o Estado palestino será triunfalmente proclamado em meados do ano que vem.

Nada é impossível, e menos ainda a situação é vista de dentro do Orjuwan Lounge de Ramala, um refinado bar-restaurante com uma excelente seleção de uísques, que desde sua inauguração, em 2009, fica cheio todas as noites. O proprietário, Saleem Sakakini, também tem uma empresa de assessoria corporativa e estava tão ocupado que não pode falar com a reportagem.

Muita gente em Ramala leva uma vida agitada. As pessoas começam a falar em “milagre econômico” e o auge comercial é indiscutível. Estabelecimentos como o Café de la Paix, Sangria's, Stone's e outros semelhantes abriram nos últimos anos, assim como academias e salões de beleza. O empresário Bashar Mashri, palestino com passaporte norte-americano, promove a construção de uma cidade para 40 mil pessoas nos arredores de Ramala, com um orçamento estimado em US$ 1,5 bilhão de dólares, apoiado por investidores de Qatar.

Há guindastes e novos prédios por toda parte. Há sinais de trânsito em todas as esquinas, e até mesmo sinais que avisam a proximidade de um farol. Há policiais com bafômetro (um detalhe da União Europeia), embora a população beba pouco e não exista até agora, um regulamento sobre os níveis máximos de álcool para os motoristas.

Oualid Husseini, proprietário do Zaman, um concorrido café no centro de Ramala, atende cerca de 600 clientes diariamente (“locais”, diz ele, “em geral estudantes universitários e jovens profissionais; não buscamos clientes estrangeiros, ainda que tenhamos alguns”) e considera que Fayad, o primeiro-ministro palestino, faz um bom trabalho: “a Autoridade Nacional Palestina restabeleceu a segurança e criou algumas regras que funcionam”. Foi exatamente para isso que nomearam Fayad, um antigo executivo do Fundo Monetário Internacional, apoiado pelos Estados Unidos, cujo partido, a Terceira Via, conseguiu apenas um punhado de votos nas eleições de 2006. A tecnocracia e a cooperação com Israel em matéria de segurança tem dado seus frutos. Até agora.

Nahed, uma jovem árabe-israelense que mora em Jerusalém, frequenta as noites de Ramala. “É uma cidade animada e internacional, e costuma ter festas; além disso é mais barata e mais divertida que Jerusalém”, explica. A decadência do lado palestino de Jerusalém, agoniado com a construção de colônias israelenses, pelo desalojamento de palestinos e pelas restrições para construir nos bairros palestinos, além da tensão que caracteriza a cidade mais disputada do planeta, é uma das razões porque Ramada, a apenas 15 quilômetros dali, transformou-se numa alternativa favorável para quem só quer trabalhar, viver tranquilamente ou se divertir.

É preciso considerar que Ramala, que sempre foi a mais liberal das cidades palestinas, foi cenário de um linchamento brutal de dois soldados israelenses há dez anos, por uma multidão sedenta de sangue. Isso foi na época da Segunda Intifada. Em 2002, Ramala foi devastada pelas tropas israelenses. O que existe agora parecia impossível há cinco anos, quando bandos de homens armados e encapuzados trocavam tiros pelas ruas e era quase um suicídio sair à noite.

Evidentemente, Ramala continua sendo território ocupado, e ainda que faça parte da zona A, estabelecida nos acordos de Oslo, o que outorga o “controle civil” à Autoridade Paletina e a responsabilidade pela ordem pública à polícia palestina, o Exército de Israel não se priva de realizar incursões quando lhe convém.

Se alguém lê os últimos dados macroeconômicos enquanto bebe um capuchino num dos modernos estabelecimentos de Ramala, há motivos para ter esperança. O crescimento está em torno de 8%, o desemprego não chega a 20% (superava os 50% em 2005), o turismo sobe exponencialmente (em 2009, a cidade de Belém recebeu 1,5 milhão de visitantes) e o comércio aumenta num ritmo de 35% ao ano. O presidente palestino, Mahmud Abbas, e seu primeiro-ministro, Fayad, traçaram além disso uma estratégia de “resistência pacífica” contra a ocupação israelense, com a qual esperam canalizar o profundo ressentimento da população para vias não violentas: o boicote aos produtos das colônias israelenses na Cisjordânia, rejeição aos empregos oferecidos por essas colônias e, em geral, o fomento de um certo nacionalismo construtivo.

Se quiser, pode-se sentir algo parecido com o aroma de uma paz mais ou menos próxima. Mas é preciso manter o nariz bem perto do capuchino e bem longe da realidade global, a que está escondida atrás dos restaurantes e das cifras macroeconômicas.

“Ramala é uma bolha, uma vitrine, o fruto de uma determinada estratégia política que para nós não vai mal e para o governo de Israel vai muito bem”, explica um economista palestino formado nos Estados Unidos e muito próximo ao governo de Fayad. Os dirigentes e diplomatas que visitam a região costumam parar em Jerusalém e Ramala, e deduzem que a teoria israelense de que os dois países chegarão à paz através da prosperidade está funcionando. Poucas autoridades vão a Hebron, onde o túmulo de Baruch Goldstein (médico israelense que matou palestinos no santuário de Abraão em 1994) fica num extremo da colônia de Kiryat Arba, a poucos metros do santuário e das ruas palestinas, e onde a presença das forças de ocupação (que tendem a atuar com uma brutalidade despreocupada) asfixia qualquer chance de reanimação social ou econômica.

Os visitantes ilustres também não costumam passar pelos núcleos rurais do vale do Jordão, em plena recessão econômica e demográfica, nem pelos campos de refugiados espalhados pelo território. Perto da entrada de Ramala e nos arredores de Jerusalém fica o de Kalandia, mas não há motivo para vê-lo: os estrangeiros podem passar por outra estrada, mais vistosa e com um controle militar mais relaxado

O segredo da prosperidade de Ramala, e de suas belas cifras macroeconômicas, está no estrangeiro. Por um lado, na ajuda internacional: se a Autoridade Nacional Palestina administra um orçamento de cerca de US$ 3 bilhões, quase a metade, 45% disso, procede das doações estrangeiras. Por outro lado, na presença física de mais de 20 mil estrangeiros: diplomatas, jornalistas, observadores e técnicos internacionais, com salários em geral elevados e com tendência a frequentar bares, restaurantes e academias com ares ocidentais.

“Resumindo, nossa economia é estritamente carcerária; a prisão está mais rica do que antes, mas continua sendo uma prisão. Exportamos o pouco que Israel nos permite e, sem dúvida, Israel não está nos ajudando a estabelecer uma economia autônoma; se abre um pouco a fronteira, é porque isso favorece seus próprios interesses”, afirma um economista palestino que colabora com a ANP e que prefere não ser identificado.

A preferência pelo anonimato não é incomum. Ninguém no círculo de Fayad quer desmentir abertamente a otimista doutrina oficial de acordo com a qual estão construindo um Estado com instituições e uma economia capazes de funcionar de forma autônoma. É o que diz Samir Hazboun, professor de economia e presidente da Câmara de Comércio de Belém. “As doações ajudam, mas nossa economia está de fato se diversificando e é cada vez mais variada.”

Por enquanto, a diversificação é apenas um projeto ou, na melhor das hipóteses, uma tendência. Pelo menos, conseguiu-se frear a emigração e aumentar o nível de vida. Até mesmo a corrupção que era característica da administração econômica da Autoridade Nacional Palestina mostra indícios de estar diminuindo. Mas 90% do que se consome na Cisjordânia vem de Israel, o que favorece as empresas israelenses e indica a frágil capacidade de produção palestina. A viga mestra da estrutura econômica da Cisjordânia é o funcionalismo público. A ajuda estrangeira permite pagar mais de 180 mil funcionários, uma quantidade exagerada para um país sem nenhum dos atributos (moeda, exército, diplomacia, fronteiras) que caracterizam a soberania. Os salários públicos sustentam 1,5 milhão de pessoas, entre empregados e familiares, e mantém o índice de desemprego dentro de limite toleráveis.

Até as pessoas mais próximas a Fayad admitem que a “miragem de Ramala” é um sintoma de um risco gravíssimo. O projeto de um Estado palestino é mais realista que há dez anos, mas continua sendo uma aposta contra o prognóstico. Não só porque o governo de Netanyahu continua na defensiva em tudo o que se refere a reviver o processo de paz, continua respaldando a colonização israelense da Cisjordânia e mantém os palestinos presos atrás de um muro. A própria Autoridade Nacional Palestina não consegue resolver sua contradição mais fundamental: Gaza caiu nas mãos dos islamistas do Hamas e a Al Fatah ostenta uma supremacia absoluta na Cisjordânia; o Hamas reprime a Al Fatah em Gaza e a Al Fatah reprime o Hamas na Cisjordânia; os dois grandes partidos palestinos continuam em guerra e, portanto, não parece possível realizar eleições com um mínimo de legitimidade no futuro próximo.

Gaza, além disso, permanece submetida a um absoluto bloqueio por parte de Israel e desde a destruição causada pelo exército israelense no inverno de 2008-2009 se transformou num gigantesco campo de concentração com 1,5 milhão de habitantes; não falta comida, graças aos túneis na fronteira egípcia, mas falta quase todo o resto, incluindo a esperança. Como é possível projetar um Estado nessas condições?

O risco, como em ocasiões anteriores, está nas consequências do fracasso. Fayad exibe a vitrine de Ramala e promete a proclamação iminente de um jovem Estado palestino, que sem dúvida conseguiria, como ele diz, grandes correntes de simpatia em todo o mundo. E se isso não acontecer? E se, apesar das pressões da Casa Branca, o processo de paz não ressuscitar? E se a bolha estourar? Apesar de todo ressentimento, apesar da repressão israelense e apesar de todos os mortos, a população palestina parece desejar uma paz sensata. Inclusive os partidários do Hamas, que se negam a reconhecer o direito da existência a Israel e defende a resistência armada e a legitimidade do terrorismo, sugerem a possibilidade de um consentimento tácito. Um novo fracasso, por dos palestinos ou israelenses, poderia desatar uma imensa frustração e um novo ciclo de violência. Que, por sua vez, justificaria a existência do muro israelense e de medidas repressivas futuras. Para voltar ao eterno e inadmissível ponto de partida.

Tradução: Eloise De Vylder

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