UOL Notícias Internacional
 

21/04/2010

Como fazer um disco sobre a "gentrificação"

El País
Daniel Verdú
Em Madri
  • Cibelle Cavalli Bastos, cantora brasileira radicada em Londres

    Cibelle Cavalli Bastos, cantora brasileira radicada em Londres

A brasileira Cibelle apresenta seu terceiro álbum, "The Las Venus Palace Resort"

Que diabos é a gentrificação? Basicamente, é o processo urbanístico-sociológico pelo qual uma classe média alta acaba desalojando os habitantes tradicionais de um bairro para transformá-lo em um lugar chique e mais caro. Isso ocorreu em todas as grandes cidades: o Soho ou Williamsburg, em Nova York, são o paradigma.

E esse tema ameno pode ser fonte de inspiração para um disco? Pois sim. Através da metáfora de um planeta devastado por uma catástrofe nuclear e no qual resta um último cabaré, a brasileira Cibelle desenha o argumento de seu último disco, "The Las Venus Palace Resort". Ou pelo menos é isso que ela diz na entrevista.

"No álbum também falo de outro planeta mais limpo, Plutão. Mas não quero estar lá. Eu quero estar onde você pode ser quem é e onde há todo tipo de gente. Nas cidades, os lugares maravilhosos costumam estar nos bairros com bordéis. São lugares para onde se transferem os estudantes e os artistas, porque são baratos e depois começam a ser caros", resume a cantora, que vive em Dalston, no leste de Londres ("nunca piso no oeste").

O terceiro álbum dessa artista impetuosa que se apresenta para a entrevista com os cabelos descoloridos e diz que o que mais lhe interessa hoje é a física quântica e a astrologia, é construído à base de uma mistura de punk, psicodelia e ares de cabaré com um gosto de Tom Waits plastificado.

A coisa começou quando Cibelle conheceu Damian Taylor (produtor de Björk) em um concerto em São Paulo. Conversaram a noite toda, bateram papos pela internet afastados pelo Atlântico e Taylor lhe mandou depois alguns "loops". "Pedi que ele voltasse a São Paulo e o levei para ver uma atuação de alguns amigos", ela lembra.

Os colegas em questão eram Aloyha Copacabana, uma "banda visual" brasileira cujos membros poderiam ser uns New York Dolls vindos do espaço, que se dedicam a cantar em cima de outras canções utilizando letras diferentes das originais. Assim, dessa espécie de karaoke disléxico surgiu uma das linhas essenciais do disco. Taylor ficou com a cópia e voltou ao Canadá para produzir o trabalho.

Depois de pouco tempo o torpedo brasileiro chegou a sua casa (ela movimenta tanto os braços quando fala que seus anéis saem voando) para acabar de pôr as vozes. Depois o resultado viajou até Los Angeles para receber os últimos acertos que lhe aplicou Thom Monahan (Au Revoir Simone, Devendra Banhart). O disco tem três versões. Mango Tree (da trilha sonora do filme de James Bond "Dr. No"), "Being Green" (a canção da rã Kermitt, Gustavo na versão espanhola) e "Lightworks" (do compositor pioneiro da música eletrônica Raymond Scott).

Deste último, Cibelle fala maravilhas: "Fazia música para desenhos animados, mas na realidade era um grande músico de jazz. Você tira o sintetizador e fica o jazz", explica sobre o compositor dos anos 1940. Algo como se tirassem os artistas de um bairro gentrificado; o que fica é mais uma vez um bairro.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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