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21/04/2010

Opinião: O eixo Sul-Sul

El País
Miguel Ángel Bastenier
  • Os presidentes de Rússia, Brasil, China e Índia durante a cúpula dos emergentes realizadas na semana passada em Brasília; para o autor, o BRIC carecem de vínculos institucionais

    Os presidentes de Rússia, Brasil, China e Índia durante a cúpula dos emergentes realizadas na semana passada em Brasília; para o autor, o BRIC "carecem de vínculos institucionais"

Se alguém duvida de que a unipolaridade vira mortadela que pergunte ao BRIC. A sigla formada pelas iniciais de Brasil, Rússia, Índia e China designa um novo clube de nações que põe em questão a ordem mundial, que já era fluida depois do desaparecimento da União Soviética.

Os índices macrométricos desses quatro gigantes são conhecidos: com mais de 2,7 bilhões de habitantes, têm 40% da população mundial; superam os 20% de seu PIB; Índia e China são Terceiro Mundo clássico, Brasil está deixando de sê-lo e Rússia evitou cair nele; a raça branca - Brasil e Rússia - apenas contribui com 200 ou 250 milhões de membros do grupo; o cristianismo, todas as suas versões compreendidas, figura com 300 ou 350 milhões e o restante se reparte em hinduístas, budistas, muçulmanos e o culto aos antepassados que em tempos de Mao se denominava a "tenda de Confúcio"; e quanto a línguas, o mandarim e o hindi, com mais de 1 bilhão de falantes cada, predominam. Mas toda essa taxonomia só fala de diferença, heterogeneidade, amálgama. Deve haver algo diferente que aproxime esses países, que explique o interesse em coordenar-se, em crer que algo no futuro lhes é comum.

O cientista político francês Dominique Moïsi propunha em um artigo de 2007 quatro categorias: países de "apetite", "ressentimento", "medo" e "indecisos". Os quatro BRICs entram de cheio no primeiro capítulo, porque pensam que chegou sua hora de aproveitar a globalização, o consumo, a gestão de uma nova riqueza e de uma soberania exaltada no mundo.

O Japão abriu a via, com a abertura da dinastia Meiji em 1868, e a Rússia recupera essa trajetória, iniciada pelo czarismo no início do século 20, e como diz Tzvetan Todorov - "O medo dos bárbaros" - "pode se enriquecer porque não se vê lastreada pela necessidade de lutar pelo poder mundial"; para a China significa voltar a ser o "império do centro"; a Índia alcança uma maioridade depois de sua reinvenção como Estado; e o Brasil reclama o que crê que lhe corresponde pelas riquezas que sua terra e seu mar abrigam. A opção do "ressentimento" tampouco os deixa indiferentes.

Qualquer um que tenha visitado as grandes cidades chinesas nos últimos anos, os do verdadeiro "Grande Salto para a Frente", terá sofrido a escala de preços só para ocidentais, e em nível macro a maciça falsificação de marcas europeias é praticada não só como fraude mas compensação pelo semicolonialismo que as grandes potências infligiram à China durante um século de humilhações.

A súbita descida aos infernos da Rússia depois de seu suicídio em 1989-91 deixou muitos russos - e não só comunistas - com a sensação de que o mundo havia se aberto sob seus pés, e unicamente a terapia de Vladimir Putin veio atenuar esse sofrimento, mas a convalescença ainda não terminou. O que melhor representa essa comunidade do ressentimento é um passado colonial de exploração e escravidão, e modernamente os intercâmbios desiguais.

A Índia viveu esse passado, mas a adoção de uma democracia à britânica e o fato de ter-se constituído como Estado graças a Londres, que unificou sob seu domínio o subcontinente hindustânico, certamente aliviam seus pesares. E o Brasil não reconhece em Portugal, talvez pelo abismo de magnitudes, a potência colonial culpada, pelo menos não como a Venezuela chavista e a Bolívia indigenista fazem com a madrasta Espanha. Mas todos participam um pouco da espécie.

O medo pertence totalmente à Europa, mas os EUA não estão tão longe de somar-se a ela. É a era pós-heróica pela qual as etnias brancas, recostadas em um desenvolvimento que nem a pior crise pode volatilizar, consideram que não há aventura externa que justifique o derramamento de sangue: o próprio.

A dos indecisos, finalmente, é uma categoria "contêiner" para recolher os que sobram ou circulam de uma situação a outra. O Equador poderia estar aí.

Os BRICs, que no fim de semana passado se reuniram em Brasília, não são uma confederação, não têm estrutura, carecem de vínculos institucionais e um deles, a China, nem sequer é uma democracia; são apenas um clube com interesses comuns verificáveis em votações da ONU, declarações contra a intervenção americana no mundo islâmico e uma nova linguagem comum e global. Embora dois deles, China e Rússia, abranjam todos os paralelos, os BRICs são o Sul do Sul. Um eixo para o século 21.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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