UOL Notícias Internacional
 

24/04/2010

Mudança de rumo nas relações entre EUA e Israel

El País
Carlos Mendo
  • O vice-presidente dos EUA, Joe Biden, durante encontro com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, durante visita oficial do representante americano ao país

    O vice-presidente dos EUA, Joe Biden, durante encontro com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, durante visita oficial do representante americano ao país

Que o governo Obama deu nos últimos tempos uma virada de 180 graus em sua política com relação a Israel é algo que parece evidente para todo mundo, exceto talvez para o atual primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que continua agindo como se os problemas entre os dois governos se reduzissem a uma disputa municipal sobre a construção de 1.600 moradias no subúrbio judeu de Ramat Shlomo, situado em Jerusalém oriental - área reclamada pelos palestinos como capital de uma futura Palestina independente.

O anúncio, realizado durante uma visita a Israel no final de março do vice-presidente Joe Biden, talvez o dignitário mais pró-israelense do atual governo, provocou indignação na Casa Branca, não só pela inoportunidade da medida, divulgada em plena visita de Biden, mas por ocorrer pouco depois de se aceitar a retomada das conversações entre israelenses e palestinos, através dos EUA, depois de semanas de esforços dos dois lados por parte do enviado de Obama à região, o ex-senador George Mitchell. Inclusive dias antes do incidente o presidente Obama havia dispensado uma recepção gélida a Netanyahu na Casa Branca - não se permitiu cobertura da mídia da visita à mansão presidencial -, por sua negativa a congelar a ampliação de assentamentos em Jerusalém e na Cisjordânia, como lhe havia pedido o presidente americano.

"A mudança dos interesses da América no Oriente Médio significa que Netanyahu deve optar entre enfrentar o presidente americano ou sua ala direita." Nunca se pôde dizer tanto em tão poucas palavras, porque a advertência não procede de nenhum inimigo de Israel. Elas foram escritas recentemente no "New York Times" pelo vice-presidente e diretor de política externa do Instituto Brookings, Martin Indyk, um judeu-americano que foi em duas ocasiões embaixador dos EUA em Israel. Para acrescentar na continuação que "se [Netanyahu] continuar se dobrando aos ministros de seu gabinete que se opõem à paz, as consequências para as relações entre EUA e Israel poderão ser graves".

O diplomata americano refere-se em seu artigo aos "interesses americanos no Oriente Médio". E são esses interesses que parecem ter mudado substancialmente em consequência das guerras no Iraque e no Afeganistão. Recentemente, Obama apontou a nova direção da política americana para a região, quando afirmou que "conflitos como os do Oriente Médio estão nos custando demais em termos econômicos e de baixas".

Uma declaração que ocorreu pouco depois de o general David Petraeus, chefe militar americano para o Oriente Médio, manifestar no Congresso que a falta de acordo no conflito palestino-israelense cria "um ambiente hostil [para os EUA] na região". Mas seria injusto não lembrar um antecedente importante que serviu para a formulação dessa nova política de equilíbrio entre as partes. Porque foi exatamente a então secretária de Estado, Condoleezza Rice, em um discurso pronunciado em Jerusalém há três anos, muito pouco aplaudido na época, quem qualificou pela primeira vez de "interesse estratégico" dos EUA a consecução de um acordo de paz entre Israel e os palestinos.

"A experiência prolongada de privação e humilhação pode radicalizar inclusive pessoas normais", disse em relação à situação dos palestinos. Infelizmente para Rice, os "interesses estratégicos" de seu presidente, George W. Bush, estavam nesse momento concentrados em estabilizar a gravíssima situação do Iraque com a implementação da "doutrina Petraeus", com o famoso aumento de efetivos e a política de captação dos líderes tribais sunitas.

A mudança de atitude de Obama em relação a Israel é realmente notável, especialmente se se ler atentamente o discurso que ele pronunciou durante sua campanha eleitoral diante do mais poderoso lobby israelense-americano - o AIPAC. Nesse discurso, que corresponde a uma liturgia seguida por todos os aspirantes à Casa Branca, Obama não só prometeu manter os laços indestrutíveis entre os dois países, como se declarou a favor de uma Jerusalém "única e indivisível", afirmação que não foi compartilhada por seu adversário republicano, John McCain, nem sequer pelo então primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert.

A realidade é que as relações entre os dois países estão passando por seu momento mais difícil desde 1975, quando o presidente Gerald Ford exigiu de Israel a retirada do Sinai para facilitar um acordo de paz com Egito, obtido durante o mandato de Jimmy Carter. Porque é um mito a afirmação de que Washington sempre atuou como marionete de Israel. (Um dia lhes contarei as relações desde a criação do Estado judeu há 62 anos.) O importante para Israel é que Netanyahu perceba agora que os interesses estratégicos dos EUA mudaram.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,45
    3,141
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,39
    64.684,18
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host