UOL Notícias Internacional
 

27/04/2010

O ódio político e os meios de comunicação nos EUA

El País
Antonio Caño

"Provavelmente seria justo dizer que a cacofonia dos atuais meios de comunicação - nos quais o rumor e a invectiva frequentemente substituem os fatos, nos quais se expõem a gritos solenes reflexões, nos quais é possível que as pessoas creiam estar plenamente informadas sem sequer ter-se aproximado de uma ideia que contradiga seus preconceitos - exerce certo papel na polarização de nosso sistema político e no crescente cinismo do eleitorado."

Embora qualquer leitor possa pensar que esta opinião se refere a nosso país, foi expressa neste domingo pelo diretor de "The New York Times", Bill Keller, e refere-se à situação dos meios de comunicação nos EUA, onde cada dia cresce a preocupação por sua responsabilidade na deterioração da convivência política.

A mídia sempre gozou de um grande reconhecimento neste país, que a considera um dos pilares fundamentais de sua democracia. Quando os EUA se estenderam para o oeste em lombos de cavalos e em cima de carroças, no século 19, os jornais eram com frequência a única referência de civilização em um ambiente selvagem. Desde então, seu papel foi crescendo até se transformar no símbolo de uma superpotência, ao lado de suas forças armadas, suas universidades ou sua grande indústria. Watergate ocupa o mesmo espaço de glória na história americana que a libertação dos escravos ou o desembarque na Normandia.

Esse reconhecimento está sendo seriamente contestado hoje. Como provam pesquisas recentes, a população atribui à mídia grande parte da culpa pelo clima de tensão que a sociedade americana vive há algum tempo e, de forma mais aguda, no último ano, depois da eleição de Barack Obama. Entre os nomes citados pelos cidadãos como promotores do ódio, além de vários políticos, aparecem jornalistas como Glenn Beck e Rachel Maddow, embora o primeiro seja duplamente citado.

Beck é a figura máxima da Fox News e dedica seu programa diário a alertar constantemente a população sobre as supostas intenções de Obama de rescindir seus direitos e liberdades. Maddow é uma das estrelas do MSNBC - o canal de notícias 24 horas da NBC -, e seu sucesso se baseia na defesa sem complexos das ideias da esquerda contra o que considera uma campanha recriminatória de parte da direita. De alguma maneira, compartilham linguagens e atitudes incomuns em um país em que os jornalistas estão proibidos por suas empresas de declarar suas afinidades políticas ou participar de qualquer ato de campanha eleitoral - incluindo doações anônimas -, com o fim de preservar sua independência.

Beck e Maddow são apenas, em todo caso, o símbolo dos tempos que correm. A própria MSNBC acaba de demitir um jornalista que se queixou ao vivo do comportamento sectário de Keith Olbermann, um de seus apresentadores mais famosos. E isso é nada, comparado com a persistente campanha de quase todos os programas da Fox, que se transformou nos últimos meses no principal motor e alto-falante do movimento ultraconservador Tea Party. Inclusive as páginas de opinião do respeitado "The Wall Street Journal" adquiriram, desde que o jornal foi comprado por Rupert Murdoch em 2007, um tom belicoso e parcial incoerente com a nobreza dessa marca.

Mas a realidade é que o "Wall Street Journal" é o único dos 25 maiores jornais americanos que aumentou sua circulação no último ano, e que os programas da Fox aumentam sua audiência no mesmo ritmo em que diminuem as vendas do "New York Times". A televisão conservadora, também propriedade de Murdoch, é a primeira entre as cadeias de notícias. Beck, Maddow e Olbermann são, para desânimo dos nostálgicos de Walter Cronkite, os principais sucessos de suas respectivas companhias.

As dúvidas sobre o papel dos meios de comunicação também coincidem com a incorporação ao jornalismo influente de diversas propostas da imprensa na internet. Ainda é difícil calibrar seu efeito final, mas o sucesso desse setor contribuiu no mínimo para agravar a confusão e o desânimo entre a mídia tradicional.

Esse panorama já teve sua influência, certamente, em eleições passadas. Obama, por exemplo, foi favorecido pelo acesso do eleitorado jovem à divulgação de sua candidatura na web. Mas resta ver como seria este país sem o predomínio de grandes meios de comunicação independentes, ilustrados e prudentes. É conhecida a consideração de Thomas Jefferson de que, se tivesse de escolher entre democracia e imprensa livre, ficaria com a segunda. Foram escritos centenas de volumes sobre essa complexa contradição. Mas os EUA se defrontam hoje com ela com mais motivo e risco que nunca.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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