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28/04/2010

O final de uma história miserável

El País
Antonio Caño
Em Washington
  • O ex-ditador panamenho Manuel Antonio Noriega em 1989

    O ex-ditador panamenho Manuel Antonio Noriega em 1989

Os EUA viram uma página negra na América Latina, e Noriega culmina uma vida de complôs e segredos

Como o de tantos ditadores, foi um final amargo o de Manuel Antonio Noriega. Era difícil reconhecer no ancião de andar trêmulo, que na segunda-feira (26) à noite subiu em Miami no avião que o deportava para a França, o obscuro general de olhar terrível cuja simples menção atemorizava o Panamá nos anos 1980.

Amargo, mas previsível final, é verdade, para uma vida dedicada à venda de segredos, ao tráfico de informação, suborno, chantagem, intimidação, compra de lealdades e repressão de qualquer gesto de nobreza que pudesse crescer ao seu redor. Tendo chegado ao poder em 1982, em um tempo em que sobre sua figura girava a estabilidade da América Latina, Noriega chegou a se considerar tão imprescindível e poderoso para enganar ao mesmo tempo o cartel de Medellín, o governo cubano, os sandinistas e a CIA. Deixaram-se enganar por um momento, mas quando chegou a hora, em 1989, o presidente George Bush enviou os fuzileiros navais para detê-lo no Panamá e foi transferido para uma cela em que passou os últimos anos.

Com sua entrega à França, os EUA fecham mais uma página de seu livro negro na América Latina, e Noriega, aos 72 anos, ganha alguns dias de protagonismo - e talvez de liberdade - antes de sua morte. Isso é tudo. Pouco mais resta por escrever desse assunto. A história lembrará de Noriega não como mais um ditador sanguinário e visionário da região, mas como um ditador miserável, vulgar, sem credo além de sua própria sobrevivência em um país belo mas refratário ao heroísmo.

Os EUA, por sua vez, manifestam no caso Noriega toda a ruindade e incompetência de sua antiga política para a América Latina. Utilizado como um parceiro da CIA por sua capacidade de acesso aos inimigos de Washington, o governo de Bush pai não teve inconveniente em atiçar uma rebelião interna e, em última instância, decidir uma invasão que custou centenas de vidas, para acabar com ele quando sua presença começou a ser incômoda.

Noriega simplesmente sabia demais. Esse conhecimento foi muito útil às vezes. Os principais chefes do cartel de Cali, por exemplo, foram detidos na Espanha graças a um sopro de Noriega. Mas vivia em um mundo em que a informação, assim como lhe trouxe riqueza e poder, podia condená-lo depois ao inferno. Quando os americanos decretaram seu final, nenhum dos que ele considerava seus amigos - Fidel Castro ou Daniel Ortega, que já era então presidente da Nicarágua - moveram um dedo a seu favor. Noriega conhecia o negócio das drogas em detalhe, os envolvimentos de uns e outros, e acabou se transformando, portanto, em um estorvo para todos.

Viveu toda a sua vida entre segredos e complôs. Talvez torturado intimamente por uma varíola que lhe deixou sequelas estéticas indeléveis, Noriega chegou ao topo partindo do controle dos serviços secretos, que eram seu hábitat natural.

Embora carregado de estrelas em seu uniforme, ganhou fama em escritórios à meia-luz e não nos quartéis. Acusado pelo rumor popular de todos os atropelos cometidos no Panamá nas últimas décadas - desde a morte de Omar Torrijos à do mítico opositor Hugo Spadafora -, a verdade é que Noriega nunca precisou de um punho de ferro para manter seu país sob controle.

Dizem seus advogados que agora quer voltar ao Panamá para brincar com seus netos. Até os personagens mais abjetos têm gestos de humanidade em algum momento. Mas não é fácil imaginar Noriega acariciando seus pequenos descendentes. Noriega gostava do bom uísque e das belezas locais, e levou a vida pessoal que cabe imaginar em uma figura de sua trajetória política.

Sua companhia produzia sempre uma sensação de espanto, provocado mais por sua lenda do que por seus modos. À sua maneira, Noriega era um homem educado. Distante, frio, implacável, mas correto. Nos últimos meses de seu mandato - sempre foi um homem forte, nunca foi eleito presidente - viu-se obrigado a interpretar um papel de caudilho revolucionário no qual ficou patético. Cercado pelos fuzileiros navais, buscou refúgio na nunciatura do Panamá, onde suas cuecas vermelhas se destacavam entre a roupa estendida pela empregada.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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