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29/04/2010

Encontro dos Centros de Memória evoca depoimentos da repressão na Europa comunista

El País
Tereixa Constenla
Em Salamanca

Ulrich Mühe morreu em 2007, depois de ter roçado uma glória sarcástica. Um ano antes havia sido premiado por sua interpretação de um eficaz capitão da Stasi, a ubíqua polícia secreta da República Democrática Alemã, que devia espionar um casal de artistas. No filme, "A Vida dos Outros", o capitão conseguia transformar a espionada em espiã do regime. Mais uma. O filme conquistou o Oscar e milhares de aplausos. Mühe estava impressionante. Até aqui a glória. Qual era o sarcasmo? Que a primeira esposa do ator havia colaborado com a Stasi no passado.

A única coisa boa dos arquivos da Stasi é que eles existem. Qualquer alemão tem o direito de consultar se há informação sobre ele e quem a proporcionou. Mais de 2,6 milhões de pessoas vasculharam os fundos para averiguar se foram espionadas e por quem desde que se abriram os arquivos do regime comunista, em 1992. Contra alguns temores apocalípticos, a ânsia de saber não ia de mãos dadas com o afã de vingança. "Não conhecemos nenhum ato violento de uma vítima contra seu acusador", disse na terça-feira Helge Heidemeyer, representante da Comissão Federal de Documentos da Stasi, no 2º Encontro Internacional de Centros de Memória Histórica, que se realiza em Salamanca (Espanha).

A Stasi foi minuciosa, obsessiva. Colocados em fila, seus arquivos ocupariam 51 quilômetros. Naquele universo fechado que tudo ouvia, a desconfiança se transformou em arma de sobrevivência. "Enfrentar o passado às vezes é doloroso e emotivo, mas põe sua vida em suas mãos. Agora já sabem quem espionava e quem não, podem provar se foram vítimas da Stasi e reabilitar seu nome se não colaboraram", contou Heidemeyer.

Porque durante anos a Alemanha Oriental pareceu um país de espiões. Até 174 mil pessoas colaboraram com a polícia comunista em 1989, pouco antes da queda do Muro de Berlim. Nesse mesmo ano, na Polônia, os "informantes" não chegavam a 100 mil, segundo dados apresentados na terça-feira por Krzysztof Persak, do Instituto Nacional da Memória da Polônia.

O encontro, organizado pela segunda vez no Centro Documental da Memória Histórica, põe em seu lugar os arquivos, uma arma incontestável contra a reescritura histórica ou a tentação do silêncio. Já avisou o poeta Juan Gelman: "Desaparecem os ditadores da cena e aparecem imediatamente os organizadores do esquecimento". Nos escritórios da Stasi o fizeram às pressas, destruindo documentos e gravações por qualquer método. "Queimaram, molharam e também rasgaram com as mãos, mas não foram totalmente destruídos", contou Heidemeyer. São o grupo dos "pré-destruídos". Ocupam cerca de 15.500 caixas. Já se conseguiram refazer 40 mil páginas. Graças ao que foi recuperado se desmascarou algum funcionário parlamentar que negava ter colaborado com a polícia secreta.

A transparência da Comissão Federal de Documentos da Stasi serviu de guia para outros países de passado comunista, como a Polônia, que começou a ajustar contas com sua história recente em 2000, com a criação do Instituto Nacional da Memória. "Durante a transição foram considerados agitadores os que pediram para abrir os arquivos, e muitos documentos foram destruídos", contou Krzysztof Persak, pesquisador e integrante da Comissão para o Processamento de Crimes contra a Nação Polonesa.

O Instituto Nacional da Memória, além de custodiar 89 quilômetros de arquivos de serviços repressivos da era comunista, promove investigações penais e acusou 400 pessoas por crimes, torturas ou detenções. "O problema é levar à justiça os juízes militares que assinaram condenações de morte, porque se escondem entre si", lamentou Persak.

As deportações maciças para a União Soviética ou as limpezas étnicas contra poloneses cometidas por nacionalistas ucranianos são alguns dos assuntos investigados pelo instituto, cujo diretor morreu no acidente aéreo em que pereceram várias autoridades da Polônia, incluindo seu presidente, Lech Kaczynski, justamente quando viajavam à Rússia para participar de um ato de desagravo pela chacina de Katyn. A União Soviética, responsável por aquela matança de 22 mil poloneses, negou sua participação e inclusive permitiu que o tribunal de Nuremberg julgasse por ela vários oficiais nazistas, finalmente absolvidos.

A farsa foi revelada em 1990, graças ao presidente Mikhail Gorbachev, que entregou a seu colega polonês Jaruzelski a lista dos fuzilados e outros documentos. As investigações iniciadas então foram interrompidas em 2004, sob o mandato de Putin, quando se ordenou declarar segredo de Estado 116 dos 183 volumes da investigação. Novamente os organizadores do esquecimento.

Às vezes ressurgem sobre terreno conquistado. O Tribunal Constitucional da Romênia declarou inconstitucional a lei que desnudava a repressão do regime de Nicolau Ceausescu. "Continha veneno", opinou o tribunal. Dragos Petrescu, do Conselho Nacional para o Estudo dos Arquivos da Securitate, revelou a chave: "Os juízes do Constitucional precisam ter mais de 15 anos de experiência. Haviam subido durante o antigo regime!" Na Romênia, a colaboração com a Securitate não era obrigatória, mas incentivada graças à chantagem e a subornos como a autorização para viajar ao Ocidente. A complexidade que representava sair do país é vista nitidamente no filme "Como Celebrei o Fim do Mundo" (2006), em que um menino de 7 anos, Lalalilu, planeja assassinar o ditador para impedir que sua irmã fuja de Bucareste em 1989.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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