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04/05/2010

"O Brasil é o retrato da globalização", diz Cristovam Buarque

El País
Em Madri (Espanha)
  • O Senador Cristovam Buarque discursa durante cerimônia de sanção do projeto de piso salarial nacional básico para professores

    O Senador Cristovam Buarque discursa durante cerimônia de sanção do projeto de piso salarial nacional básico para professores

Se algo apaixona o ex-ministro da Educação brasileiro e atual senador Cristovam Buarque (nascido em Recife em 1944) é buscar respostas. Um descanso durante sua estada em Madri serviu para uma rápida visita a uma livraria, onde adquiriu três livros de autores muito diferentes (o austríaco Stefan Zweig, o libanês Amin Maalouf e o espanhol Fernando Díez Martín), mas com um tema em comum. Os três títulos procuram porquês, e não estranha que seu livro, "Um Novo Mundo Feliz: Dicionário pessoal dos horrores e das esperanças do mundo globalizado" (ed. Taurus, 2010), busque precisamente as modificações que a modernidade deixou nas palavras. "Há novas palavras, ou as mesmas mas com outros usos. Para ter as soluções, é preciso entender o que enfrentamos."

"A globalização causou uma brecha entre ricos e pobres que supera a desigualdade e exige outras interpretações", afirma. Engenheiro, economista e ex-reitor da Universidade de Brasília, Buarque não esquece que foi um professor. A cada pergunta, pede papéis e desenha diagramas para esclarecer suas respostas. "Não há país que exemplifique melhor os problemas atuais que o meu. O Brasil é o retrato da globalização. Apenas alguns metros separam os milionários dos mais pobres, mas não existe uma convivência."

Segundo Buarque, a globalização aumentou o abismo entre as classes. "É verdade que há um mundo globalizado, mas este só pertence à classe alta", salienta. Dá como exemplo o hotel onde se realiza a entrevista. "Este hotel não se distingue de um em Nova York, em São Paulo ou em Kinshasa", afirma. "Os ricos voam nos mesmos aviões, leem os mesmos livros, vestem a mesma roupa e até usam a mesma gravata." Um mundo separado por "muralhas modernas", o que define como "a cortina de ouro": a firme divisão entre classes. O maior risco, acrescenta, é o desinteresse e a frieza da sociedade moderna em relação à miséria. Frieza diante de assuntos tão sérios quanto as "meninas Paraguai" que menciona em seu livro: menores de idade que se prostituem nas cidades do nordeste do Brasil por R$ 1,99.

A solução? "A educação. A população não deve aspirar a ter todos o mesmo carro, e sim as mesmas oportunidades", afirma. As deficiências do sistema educacional causam "o desperdício de talentos". "O Brasil tem cinco Copas do Mundo, mas nenhum Prêmio Nobel. A falta de preparo e a pobreza são um círculo vicioso", comenta.

Quando foi governador de Brasília, Cristovam Buarque implementou o programa Bolsa Escola, uma ajuda dada em troca de as crianças assistirem a 90% das aulas. A evasão escolar se reduziu de 10% para 0,4% e o programa foi adaptado para outros países da América Latina.

O que acontecerá se as coisas não mudarem? "A desigualdade será um eufemismo para nos referimos à realidade. A brecha será tão grande que uma classe não se reconhecerá na outra. Os seres humanos seremos tão estranhos uns aos outros que será como quando os europeus chegaram à América e discutiam se os indígenas tinham alma."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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