UOL Notícias Internacional
 

05/05/2010

Trinta anos e quatro guerras depois da morte de Josip Broz Tito, não resta quase nada do Estado iugoslavo

El País
Ramón Lobo
Em Madri
  • Homem limpa os restos de vidro no restaurante Tito, decorado com um busto do falecido ditador iugoslavo Josip Broz Tito, na auto-estrada E-75, perto da cidade de Paracin, a 120 quilômetros ao sul de Belgrado

    Homem limpa os restos de vidro no restaurante "Tito", decorado com um busto do falecido ditador iugoslavo Josip Broz Tito, na auto-estrada E-75, perto da cidade de Paracin, a 120 quilômetros ao sul de Belgrado

Quase nada resta da Iugoslávia, o país que soube nadar entre dois mundos confrontados durante a Guerra Fria. Não resta Estado em qualquer de suas manifestações, nem idioma comum. Embora sérvios, croatas e bósnios falem o mesmo, se empenham em afirmar que são diferentes. Só permanece a memória de um tempo melhor entre os mais idosos, que ligam a figura de Josipa Broza Tita, como se diz em servo-croata, à paz, às viagens e à liberdade de usar calças jeans.

Nesta terça-feira completaram-se 30 anos da morte do homem que governou durante 35 - com punho mais ou menos de ferro - um país com seis nacionalidades, vários idiomas e três religiões, inventado depois do naufrágio dos impérios. Dez anos depois de sua morte, sua obra saltou pelos ares devorada pelos nacionalismos sérvio e croata, sobretudo, o ódio acumulado e o medo. Uma história complexa e dolorosa nas mãos de políticos irresponsáveis como Franjo Tudjman e Slobodan Milosevic deixou dezenas de milhares de mortos e feridos e milhões de desalojados e refugiados.

Quatro guerras - Eslovênia e Croácia (1991), Bósnia-Herzegovina (1992-1995) e Kosovo (1999) - apagaram a sangue o legado de um homem que, mais que um visionário ou um estadista, foi um grande ator capaz de criar uma imagem na Cortina de Ferro, outra no Ocidente e uma terceira em casa, e sobreviver a todas as contradições. Seu país, porém, não sobreviveu às suas.

Ódios latentes desde a Idade Média (essencial o livro de Ivo Andic, "Uma Ponte sobre o Drina", agora traduzido para o espanhol diretamente do servo-croata) e sobretudo da ocupação nazista ("A Pele", de Curzio Malaparte), foram mais fortes que alguns vínculos mais propagandísticos que reais e eficazes.

Trinta anos depois da morte do marechal Tito, sua figura nos Bálcãs se reduziu a debates na televisão entre historiadores, uma moderada titomania em Sarajevo, símbolo daquela unidade plurinacional e vítima desse conto, uma página no Facebook intitulada "Por que 30 anos depois da morte de Tito a Iugoslávia continua vivendo em nós" e um aumento significativo das visitas turísticas à Casa das Flores em Belgrado, onde ele está enterrado. O mausoléu - até alguns anos atrás abandonado por uma Sérvia que considera Tito o principal inimigo de seu nacionalismo - é uma prova de que os tempos mudam, embora muito devagar. Agora está limpo e atraente, porque essa Sérvia que tenta sair do túnel das quatro guerras balcânicas (começou todas e perdeu todas) descobriu o turismo e o dinheiro, e os turistas gostam da figura de Tito, o grande ator, o homem que soube guerrear como chefe dos "partisans" contra os nazistas, cativar os britânicos por seu antistalinismo, mas que não soube construir um país.

A Iugoslávia não existe mais. Restam as canções de uma época e alguns filmes, milhares de livros e uma sensação coletiva de vertigem. Agora todos olham para a União Europeia (a Eslovênia entrou) como saída econômica e política, um espaço maior que dilua as fronteiras pelas quais se travaram tantas batalhas. A ponte sobre o Drina em Visegrado permanece como monumento e símbolo de um passado que faz parte do futuro.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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