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10/05/2010

"Eu podia ter matado bin Laden"

El País
Ignacio Cembrero
  • Terrorista Osama Bin Laden

    Terrorista Osama Bin Laden

Nasser al Bahri, conhecido como “Abu Jandal” (“O Assassino”), foi guarda-costas do líder da Al Qaeda durante três anos. Seu chefe o havia incumbido da missão de executá-lo antes de ser capturado pelos norte-americanos

“Se um dia os norte-americanos nos sitiarem, quero que você me mate com esta arma”. Depois de dizer isso, Osama bin Laden tirou um revólver de sua túnica e o entregou a seu guarda-costas. “Acredito que Alá não queira isso, mas se algum dia o inimigo nos cercar, e se tivemos certeza que seremos presos, prefiro que me incrustem duas balas na cabeça antes de ser capturado”. “Quero morrer como um mártir e não acabar na prisão!”

Meses antes dos atentados de 11 de setembro de 2001, que derrubaram as Torres Gêmeas de Nova York, o líder máximo da organização terrorista Al Qaeda já previa que algum dia a CIA ou o Pentágono o procurariam nas montanhas do Afeganistão. O homem em que bin Laden confiava para que o matasse antes que ele fosse preso se chama Nasser al Bahri, também conhecido como Abu Jandal (O Assassino), e foi seu guarda-costas durante três longos anos (1997-2000). Um desentendimento depois de uma viagem, há quase uma década, colocou fim a esta estreita relação entre os dois sauditas de origem iemenita.

Bahri, de 38 anos, vive agora em Sanaa (Iêmen), está casado e é pai de cinco filhos. Trabalha numa empresa privada que tenta melhorar a formação dos funcionários. “Levo uma vida normal, exceto por ter recebido ameaças da Al Qaeda no celular por tê-los traído”, explica ao “El País”, por telefone, através de um intérprete. “Esses avisos me obrigam a ficar atento”.

O ex-guarda-costas acaba de publicar um livro sobre o terrorista a quem protegeu. Escreveu “A Sombra de bin Laden” (Paris, editora Michel Lafon) em colaboração com o jornalista Georges Malbrunot, do jornal Le Figaro, que em 2004 foi sequestrado quatro meses pela Al Qaeda no Iraque. “É o primeiro testemunho público detalhado de alguém de dentro, da cúpula da Al Qaeda”, ressalta o jornalista. Bahri “é mais importante que qualquer um dos presos que transferimos a Guantanamo porque tinha um acesso direto a bin Laden”, declarou, depois de deixar o cargo, Michael Scheuer, ex-responsável pela Estação Alec, a unidade da CIA encarregada de capturar bin Laden. Ela foi desmantelada em 2005.

Nos anos 80, Bahri ainda era muito jovem para se juntar à luta contra a URSS no Afeganistão, mas em 1993 chegou a tempo para combater na Bósnia com seus correligionários muçulmanos contra os sérvios. “Aquilo foi meu breve batismo de fogo”, explica. Chegou justamente antes da assinatura dos acordos de Dayton que colocaram fim à contenda. “Depois fui à Somália, ao Tadjiquistão e, em 1996, ao Afeganistão.

Conheceu o homem que seria seu chefe na província de Kandahar. “Naquele momento tive a impressão de estar diante de um homem excepcional, que seguia seu ideal e seus princípios”, continua Bahri. “Além disso, até em situações complicadas ou com interlocutores difíceis, ele nunca perdia a calma; pregava a unidade dos muçulmanos frente ao inimigo comum. Eu me juntei à sua causa”. Para melhorar sua formação militar, Bahri foi enviado a um acampamento perto de Khost. Ali, era apenas mais um entre os jovens árabes que eram treinados no manuseio de armas, até que bin Laden reparou nele. “Visitou o lugar”, lembra-se. “Houve uma discussão e um homem se deixou levar pela raiva contra ele. Parecia ameaçá-lo. Eu o desarmei num piscar de olhos”.

O líder da Al Qaeda então o recrutou como guarda-costas. “Cada vez que ele mudava de lugar, dizia: Abu Jandal deve vir conosco”, afirma Bahri. “A partir de então, não o perdi de vista. Além das minhas qualidades como guarda-costas, acredito que ele gostava da minha personalidade. Dizia que eu era transparente, que não escondia nada dele.” “É verdade que sempre fui honesto com ele”.

Com apenas 25 anos, Bahri começou a tratar com a cúpula da organização terrorista, na qual ele não tinha nenhum poder. “Não tinha nenhuma informação sobre as operações terroristas”, assegura. “Um comitê militar se encarregava de planejá-las”. Um ano antes do 11 de setembro, o guarda-costas encontrou com alguns dos membros do comando que realizou o maior atentado da história, mas não sabia o que eles estavam preparando.

“Eu os vi jogando PlayStation pacificamente numa hospedaria da Al Qaeda no Paquistão”, recorda. “Mais tarde os reconheci por suas fotos na imprensa”. O 11 de setembro “era um segredo muito bem guardado, mas bin Laden fazia alguns comentários que na época nos intrigavam e que meses depois viemos a compreender. Ele dizia que a partir de 1999 aconteceria uma coisa que deixaria todos atônitos.”

“Meu papel consistia em proteger bin Laden, sobretudo quando ele viajava”, prossegue Bahri. E por desempenhar bem esta tarefa, gozava de grande apreço de seu chefe. Prova disso é que quando o guarda-costas sofreu um ferimento a bala numa das pernas em 1998, durante uma batalha contra os homens do comandante Ahmed Shah Massud, foi o próprio bin Laden que assumiu a tarefa de levar-lhe comida e trocar-lhe os curativos. “Até passava mel na ferida para que ela cicatrizasse!”, lembra-se.

A missão do guarda-costas abrangia até mesmo a vida privada de bin Laden. “Em 2000, ele me encarregou de viajar ao Iêmen para pagar o dote a Asmaa, que ia ser sua quarta esposa”, conta Bahri. “Enviou US$ 5 mil junto com as passagens de avião para que ela e seus familiares voassem para o Afeganistão”. Quando cheguei lá, as outras mulheres do chefe terrorista “ficaram incomodadas com o fato de a prometida ser uma iemenita de apenas 17 anos”. “Disseram-me que ela tinha 30”, respondeu o marido.

Antes de Asmaa aparecer, as mulheres de bin Laden já andavam irritadas. A primeira, Najwa, uma síria atraente, mas sem escolaridade, tinha ciúmes da segunda, uma saudita um pouco mais velha e mais erudita com quem o marido costumava discutir teologia islâmica. Todas elas sabiam manejar um fuzil de assalto Kalashnikov para caso precisassem usá-lo em algum momento de sua vida.

Najwa, a esposa síria que se casou com 16 anos, publicou no ano passado, junto com seu filho Omar, um livro (“Crescendo com bin Laden”, editora Oneworld) no qual narra sua vida com o chefe terrorista na Arábia Saudita, Sudão e Afeganistão. Eles o redigiram com a ajuda da escritora norte-americana Jean Sasson. Seu relato da intimidade familiar é muito mais demolidor do que o do guarda-costas. Este recorda, entretanto, que bin Laden ameaçava açoitar, por mau comportamento, os nove filhos que conviviam com ele, “mas só o fazia raramente”. Aos olhos de sua prole, era um avarento. “Minha fortuna não é para vocês, mas pertence ao Islã”, respondia aos filhos quando estes lhe pediam dinheiro. “Não vão herdar um centavo.”

O Islã, ou melhor dizendo, seu profeta Maomé, também era invocado quando os aprendizes de terrorista treinados nos acampamentos se queixavam da comida ruim. “Bin Laden os exortava então a seguir o exemplo da vida ascética do profeta e de seus seguidores”, conta seu ex-guarda-costas.

De bin Laden, ele guarda a imagem de um “moderado”, se for comparado com seu substituto, “o fundamentalista Ayman Zawahiri”. Ele também o descreve como um homem relativamente culto, que cita, por exemplo, frases das memórias do marechal de campo britânico Bernard Law Montgomery e do presidente francês Charles de Gaulle. Acompanhava as notícias internacionais por meio de uma revista que o enviavam desde o Paquistão com artigos traduzidos para o árabe. Era apaixonado pelas corridas de cavalo, jogava futebol como centroavante e também vôlei. “É tão alto que não precisava pular para cortar a bola.”

Bahti diz que se desentendeu com seu chefe em 1998, depois dos atentados contra as embaixadas dos EUA em Nairobi e Dar es Salam, que causaram 263 mortes, muitas delas de muçulmanos inocentes. Acabou comentando com ele. “Ele me respondeu da seguinte maneira: você acredita que os norte-americanos levaram em consideração os danos colaterais quando soltaram a bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki?”, conta o ex-guarda-costas.

Três anos depois, quando aconteceram os atentados de Washington e Nova York, Bahri já não estava no Afeganistão. Rompeu com seu chefe depois de uma viagem à Somália. “Bin Laden me mandou lá para averiguar se poderíamos usar o aeroporto para enviar combatentes e reforçar a luta”, lembra-se. “Quando voltei, ele me criticou por ter sido pouco discreto antes até mesmo de escutar minha versão.”

Ainda assim, Bahri sabe, por meio de seus ex-companheiros de armas, como o chefe terrorista viveu aquela jornada histórica do 11 de setembro: “uns dias antes ele se colocou a salvo, com sua família, num esconderijo na cidade de Kandahar, segundo me contaram”. “Quando chegou o momento, mandou que instalassem uma antena parabólica para ver ao vivo os atentados pela televisão, mas o sistema não funcionou e ele ficou na vontade.”

Na época, o ex-guarda-costas estava preso no Iêmen, submetido a um severo regime de isolamento. Ele havia voltado lá com sua esposa iemenita em 2000, pouco antes do ataque ao navio de guerra norte-americano USS Cole. Quando tentou sair do país, foi detido por seu possível envolvimento no atentado, que aconteceu no porto de Aden. “Não sabia nada do assunto”, repete proclamando sua inocência. Dias depois do 11 de setembro, recebeu na prisão a visita de agentes do FBI que o interrogaram dia e noite. Colaborou. Para o FBI, ele foi a “descoberta de um tesouro de informação de inteligência muito valioso” sobre as redes terroristas de bin Laden, declarou um de seus ex-agentes, Ali Soufan, diante de uma comissão do Senado dos EUA.

Depois Bahri se submeteu a um programa de reabilitação religiosa dirigido pelo juiz iemenita Hamoud al Hitar. “Ele disse que mudou nossa forma de pensar, mas não foi assim”, assegura. “Eu fiz minha própria evolução”. “Agora sei que posso viver minha fé de outra maneira”. “Lamento ter pertencido à Al Qaeda”. “Falo para os jovens não entrarem para a jihad”. Seu arrependimento ao telefone não tem limites: “eu poderia ter matado bin Laden. Pensei em fazer isso numa ocasião. Se eu tivesse feito, teríamos evitado muitas outras mortes”, afirma.

Mas aparentemente seu arrependimento não convence totalmente. As autoridades francesas negaram-lhe o visto para poder apresentar seu livro em Paris. “Vamos tentar lançá-lo na Suíça”, consola-se o jornalista Georges Malbrunot.

Se Bahri acredita que bin Laden está vivo? “Sim”, responde sem titubear. “Se não estivesse, os sites jihadistas acabariam contando isso de uma forma ou outra. Não se pode sepultar uma notícia assim.” “Ele está protegido pelas tribos do Vaziristão (noroeste do Paquistão). A submissão delas a bin Laden se dá, antes de mais nada, razões religiosas, mas elas tampouco esquecem as casas e estradas que ele construiu no local há mais de vinte anos.”

Tradução: Eloise De Vylder

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