A queda de Gordon Brown, um gigante traído por seu caráter

Walter Oppenheimer

Em Londres

  • Simon Dawson/AP

    Primeiro-ministro Gordon Brown concede entrevista em Downing Street, sede do governo britânico, em Londres, onde ele anunciou a renúncia após a confirmação da coalização entre conservadores e liberais para formação do novo governo

    Primeiro-ministro Gordon Brown concede entrevista em Downing Street, sede do governo britânico, em Londres, onde ele anunciou a renúncia após a confirmação da coalização entre conservadores e liberais para formação do novo governo

As dúvidas de Gordon Brown, sempre à sombra de Blair, arruínam sua carreira

Gordon Brown tem todas as qualidades de um grande político: intelecto, paixão, ideais, determinação, uma capacidade de trabalho fora do comum... Mas o caráter nunca o acompanhou. Não por seus famosos maus humores, mas por uma falta de confiança em si mesmo que o faz duvidar de tudo e de todos, que o levou a transformar suas aspirações a ser primeiro-ministro em uma obsessão pessoal. Conseguiu-o na última hora, mas não como desejava: chegou a Downing Street quando os trabalhistas já sofriam o desgaste do poder e passará à história como um dos poucos primeiros-ministros britânicos que não ganhou eleições. 

Com Tony Blair formou uma dupla incontível que criou o Novo Trabalhismo e transformou o partido em uma máquina de ganhar eleições. Mas nunca se conformou com o papel de comparsa, e o casamento durou pouco, embora o divórcio formal demorasse a chegar. Durante dez anos, Brown se dedicou a pôr paus nas rodas de seu rival, e este lhe respondeu solapando sua imagem e dando a conhecer, sempre por baixo da mesa, as fraquezas de seu caráter.

Essas fragilidades, que o tornam incapaz de tomar decisões com presteza e acentuam suas manias de controlador, acabariam por cavar sua tumba poucos meses depois de alcançar seu ansiado desejo de ser primeiro-ministro. Chegou ao nº 10 de Downing Street em junho de 2007 e começou a viver uma inédita lua-de-mel com a opinião pública e, ainda mais surpreendente, com a mídia. Sua gestão durante as tentativas de atentados em Londres e em Glasgow, nas inundações no sudoeste da Inglaterra e em uma epidemia de febre aftosa fez disparar seus níveis de popularidade e as expectativas de voto dos trabalhistas.

A possibilidade de antecipar as eleições e garantir seu próprio mandato de cinco anos toldou sua visão política. E suas eternas dúvidas diante das grandes decisões, as mesmas que durante dez anos o haviam impedido de dar o golpe de graça em Blair, o empurraram na última hora a dar marcha a ré enquanto os tories apresentaram uma oferta fiscal que fez mudar a tendência das pesquisas.

Os trabalhistas começaram então um constante declínio nas pesquisas e Brown afundou ainda mais que o partido. Nunca mais se recuperaria. Viveu uma frágil onda de otimismo por sua atuação decidida - sim, por uma vez decidida - durante a crise financeira. Mas já tinha ultrapassado o ponto sem retorno.

Gordon Brown deixa o cargo no Reino Unido; veja discurso (em inglês)

Gordon Brown não será lembrado por sua gestão à frente do governo, mas talvez sim por sua gestão à frente do Tesouro. Mas inclusive esse legado é posto agora em questão, na medida em que ele é considerado responsável por algumas decisões que em longo prazo agravaram o impacto da crise financeira no Reino Unido. Em 1997, assim que os trabalhistas chegaram ao poder, Brown tomou duas decisões chaves: impediu a entrada da libra no euro e consagrou a independência do Banco da Inglaterra. Muitos críticos creem que Brown se opôs a entrar no euro para irritar Blair, que era partidário da integração. Mas hoje em dia, diante da crise da divisa europeia, até os europeístas britânicos começam a crer que foi um acerto manter a independência monetária.

Mais discutida foi sua decisão de transferir os poderes de controle do Banco da Inglaterra para a FSA, a autoridade reguladora da City. Os conservadores creem que está na origem dos problemas que os bancos sofreram durante a crise. A própria crise gera debate sobre a responsabilidade que Brown pôde ter. Muitos lhe atiram no rosto a frouxidão do quadro regulatório, mas ele se defende com o argumento de que propôs endurecer essa regulamentação desde 1997, mas que isso só poderia ser feito em nível global e que ninguém lhe deu atenção na época.

Seja qual for sua parte de responsabilidade, só os mais mesquinhos lhe negaram um papel chave na gestão do cataclismo financeiro global. Primeiro, nacionalizando o primeiro banco britânico afetado, o Northern Rock. E, segundo, injetando capital público nos bancos, uma solução logo imitada por muitos outros países.

Brown presumiu durante anos do alto crescimento sem inflação da economia britânica, mas agora deve encarar a responsabilidade de deixar o país à beira da bancarrota com uma dívida gigantesca. Grande parte dessa dívida se deve à injeção de capital em serviços públicos, mas ele é censurado por ter torpedeado as reformas que Blair quis implementar para melhorar sua eficácia. Sempre a sombra de Blair.

Mapa eleitoral britânico após as eleições

  • UOL Arte

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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