Zapatero se contradiz e anuncia cortes sociais sem precedentes na Espanha

Fernando Garea

Em Madri

  • AFP

     O primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, durante anuncio do pacote de cortes no parlamento de Madrid, na Espanha

    O primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, durante anuncio do pacote de cortes no parlamento de Madrid, na Espanha

O primeiro-ministro espanhol anuncia "sacrifícios" para os funcionários públicos, os aposentados, os dependentes e a maternidade.

Depois de seis anos de mandato como primeiro-ministro, José Luis Rodríguez Zapatero tomou na quarta-feira (12) uma decisão e cruzou uma das linhas vermelhas que ele mesmo havia prometido nunca ultrapassar: o corte de gastos sociais.

Com um tom mais grave que o habitual e muito mais sério que de costume, Zapatero anunciou em um sombrio plenário do Congresso o que ele mesmo descreveu como "duras medidas, sacrifícios e esforço importante" em forma de cortes onde mais dói. Isto é, a redução do salário dos funcionários, corte de aposentadorias, freio à aplicação da lei de dependência e supressão de ajudas à maternidade, entre outros.

"Nenhum presidente de governo [primeiro-ministro] gosta de comparecer para anunciar cortes, e menos ainda eu", terminou por confessar na hora da réplica. Até agora a vida política de Zapatero é identificada com o sorriso, o otimismo e o anúncio de novas ajudas e direitos, e essa trajetória foi rompida na quarta-feira pelo anúncio dos cortes exigidos pela União Europeia e pelo próprio presidente americano, Barack Obama.

"Assumo esta responsabilidade porque a situação é difícil e seria insensato ocultá-lo", terminou confessando, enquanto nos assentos socialistas se segurava a respiração e se cruzavam olhares de deputados conscientes da complexa situação e do preço político que terão de pagar.

"É agora que mais necessitamos disso, para manter entre nós os investidores e manter a imagem de estabilidade. Não é fácil dirigir-se assim aos cidadãos", disse, também para tentar tornar compatível sua previsão de que o pior da crise passou com o anúncio dos sacrifícios. Até agora Zapatero havia enfatizado que seu governo tiraria a Espanha da crise sem cortes, e sua imagem combinava mais com a da repetição anual do encontro de Rodiezmo, no qual já é tradicional o anúncio de aumentos anuais de aposentadorias.

Na quarta-feira lhe coube ser o porta-voz das más notícias, dirigidas exatamente aos coletivos de que ele mais cuidou em suas mensagens e em sua política. Por isso se concentrou na explicação das circunstâncias como causa última da mudança radical de rumo: o elevado déficit que é preciso reduzir de 11% para 3% até 2013, as dificuldades da Grécia e os ataques especulativos contra o euro.

"As circunstâncias nos obrigaram a tomar essas medidas", afirmou. Há apenas uma semana havia condenado em La Moncloa uma "redução drástica" do déficit e há poucos meses a primeira vice-presidente negava que se fosse romper o pacto de aumento salarial dos funcionários públicos, corrigindo por sua vez o secretário de Estado da Fazenda, que o havia anunciado.

Agora Zapatero enfrenta os sindicatos, embora tenha insistido em que não fará reforma trabalhista sem acordo com os agentes sociais. A paz social que tanto o preocupou durante seis anos como primeiro-ministro saiu corrida do Congresso.

Além disso, embora seu discurso de quarta-feira fosse dirigido sobretudo aos cidadãos e aos mercados, o chefe do governo espanhol passou um mau trago novamente sozinho diante de todos os grupos parlamentares. Já é um costume nesta legislatura, mas a solidão sempre incomoda em momentos difíceis. Alguns, como PP, CiU e PNV, por acusá-lo de demorar na tomada de decisões e outros, como os grupos de esquerda, por censurar que só olhe para o corte de gastos e não para o aumento de ingressos com mais pressão fiscal sobre as rendas mais altas.

É como se começasse outra legislatura diferente e como se tivesse aparecido outro Zapatero diferente. "Acabou-se o Zatapé social", disse-lhe graficamente Joan Ridao (ERC). "Nasceu outro Zapatero", completou Joan Herrera (ICV).

"Se eu tomo decisões difíceis, me critica, e se não as tomo, também", Zapatero acabou dizendo a Mariano Rajoy, em resposta à estratégia do líder do PP de criticar o que se faz e o que não se faz. Porque Rajoy quis derramar sangue e se dispôs a criticar Zapatero por não ter tomado antes medidas impopulares e, ao mesmo tempo, a censurá-lo por iniciar o que chamou de "o mais importante corte de direitos sociais da democracia".

Seu discurso foi o do "eu já disse" e o do populismo de antepor a qualquer corte de gastos sociais a redução de ministérios, começando pela terceira vice-presidência. E até se meteu na confusão de insistir na redução drástica de subvenções a partidos políticos e sindicatos, justamente um dia depois de um relatório da Fazenda ter denunciado suposto financiamento ilegal do PP.

Apresentou Zapatero como um presidente forçado pelos parceiros europeus a fazer as reformas que não quis aplicar em dois anos de crise. "Terá de fazer o que não quis: governar, mas tutelado em um país sob protetorado"; "Disseram na Europa que Zapatero não pode ser deixado sozinho e que é preciso vigiá-lo para que não exporte sua incompetência".

Não foi mais suave no fundo, mas sim na forma, o porta-voz da CiU, Josep Antoni Duran Lleida, em sua nova condição de político melhor valorizado segundo pesquisa do CIS. Falou de "nova retificação" e insistiu na acusação da improvisação: "Passaram dois anos em que o presidente não ouviu nossas reivindicações, mas aceitou em uma semana a loucura que os mercados puseram em sua mesa. Perdeu dois anos de mandato". E Josu Erkoreka (PNV) lhe espetou que suas medidas "comem de uma vez milhares de frases e promessas" pronunciadas nos últimos dois anos.

O corte o pôs em confronto com os partidos minoritários da esquerda que até hoje advertiram, como fez Herrera, que terá uma "oposição contundente" na Câmara e na rua. "Os mais frágeis pagam. Os mercados terminaram por impor uma reforma e um corte" e "por que não recupera o imposto sobre patrimônio?", disse o deputado do ICV. "O senhor é frágil com os fortes e forte com os frágeis", concluiu Ridao. "Os setores populares vão pagar por uma crise que não provocaram", arrematou Francisco Jorquera (BNG).

Somente no final Zapatero incluiu a possibilidade de estudar no futuro medidas fiscais para que as rendas maiores paguem os impostos. Ele fez isso sem concretizar e dando a entender que o incluirá nos orçamentos para 2011. Foi tão pouco preciso quanto confuso, e respondeu a Rajoy que exigir um maior esforço fiscal das rendas mais altas não deve representar necessariamente um aumento de impostos.

"Hoje não foi o dia", disse o primeiro-ministro para explicar por que não incluiu essa possibilidade de reforma fiscal em seu discurso inicial.

Metidos em traje de corte, o porta-voz socialista, José Antonio Alonso, tomou a palavra de Duran para atacar uma redução do salário dos deputados, que já está há dois anos congelado.

Quase todos os porta-vozes pediram a Zapatero gestos políticos em forma de redução de ministérios, tal como pediam duas resoluções aprovadas pelo Congresso nos últimos meses. "É o chocolate do louro, mas é um gesto político necessário para os que viram seus benefícios reduzidos", disse-lhe Erkoreka. Mas Zapatero se entrincheirou em que isso quase não representaria uma economia real, e portanto não está disposto a fazê-lo. Por enquanto, porque também disse que não tomaria outras medidas que na quarta-feira não teve outro remédio senão anunciar. E de todos os porta-vozes só Rosa Díez (UPyD) pediu eleições antecipadas. Duran esqueceu sua proposta de governo de concertação e Rajoy não se atreveu a repetir o apelo aos deputados do PSOE para que substituam Zapatero.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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