"Não tenho nenhum problema para reconhecer a liderança de Lula", diz Felipe Calderón, presidente do México

Pablo Ordaz

Na Cidade do México

  • Lula Marques / Folha Imagem

    O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva cumprimenta o presidente mexicano Felipe Calderón durante entrevista coletiva em Cancun

    O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva cumprimenta o presidente mexicano Felipe Calderón durante entrevista coletiva em Cancun

Felipe Calderón ganha o corpo-a-corpo. Em seus discursos oficiais parece rígido, mas nas poucas vezes em que desce à arena para explicar sua política mostra-se eloquente e com vontade de convencer. O que se segue é um extrato da entrevista concedida pelo presidente do México a "El País" e a outros jornais espanhóis antes de sua iminente visita à Espanha para participar da cúpula América Latina-União Europeia.

El País: O México perdeu a liderança para o Brasil e o senhor para Lula?

Felipe Calderón: Lula tem um grande carisma e o Brasil uma grande liderança, e nós não temos nenhum problema em reconhecer isso. Que bom que o tenham! Há necessidade de lideranças responsáveis. Mas o México tem seu lugar e não precisa disputar com ninguém. Ao contrário. Em meu governo fizemos uma virada deliberada para América Central e a América Latina. Ampliamos nossos laços comerciais e intensificamos nossas alianças políticas. Não é demais dizer que a América Latina tornou-se uma região complicada em termos diplomáticos e políticos. Há um peso crescente de governos com alta motivação ideológica, o que torna mais complexa a própria integração da América Latina e sua relação com a Europa e com o mundo.

El País: O convite a Honduras por parte do governo espanhol quase arruinou a cúpula. Qual é a posição do México?

Calderón: O que Honduras viveu é um golpe de Estado, e a atitude de todos os países democráticos deve ser de rejeição. É uma questão de princípios. Um golpe de Estado em uma sociedade democrática é inconcebível, e a rejeição deve ser expressa em todos os comportamentos diplomáticos. A situação de Honduras acabará por se regularizar, mas para isso deve haver a máxima contribuição do governo de Honduras.

El País: A situação neste momento no Arizona é de sofrimento e preocupação para muitos imigrantes mexicanos que temem ser vítimas da lei SB1070. Já está ocorrendo uma tensão entre os dois países?

Calderón: Sim, há uma tensão, infelizmente provocada por uma lei que na minha opinião foi emitida de maneira irresponsável, em um momento eleitoral, e que é uma lei que não soluciona o problema que temos e não aborda corretamente o tema migratório. A migração é um fenômeno natural que não pode ser contido por decreto, entre duas economias que são absolutamente complementares. Uma economia intensiva em capital como é a americana e uma economia intensiva em mão-de-obra como a mexicana. E entre dois países que dividem 3.000 km de fronteira. Sem dúvida esta lei vai além de outro tipo de leis anti-imigração que foram aplicadas até agora nos EUA. Esta lei integrou um componente muito perigoso que é o componente racial, que permite que se apliquem critérios de aparência física e racial para fundamentar as detenções da autoridade, o que é francamente um retrocesso e uma política claramente discriminatória.

El País: O que vai fazer o governo do México?

Calderón: Vamos defender legalmente os emigrantes, qualquer que seja sua condição migratória, do uso abusivo que esta lei vai provocar. Nossa chancelaria já aconselhou a não visitar o Arizona porque representa condições de perigo. Isto já está fazendo que a atividade econômica fundamental do Arizona, que é o consumo dos mexicanos, decaia notadamente. Oxalá isto sirva como uma chamada de atenção: esta lei só pode agravar os problemas da relação bilateral e os problemas do Arizona.

El País: Como o senhor explica que, apesar da guerra contra o crime organizado, o narcotráfico continue tendo tanta força?

Calderón: Se tivéssemos enfrentado as máfias antes, quando o problema começou a surgir, já o teríamos resolvido. Mas se deixou crescer com um falso conceito de tolerância, de acordos implícitos - como alguns assessores do presidente Vicente Fox sugeriram - e exatamente por lhes abrir a porta e deixá-los entrar em várias áreas e territórios do país se apoderaram de boa parte de sua estrutura social e inclusive institucional. Além disso, desde 2004, quando desapareceu nos EUA a proibição da venda de armas de assalto, cresceu de maneira importante o poder bélico dos cartéis. O que leva a um maior poder de confronto com outros cartéis e com as autoridades. Nós apreendemos em três anos cerca de 75 mil armas, das quais mais de 40 mil são rifles de assalto, cerca de 5 mil granadas, 8 milhões de cartuchos, lança-mísseis, um arsenal capaz de armar um exército.

El País: Quando iniciou sua guerra contra o crime, suspeitava de que tinha tanto poder?

Calderón: Não havia uma ideia precisa das dimensões, mas sim havia uma certeza da periculosidade e da imperiosa necessidade de cortar essa onda expansiva. O câncer estava ali, e na medida em que o enfrentamos vimos a dimensão que tem. Esse processo ocorreu em outros países, só que na Colômbia levou muito tempo e também gerou uma grande quantidade de mortos. Mas não se pode medir o êxito ou o fracasso só pelo número de mortes. O número de mortes reflete a intensidade do problema.

El País: E há uma data para terminar esta guerra?

Calderón: Para mim vai ser uma batalha muito longa e muito crua. Vai envolver muito tempo, muito dinheiro e, infelizmente, vai implicar muitas vidas humanas. Mas é uma batalha que é preciso travar e que unidos vamos ganhar.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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