Democracia, liberdade e direitos humanos são valores importantes para Turquia, diz presidente

Juan Carlos Sanz

Enviado especial a Ancara (Turquia)

  • AFP

O emblema da presidência turca, uma estrela de 16 pontas rodeada por outras tantas estrelas, e não um dos onipresentes retratos de Mustafá Kemal, preside a sala de recepções do Palácio de Çankaya, no alto de uma colina arborizada de Ancara. Antes de chegar ao lugar escolhido por Ataturk em 1923 para construir sua residência na nova capital do país, Abdula Gul (nascido em Kayseri em 1950) teve de batalhar contra o aparelho laico do Estado, contrário a permitir a entrada de sua esposa, Hayrunisa, coberta com o véu islâmico, no centro mais emblemático do poder na Turquia moderna.

Raio-x da Turquia

  • Nome oficial: República da Turquia

    Tipo de governo: Democracia parlamentar republicana

    Capital: Ancara

    Divisão administrativa: 81 províncias

    População: 76.805.524

    Grupos étnicos: Turcos 70-75%, Curdos 18% e outras minorias 7-12%

    Religiões: Muçulmanos 99,8% (maioria sunita), outros 0,2% (cristãos e judeus)

    Idiomas: Turco (oficial), curdo e outros

    Fonte: CIA World Factbook

Gul recebeu na terça-feira "El País" junto com um grupo de jornalistas europeus com uma mensagem nada velada de insatisfação sobre o lento processo das negociações para a adesão da Turquia à UE, e com um convite à Grécia para cooperar na solução do conflito de Chipre. Depois da intervenção militar turca em 1974, a ilha continua dividida e sua integração à UE, 30 anos depois, só é efetiva no território greco-cipriota do sul.

"Há países da UE que se escudam no conflito de Chipre para frear nosso processo de adesão", opina Gul, "mas a Turquia não pode aceitar que os habitantes do norte de Chipre sejam tratados como criminosos e lavadores de dinheiro." O chamado Protocolo Adicional de Ancara obriga a Turquia a reconhecer a República de Chipre (de governo greco-cipriota) e a permitir o acesso de seus navios e aviões ao território turco. O acordo não foi cumprido.

"Acataremos o Protocolo de Ancara quando se levantar o embargo que pesa sobre o norte da ilha e a discriminação contra seus habitantes", argumenta o presidente. "A situação atual é ruim para a Turquia, mas também para a UE. Grécia e Turquia devem compartilhar a solução do conflito de Chipre."

O veto do governo de Nicósia e as reticências da França mantêm bloqueada a maioria dos capítulos de negociação abertos pela Turquia em Bruxelas. Depois do fracasso do referendo organizado pela ONU na ilha em 2004, Gul confia agora em buscar uma "perspectiva mediterrânea" para que Atenas e Ancara promovam as conversações sobre a reunificação das comunidades greco-cipriota e turco-cipriota.

Apesar dos obstáculos, o presidente turco afirma que o objetivo estratégico de seu país é ser membro de pleno direito da UE: "Estamos fazendo reformas pelo interesse de nossa própria população, mas sabemos que são necessárias para conseguir entrar na UE. Todo o processo de negociação também é um processo para melhorar nosso país". Gul recorre assim ao ideário de Ataturk, como pai fundador da Turquia, para defender a busca dos "padrões mais elevados" para seus cidadãos. "A democracia, a liberdade de empresa, os direitos humanos... representam para nós uma grande transformação."

Gul, que acaba de dar luz verde para a convocação de um referendo para uma reforma parcial da Constituição, reconhece que sua primeira recomendação aos partidos foi a redação de uma nova Constituição. "Mas a atmosfera política não permitiu", explica. "Os princípios democráticos do Estado laico, as liberdades e os direitos humanos serão respeitados."

Sem citar Angela Merkel ou Nicolas Sarkozy, o presidente turco afirma: "A UE precisa decidir se vai se transformar em uma entidade política fechada, com fronteiras fixas para a eternidade, ou se tem uma visão estratégica de futuro, para dentro de 50 anos, para a Europa de seus netos".

A paralisia das negociações para a entrada da Turquia na UE, enquanto isso, semeia o desencanto europeu entre os cidadãos. As últimas pesquisas falam por si: 53% dos turcos são a favor da entrada na UE, contra 37% que se opõem. No entanto, em 2002, quando o Partido da Justiça e do Desenvolvimento (islâmico moderado) do presidente Gul chegou ao poder, 70% dos consultados eram favoráveis, contra apenas 15% de rejeição.

"A Turquia está mudando", alega. Desde a assinatura da União Aduaneira com a UE, há 15 anos, a economia turca se transformou em uma potência regional. E através do desenvolvimento o governo de Ancara começa a exercer um papel cada vez mais intenso de mediador nas relações entre seus vizinhos.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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