Piñera planeja renda per capita "europeia" para o Chile até 2018

Fernando Gualdoni

Em Madri (Espanha)

  • Carlos Espinoza/AP

Sebastián Piñera (nascido em Santiago em 1949) é o primeiro presidente de direita eleito democraticamente no Chile desde 1958. Ganhou a chefia de Estado em segunda tentativa e pôs fim a 20 anos de governos de esquerda. É um empresário de sucesso que afirma ter vendido todo o patrimônio necessário para se dedicar só à política. "Mas quero continuar no Colo Colo [time de futebol da primeira divisão], pelo menos até que ganhe a Copa Libertadores pela segunda vez."

Ele assumiu o cargo em 11 de março, uma semana depois de o pior terremoto no país em 50 anos ter devastado o Chile. Mais de 500 mortos e US$ 30 bilhões em prejuízos. "Uma catástrofe", resume Piñera, compungido. O presidente é enérgico, direto, e nota-se que gosta de mandar: não hesitou em indicar ao fotógrafo qual era seu ângulo mais favorável e o local. Pede alguns minutos para meditar sobre os assuntos da entrevista e responde como uma enxurrada.

El País: A reconstrução do Chile consumirá todo o seu mandato, como se disse inicialmente?

Sebastián Piñera: O Chile foi atingido pelo quinto pior terremoto da história da humanidade. O prejuízo foi gigantesco. Não só em perda de vidas, como em destruição de patrimônio. Os danos chegam a US$ 30 bilhões, quase 18% do PIB. Implementamos um plano para atender às emergências, reconstruir o país e cumprir nosso programa de governo. Para isso propomos um plano fiscal avaliado em US$ 20 bilhões ao longo de quatro anos, que permitirá financiar a reconstrução, mas também melhorar a educação e a saúde, a segurança pública, a criação de empregos, a descentralização do país e a modernização do Estado. Esse dinheiro vamos tirar da poupança externa que o Chile acumulou durante a bonança do preço do cobre, do aumento moderado da dívida pública, que no Chile é praticamente nula, da venda de ativos imprescindíveis e da austeridade fiscal. Também haverá um aumento transitório dos impostos para as grandes empresas, a mineração, para os setores de mais alta renda e o tabaco. Haverá reduções fiscais para as pequenas e médias empresas e vantagens para a poupança e o investimento, para promover o crescimento. O gasto público chileno é de US$ 40 bilhões ao ano, e a isso somaremos US$ 20 bilhões em quatro anos. Espero que o projeto seja aprovado no Parlamento em junho.

El País: Outra grande reforma que o senhor empreendeu é a eleitoral...

Piñera: Sim. Propus que os chilenos no exterior possam votar, que seja ampliado o censo eleitoral e que o voto seja voluntário. Também estão previstas normas para renovar os partidos através de eleições primárias. É definitivamente uma reforma para modernizar, ampliar e tornar mais participativa a democracia chilena. Queremos dar mais poder aos cidadãos.

El País: O senhor vendeu todo o patrimônio que prometeu vender durante a campanha?

Piñera: Eu me comprometi a vender a companhia aérea LAN e a clínica Las Condes. Isto foi vendido. Também me comprometi a buscar uma fórmula para uma rede nacional de televisão chamada Chilevisión. Optei pela venda e se realizou há alguns dias. Cumpri minhas promessas eleitorais, apesar de não haver nenhuma lei que me obrigasse a isso. Vendi tudo para ser político e me dedicar a ser um bom presidente. Tudo menos o Colo Colo. Já disse que não me desprenderia do time e espero poder participar do clube até que consigamos ganhar pela segunda vez a Copa Libertadores.

El País: O Chile tem acordos de livre comércio com a Europa, os EUA, a Índia e a China... o que busca nesta cúpula?

Piñera: O Chile prega e pratica o livre comércio. Temos acordos com 56 países, apenas comparável a México e Israel. O livre comércio foi muito bom para nós. Cremos que o sistema permite aproveitar as vantagens de cada país e em longo prazo expande a riqueza e as oportunidades de todos. O acordo de associação com a União Europeia não é só comercial, mas também político, cultural, tecnológico. Além disso, o Chile será anfitrião da cúpula UE-América Latina em 2012.

El País: O senhor propôs aos demais dirigentes latino-americanos definir metas e prazos para a região.

Piñera: Temos 200 anos de independência e um continente abençoado por Deus, um território grande e generoso. No entanto, não derrotamos o subdesenvolvimento nem a pobreza. A América Latina deve se transformar em uma região desenvolvida, sem pobreza extrema, e deve ser capaz de criar oportunidades. No Chile propusemos que a renda per capita passe de US$ 14 mil para US$ 22 mil até 2018, cifra superior à de alguns países do sul da Europa hoje. Uma meta assim precisa ser fixada para toda a América Latina. Não há razão para que a região não consiga derrotar o subdesenvolvimento.

El País: A União de Nações Sul-americanas (Unasul) pode ser uma via para definir essas metas?

Piñera: A Unasul quer fortalecer as democracias, o desenvolvimento econômico, facilitar a integração física através de infra-estruturas. Mas precisa demonstrar com fatos que cumpre esses objetivos.

El País: O senhor falou de duas visões da América Latina. Uma é representada por uma esquerda radical - Venezuela, Bolívia. A outra se reflete em uma esquerda moderada - Brasil, Uruguai - e na centro-direita - Chile, Colômbia. Podem conviver ambas as visões dentro de uma região integrada, ou acabará se impondo uma das duas?

Piñera: Falei de duas visões para não falar de dois blocos e dar a ideia de confronto. São duas visões de como alcançar a democracia, o desenvolvimento econômico e até a integração social em cada país. Uma é compartilhada por Venezuela, Cuba, Nicarágua, Bolívia e talvez alguns mais. A outra é a que une Chile, México, Brasil, Peru, Colômbia e Uruguai. A visão que defendemos no Chile se baseia na democracia ocidental, no Estado de direito, na separação de poderes, na liberdade de expressão, na alternância no poder, economia social de mercado, mercados abertos e competitivos, integração... Esse é o modelo em que acredito e que promoverei na Unasul.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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