As mulheres que estão atrás das barricadas em Bancoc

José Reinoso

Enviado especial a Bancoc

  • Pedro Ugarte/AFP

    Mulher grita diante de soldado na região de acampamento fortificado de manifestantes em Bancoc

    Mulher grita diante de soldado na região de acampamento fortificado de manifestantes em Bancoc

Elas estão por todo lado: diante do palco do acampamento dos camisas-vermelhas, aplaudindo intervenções de seus líderes, cozinhando em caldeirões sob tendas e toldos, cuidando de seus filhos trazidos de províncias distantes, dançando sobre as esteiras no meio de um calor agonizante, trabalhando como voluntárias em postos de socorro na zona de protesto. As mulheres se transformaram em uma das grandes forças da Frente Unida pela Democracia e contra a Ditadura, nome oficial do agrupamento dos camisas-vermelhas, que desde meados de março mobilizou milhares de seguidores nas ruas de Bancoc para pedir a dissolução do Parlamento e a convocação de eleições na Tailândia.

Isoladas em um acampamento fortificado com barricadas, que entre 3 mil e 5 mil rebeldes ocupam no bairro mais comercial da capital, durante o dia representam, com idosos e crianças, o grosso dos manifestantes nesta cidade dentro da cidade, mistura de campo de refugiados, feira de povoado e grande mercado de rua.

Raio-x da Tailândia

  • Nome oficial: Reino da Tailândia
    Capital: Bancoc
    Tipo de Governo: Monarquia Constitucional
    População: 65.998.436
    Idiomas: Tailandês, inglês, dialetos étnicos e regionais
    Grupos étnicos: Tailandeses 75%, chineses 14% e outros 11%
    Religiões: Budistas 94.6%, muçulmanos 4.6%, cristãos 0.7%, outros 0.1%
    Fonte: CIA Factbook

São mulheres como Ampanitsara Soonthornsawad, 55, que chegou em meados de março a Bancoc da província setentrional de Chiang Mai, "para pedir democracia". "O governo diz que os camisas-vermelhas somos maus, e que os camisas-amarelas [as elites empresarial e militar e a classe média] são bons. Gostaríamos que todos os tailandeses pudessem vir aqui ver isto e falar conosco. Mas o governo não quer, assusta as pessoas, cercaram a zona e é muito difícil chegar", afirma, desgostosa.

O recinto de 3 quilômetros quadrados, protegido com barricadas construídas com pneus, lanças de bambu, arame farpado e caminhões atravessados, está cercado por milhares de soldados para estrangular as vias de abastecimento, aumentar a pressão contra os amotinados e evitar a chegada de manifestantes. Entre os postos de controle e o acampamento ficou uma terra de ninguém com quilômetros de avenidas desertas, colégios, hospitais, edifícios de escritórios e residenciais vazios.

Os militares declararam várias ruas zonas de fogo real, nas quais tiros e explosões se repetiram desde que recrudesceu a violência na quinta-feira, quando as tropas começaram a fechar as entradas do acampamento.

Os choques continuaram na terça-feira, embora com menor intensidade do que nos dias anteriores. O governo recusou a proposta de um grupo de 60 senadores - aceita pelos manifestantes - para manter conversações de paz, e disse que só negociará quando tiverem posto fim ao protesto. As autoridades prolongaram as férias em todo o país por mais três dias, até sexta-feira. Desde que começaram os distúrbios, em meados de março, 67 pessoas morreram - 38 nos últimos seis dias - e mais de 1.700 ficaram feridas.

Se os maridos, filhos e parentes dessas mulheres saem durante o dia para atacar os soldados, atirar coquetéis molotov e queimar pneus, elas estão ali entre as barracas de campanha, esteiras, redes e utensílios que são seu lar há semanas, na porta de hotéis de luxo fechados, como o Grand Hyatt Erawan ou o Intercontinental.

Embora a maioria seja de pobres de zonas rurais e cidades, também há entre elas estudantes, intelectuais e integrantes da classe média. Como Panee, que diz ter conseguido passar pelo controle militar porque não usava nada que pudesse identificá-la com os camisas-vermelhas. "Nos ameaçaram com dois anos de prisão se não desocuparmos o acampamento. Não me importa. Somos todos tailandeses. Por que nos matam?", afirma essa ex-professora. "Não gostamos do governo de Abhisit Vejjajiva [o primeiro-ministro], e não é porque queremos Thaksin Shinawatra [a maioria dos camisas-vermelhas é partidária do populista ex-primeiro-ministro, deposto em um golpe militar em 2006]. Na verdade eu não quero que ele volte. Mas esse governo tem de sair", afirma.

As mulheres rebeldes sorriem atrás das barricadas, e estão decididas a aguentar até o final. Mas também estão esgotadas depois de semanas de mobilizações cujo fim não veem. "Estou cansada, mas não tenho medo. Ficarei. Se vierem os soldados, não farei nada. Minhas mãos estão nuas. Se quiserem, que disparem."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos