Ataque de 11 de Setembro não foi falha dos serviços de segurança, diz especialista

Maite Rico

  • Brad Rickerby/Reuters

    Torres Gêmeas do World Trade Center de Nova York em 11 de Setembro de 2001

    Torres Gêmeas do World Trade Center de Nova York em 11 de Setembro de 2001

“Alô, aqui é Juan Carlos”. Gregory Treverton não podia acreditar que era o rei da Espanha do outro lado da linha. Era o ano de 1977 e o presidente norte-americano Jimmy Carter queria expressar ao monarca seu apoio à Transição. Treverton, eficiente colaborador, havia preparado um informe prolixo, mas quando chegou o momento se deu conta de que havia esquecido o básico: as coordenadas do rei. Desesperado, pediu à telefonista que o pusesse em contato com o “rei Juan Carlos, Madri, Espanha”. E apenas alguns minutos depois, lá estava ele, ao telefone.

Especialista em serviços de inteligência e segurança internacional, Treverton lembra-se sorridente da eficácia das antigas telefonistas, enquanto analisa o cardápio com curiosidade. O pragmatismo se impôs na hora de escolher o restaurante: um próximo de seu hotel. “Codorna?”. “Quail”, traduz o dicionário eletrônico. “Perfeito; não é algo muito comum nos EUA”. E vinho, é claro: é um bom conhecedor dos vinhedos da Califórnia, onde mora.

Embora tenha trabalhado no governo norte-americano (foi vice-presidente do Conselho Nacional de Inteligência entre 1993 e 1995, com Bill Clinton), a carreira de Treverton, de 63 anos, está ligada a prestigiosos “think tanks”, como o Insituto Internacional de Estudos Estratégicos da Inglaterra e a Rand Corporation norte-americana, onde dirige o Centro para o Risco Global e a Segurança.

O terrorismo islamita é hoje a pior ameaça? “Hum... Mais do que os banqueiros? Falando sério, sim. Não é uma ameaça existencial, como foi a guerra nuclear com a URSS, mas é a questão de segurança mais preocupante por causa do fator surpresa. Eles podem atacar em qualquer lugar, em Atocha ou em Londres”. Ou em Nova York, como acabamos de ver: os EUA bombardeiam o Waziristão com seus aviões teleguiados, mas os talebãs paquistaneses já estão atuando em Times Square. “Os indivíduos isolados com contatos em filiais da Al Qaeda são os que têm mais possibilidade de êxito. Alguns destes lobos solitários atingirão seus propósitos.”

Treverton, economista formado em Harvard, começou sua carreira no tormentoso mundo da espionagem no chamado Comitê Church, criado em 1975 no Senado para investigar as atividades ilegais da CIA e do FBI, novamente sob investigação por conta do 11 de setembro e das inexistentes armas de destruição de massa no Iraque. “No 11 de setembro houve uma falha de inteligência. Por que a CIA e o FBI não estavam coordenados? Para não colocar em risco as liberdades civis. Mesmo uma maior colaboração não teria evitado o 11 de setembro. Era imprevisível.” O tema das armas no Iraque é diferente: “lá a análise de inteligência foi ruim, e mereceu descrédito. O governo queria entrar em guerra de qualquer maneira. Fizeram inferências a comportamentos antigos: Sadam sempre quis armas de destruição de massa, ele age como se as tivesse... Portanto, ele as tem. Mas não havia provas”. Os preconceitos, diz ele, provocam muitos erros dos serviços secretos.

Um expresso substitui a sobremesa. Treverton tem voo marcado e o tempo é curto. O especialista em segurança não gosta do exagerado controle nos aeroportos. Paradoxos da vida. “Não tenho medo dos terroristas. Às vezes eu tenho medo é de nós mesmos. Se nos obrigam a abandonar direitos, princípios e valores, então eles vencem. Se cada vez fica mais difícil viajar, ou visitar os EUA, significa que eles estão vencendo.”

Tradutor: Eloise De Vylder

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