"Profeta" da tecnologia diz como será o futuro dos computadores

Joan Carles Ambrojo

Em Barcelona (Espanha)

  • Getty Images

A internet e as novas tecnologias permitirão sobrevier à crise econômica e levarão a sociedade a um novo estágio: o capitalismo perfeito, afirma Michio Kaku, catedrático de Física Teórica da Universidade de Nova York e popular divulgador científico da BBC e Discovery Channel. Kaku profetiza um futuro com paredes inteligentes como pequenos espelhos mágicos aos quais se pode fazer perguntas, lentes de contato com realidade aumentada, chipes de um centavo inseridos em todo tipo de objetos, computadores controlados pela mente e uma troca quase instantânea de órgãos. Quem diz isso não é um autor de ficção científica. É o cocriador da Teoria de Campos das Cordas. Kaku falou durante a palestra inaugural da 12ª edição do Congresso Global B Digital, que este ano se dedica ao tema da internet do futuro, e que acontece até quinta-feira, dia 20, no CaixaForum Barcelona. Ele está prestes a publicar a “Física do Impossível”, sua obra mais recente. Entre suas previsões, ele disse que “na década de 2020, pode chegar a era do controle telepático dos computadores.”

A era do ponto-com amarra cachorros com linguiça. Kaku fala da década de 2020, na qual viveremos uma nova revolução tecnológica sem precedentes. Não será um jeito muito cor de rosa de ver o mundo, em pleno cataclismo econômico? Kaku adverte que o Vale do Silício deve ter cuidado porque, se não for capaz de se adaptar, poderá sofrer uma crise tão profunda como a da indústria siderúrgica no século 20. Mas parece que ele conseguirá, espera. Dentro de dez anos, os chipes custarão apenas um centavo, “mais baratos que uma folha de papel”, e estarão por toda parte, dos móveis até as paredes e o corpo humano. Em segundo lugar, a internet será uma espécie de espelho mágico que permitirá encontrar informação em qualquer situação. Kaku fala não só de usar óculos inteligentes, mas também de lentes de contato conectadas à internet que permitirão reconhecer o perfil das pessoas, recriar diante dos olhos o Império Romano durante uma visita turística à cidade, comprar os produtos mais econômicos, enxergar além dos objetos e, obviamente, assistir a filmes e receber e-mails. Ela também será utilizada, evidentemente, no campo militar e aeroespacial para que os soldados enxerguem além do alcance de sua visão, por exemplo. Graças à realidade aumentada, “o usuário viverá num mundo parcialmente real e virtual”, assegura Kaku.

Também nos aguardam artefatos como telefones com papel eletrônico destacável ou paredes inteligentes em qualquer lugar, nas quais poderemos assistir ao filme Casablanca, mas com o nosso rosto no lugar do de Bogart, por exemplo. Os escritórios também terão papel eletrônico e computadores descartáveis, já que o importante não será o dispositivo eletrônico, mas sim o arquivo, “que nos seguirá por toda parte”. Os computadores desaparecerão como conceito, como aconteceu com a eletricidade, diz ele.

Fotografar os sonhos

Se o ano de 2000 foi o marco da onipresença da computação, e em 2010 surgem os sensores avançados (já existem pílulas inteligentes que permitem captar imagens de úlceras ou descobrir um câncer de cólon), na década de 2020 pode chegar a era do controle telepático dos computadores. Já existem algumas interfaces cerebrais que permitem certas ações básicas, mas Michio Kaku espera que nos próximos anos seja possível fotografar os sonhos por meio de imagens funcionais do cérebro.

No âmbito da saúde, muitas surpresas nos esperam, anuncia Kaku. No ano de 2050 teremos um futuro no qual o corpo poderá ser reposto com a regeneração de órgãos “a la carte”, criados em poucas horas, acrescenta. O banheiro poderá se transformar num centro de saúde mais potente que qualquer hospital, com diagnósticos no local e a visita do médico especialista virtual. As seguradoras saberão tudo sobre nós e será quase impossível enganá-las, afirma. “O Big Brother (Grande Irmão) não é nenhum problema. O problema são os “pequenos irmãos”, desde organizações criminosas até pessoas mal intencionadas, que estão dispostas a roubar nossa informação, e por isso afirma que devemos criar mais softwares de proteção”.

Outros especialistas são mais contundentes em relação às possibilidades da informação digital: os cidadãos são o Big Brother “uma vez que podem observar o governo”, diz Andrew Raiseja, fundador do PDF Personal Democracy Forum. Entretanto, ele pede que sejamos “mais precavidos com a informação” que publicanos no meio virtual, em sites como Facebook: as grandes empresas não se importam o que acontecerá com nossas informações e não devemos deixar a porta aberta porque há pessoas esperando para roubar a informação. O especialista Raisej considera que “os políticos devem entender a dinâmica da comunicação online”. As campanhas políticas na internet têm pouca influência nos resultados das eleições, ao contrário dos vídeos que os cidadãos colocam na rede: durante as eleições de 2008 para a presidência dos Estados Unidos, eles foram visualizados dez vezes mais. Raisej considera um erro a mudança de estratégia de Obama, que durante a campanha eleitoral na internet utilizou o pronome “nós” e na presidência o substituiu pelo “eu”. “A internet somos nós”, diz. Nos últimos tempos fala-se muito de eGovernment (governo eletrônico”, mas é apenas uma modalidade limitada boa para oferecer serviços, mas deve-se pensar mais no WeGovernment (nós governamos), em que os cidadãos tomam o poder ao oferecerem por conta própria informações de interesse da cidadania (atrasos no aeroporto via Twitter, por exemplo). Uma ideia muito interessante é reunir informações sobre os gastos em transporte público de uma área, do Google maps e dados sobre os proprietários de casas e as pessoas que financiam as campanhas políticas, de forma que seja possível obter uma imagem de quem dá dinheiro apenas para obter benefício para suas propriedades.

A internet contra a crise

“Crie agora uma empresa da internet ou você se arrependerá”. Os especialistas valorizam a criação de empresas como uma das medidas mais eficazes para superar a crise econômica, acredita o guru Mark Tluszcz, diretor da Mangrove Capital Partners. “Podemos ser passivos ou então abrir nossa própria empresa, porque temos oportunidades de criar algo importante na internet: nos próximos 20 anos passaremos de 1,5 bilhão para 6 bilhões de usuários.” O doloroso e prolongado período econômico no qual nos encontramos nos obriga, acrescenta Tluszcz, a assumir o controle de nosso futuro “porque os governos vão deixar de fazê-lo pela economia da austeridade”. Uma ideia muito simples, diz ele, pode ser vender frutas e verduras pela internet, como fizeram os produtores dinamarqueses, que viram suas vendas duplicar em pouco tempo; este é um tipo de iniciativa que já começou a despontar na Espanha. Devemos olhar para o futuro, nos próximos dez anos será criado o maior volume de empresas na internet, disse Mark Tluszcz, “temos a chance de criar uma empresa e, se não o fizermos, é possível que nos arrependamos no futuro”. Tluszcz financia ideias inovadoras, desde que sejam defendidas “com paixão” por seus proponentes. Para ele, a internet permitiu o desenvolvimento de ideias que inicialmente eram muito simples como o Netscape, Skype ou Twitter. Quanto ao Google, ele acredita que é um tipo de empresa que desaparecerá porque “detêm 80% dos documentos [da rede]” e os governos não permitirão isso.

No ato de inauguração, o presidente do Barcelona Digital Centre Tecnologic, Antoni Massanell, comentou que a tecnologia ainda não faz parte de nossas vidas como poderia fazer. Embora cerca de 2.500 aplicações para celular serem descarregadas por um valor de US$ 4,2 bilhões, diz ele, grande parte das conexões de banda larga estão abaixo dos 100 Mbits.

Jordi William Carnes, novo prefeito de Barcelona, falou em seguida sobre a crise municipal causada pela votação popular por conta da transformação da avenida Diagonal: “Temos que continuar confiando nas tecnologias”, disse, “e enfrentar as smart cities [cidades inteligentes].

No final do dia foi feita a entrega de prêmios a projetos inovadores. O ganhador do Prêmio a Pequenas Empresas e Empreendedores foi o EyeOS 2.0; o Prêmio à Inovação em grandes empresasfoi para a Telefónica I+D; o Prêmio para a Inovação Digital Instituições e Universidades foi para Sindicada 2.0; e o Prêmio Internacional Barcelona SmartCity foi para o Zoundtracker.

Tradutor: Eloise De Vylder

UOL Cursos Online

Todos os cursos