Argentina comemora 200 anos de independência em tenso clima político

Soledad Gallego-Díaz /A. Rebossio

Em Buenos Aires (Argentina)

  • AFP

    A presidente argentina Cristina Fernandez de Kirchner e seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, acenam para simpatizantes durante manifestação de apoio ao governo em 2008

    A presidente argentina Cristina Fernandez de Kirchner e seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, acenam para simpatizantes durante manifestação de apoio ao governo em 2008

Uma formidável participação popular e um clima político tenso marcam os festejos do Bicentenário da República Argentina, que terão nesta terça-feira seu encerramento e seu momento máximo, com o esperado discurso da presidente Cristina Fernández de Kirchner e um monumental desfile de rua organizado por Diqui James e seu grupo Fuerza Bruta (na linha do grupo teatral catalão La Fura dels Baus).

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O confronto político fez que o vice-presidente argentino, Julio Cobos, não fosse convidado para o jantar de gala na Casa Rosada (sede do governo), previsto para esta terça-feira, junto com todos os mandatários latino-americanos que irão ao encontro; que a presidente tenha se negado a assistir na segunda-feira, ao lado do intendente de Buenos Aires, Mauricio Macri, à reinauguração do Teatro Colón (onde estaria Cobos), ou que o Tedeum oficial, com a participação de personalidades estrangeiras, seja realizado na Basílica de Luján, paralelamente à que ocorrerá na Catedral de Buenos Aires e no qual se espera que o cardeal Jorge Mario Beroglio mantenha sua habitual linha crítica com o governo.

Também foi surpreendente a ausência da presidente no desfile militar que percorreu no sábado a grande Avenida 9 de Julho, a segunda ocasião desde o fim da ditadura militar, em 1983, em que as forças armadas saíram à rua. O desfile, com mais de 5 mil efetivos, foi presidido pelo chefe de gabinete (que cumpre funções semelhantes a um primeiro-ministro), Aníbal Fernández. Porta-vozes da Casa Rosada afirmaram que Cristina Fernández nunca pretendeu participar do ato militar, sem mais explicações, enquanto outras fontes tentavam suavizar sua ausência sugerindo um "excesso de fadiga".

Nesse clima, duas pesquisas publicadas no domingo ressaltam a desconfiança dos argentinos de sua classe política. Uma grande pesquisa encomendada pelo jornal "Clarín" à respeitada consultora Graciela Römer mostra que "os argentinos pensam, em sua grande maioria, que o país carece de instituições confiáveis, que sua população sofre de um marcado individualismo e não tem verdadeiro senso de comunidade nacional". A pesquisa publicada por "La Nación" pergunta aos pesquisados "o que falta principalmente na Argentina", e 53% opinam que "políticos" e "líderes sociais". Os argentinos se definem majoritariamente como "chantas" (expressão que ao mesmo tempo define um simpático farsante ou um sem-vergonha), mas também como um povo muito solidário.

Em geral, e segundo a pesquisa de Römer, se reforçou o compromisso com a democracia, que parece o melhor regime possível para 90% dos cidadãos, o que representa um aumento considerável em relação a 2002, quando o apoio beirava 78% dos entrevistados, golpeados por uma crise econômica brutal.

Segundo a pesquisa de "La Nación" (realizado pela Universidade 3 de Fevereiro), 82% dos argentinos se sentem orgulhosos desse fato, embora quase 76% afirmem que os cidadãos não cumprem seus direitos nem suas obrigações. "Uma característica é o desrespeito pela lei", afirma também Graciela Römer.

Muitos argentinos contrapõem sua imagem do Primeiro Centenário, em 1910, no qual supostamente a Argentina se sentia cheia de otimismo e confiança, com a do Bicentenário, em que a maioria se sente muito menos confiante. "No Primeiro Centenário a Argentina ocupava o oitavo lugar entre os países do mundo. Cem anos depois estamos disputando o 57º lugar", lembra Ricardo Kirschbaum, diretor do "Clarín".

"Essa também é uma imagem deformada", afirma o professor Mario Rapoport, da Universidade de Buenos Aires, "porque em 2010 estamos melhor que em 1910. Então havia muitos setores sociais excluídos e uma péssima distribuição de renda. Agora se atinge um processo de integração muito positivo."

Duzentos anos depois da independência, Argentina é uma "nação Maradona"

Uma pesquisa do jornal "Clarín" mostra que, duzentos anos depois da Revolução de Maio de 1810, os argentinos olham para si mesmos como uma sociedade impulsiva, alegre, apaixonada por futebol e machista, muito machista. Ou seja, um povo mais para Maradona do que para Cristina Kirchner.

"O modelo de 1910, uma sociedade exclusivamente agro-exportadora, servia para uma população de 10 milhões de habitantes. Com 40 milhões, são necessários outros fatores de desenvolvimento. Agora estamos muito melhor situados", afirma Rapoport. "Nossa autoflagelação tem muito a ver com o que aconteceu na ditadura, com o trauma experimentado por toda a sociedade e com a absurda crença de que a civilização e tudo de bom vêm da Europa, e não desta parte do mundo."

À margem de pesquisas e estudos, a maioria dos argentinos, ou pelo menos as classes populares (a classe alta e média profissional parecem ter aproveitado para fugir da capital, para desgosto de seus concidadãos), decidiram participar efetivamente da comemoração do Bicentenário da República. Centenas de milhares de pessoas (algumas vindas de províncias em ônibus expressamente fretados para a ocasião) abarrotam nestes dias o Passeio da Independência, montado ao longo da Avenida 9 de Julho, onde ocorrem os desfiles e concertos.

No domingo foi a vez das comunidades imigrantes e das delegações estrangeiras. Mais de 3.500 pessoas, na maioria descendentes de espanhóis, italianos, alemães, árabes, coreanos e japoneses, tomaram o passeio com suas bandas e bandeiras, em homenagem ao país que no final do século 19 e início do 20 recebeu uma enorme população imigrante.

José Antonio Nespral, do Centro Asturiano, lembrou que nos anos 1920 chegou a haver mais de 800 mil espanhóis na Argentina, em uma população de 20 milhões. "O Centro Asturiano chegou a ter mais de 20 mil sócios pagantes. Estamos muito agradecidos a este país porque nos acolheu como cidadãos próprios e nos permitiu prosperar, quando na Espanha era impossível", afirmou.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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