Cresce a colaboração entre Cuba e Venezuela

Maye Primera

Em Caracas (Venezuela)

  • AFP

    O presidente venezuelano, Hugo Chavez, é recebido em Havana pelo presidente Raúl Castro e seu irmão, Fidel

    O presidente venezuelano, Hugo Chavez, é recebido em Havana pelo presidente Raúl Castro e seu irmão, Fidel

A colaboração de Cuba com a Venezuela se estendeu da saúde à formação militar e à espionagem

"Assim como é importante estar preparado para defender a pátria militarmente, também devemos estar prontos para defendê-la politicamente da invasão do inimigo." A professora fala no plural. Diz a "pátria", "devemos", embora a rigor sua pátria seja Cuba e a dos alunos que forma como porta-vozes dos conselhos comunitários, a organização popular criada por Hugo Chávez, a Venezuela. Ninguém levanta a mão para lhe perguntar: "Companheira, defender a minha pátria ou a sua?" Subentende-se que os governos de Havana e Caracas são na prática um só e que a pátria é a mesma.

Nesta "nação" surgida do vínculo político que Chávez e Fidel Castro mantêm, cada um contribui com o que tem de melhor. A Venezuela põe o petróleo, com remessas diárias de 100 mil barris de cru para Havana. E como pagamento Cuba treina os venezuelanos no que mais sabe: educação, medicina, esporte.

Graças a esse intercâmbio, a Venezuela é para Cuba o suporte econômico que foi a União Soviética nos tempos da guerra fria. Essa simbiose é rejeitada por 75% da população venezuelana, segundo pesquisas, e também despertou a cólera nos quartéis agora que se divulgou que essa colaboração se estendeu para as áreas de inteligência militar e controle social.

Desde 1999, quando foi oficial a ascensão de Chávez ao poder, a inteligência cubana começou a rondar seus pares da Direção dos Serviços de Inteligência e Prevenção da Venezuela (Disip), hoje rebatizada de Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin). "Nessa época começaram a chegar cubanos oferecendo assessoria, mas o diretor da Disip na época não permitiu sua entrada. Em 2003 conseguiram seu objetivo e fizeram que mudasse toda a concepção de inteligência e contrainteligência que até o momento vinha sendo manejada", conta um ex-oficial que participou junto com Chávez do falido golpe de Estado de 4 de fevereiro de 1992 contra o governo de Carlos Andrés Pérez e que em 1999 fazia parte da Disip.

Foi ao que se referiu o general Antonio Rivero, ex-diretor da Proteção Civil, quando em 21 de abril de 2010 denunciou a presença de militares cubanos nos serviços de inteligência e no próprio centro da Força Armada Nacional. O general se abstém de revelar nomes, mas indica que há uma equipe de militares cubanos que se encarrega de fornecer treinamento aos oficiais venezuelanos em inteligência militar, custódia de armamentos e até em construção de fortificações militares.

"É um grupo de militares especializados, de diversas patentes. Tenho conhecimento de que há um general. Todos andam à paisana, eu os vi e não usam identificação. Os cubanos cuidam para que amanhã não se possa provar que estiveram aqui. Um general venezuelano, diante de mim e outras 40 pessoas, apresentou um coronel cubano. Disse que ele ia dar instruções e salientou a confidencialidade dessa informação. Depois esse coronel se transformou em supervisor das instruções que os cubanos dão dentro de sua assessoria", indica Rivero, que deu baixa do exército. Outro oficial ativo da Força Armada confirmou que os cubanos os ajudam na construção de "túneis": fortes subterrâneos.

As ideias do comandante da revolução cubana Ramiro Valdés chegaram a Caracas muito antes de seu desembarque, na terça-feira, 2 de fevereiro de 2010, com a desculpa de dar assessoria para resolver a crise elétrica que a Venezuela atravessa. Pelo menos desde 2003 as empresas, os técnicos e os oficiais cubanos sob o comando do ministro da Informática e Comunicações de Cuba trabalham nos sistemas de segurança, identificação e cartórios do país.

Em 2003, a empresa cubana Copextel, que Ramiro Valdés presidia desde 1980, implementou a rede sem fio nacional para serviços de voz, dados e vídeo do Centro Nacional de Tecnologias da Informação da Venezuela (CNTI) e instalou todo o sistema do canal estatal ViVe TV, que foi ao ar em novembro do mesmo ano. Os dois projetos são citados no site da Copextel como parte de seus êxitos, juntamente com o "fornecimento e instalação de 10 mil receptores de satélite para cooperantes cubanos na Venezuela".

A partir de 2005, a companhia Albet Ingeniería y Sistemas S.A - ramo comercial da Universidade de Ciências Informáticas de Havana - começou a se encarregar dos negócios tecnológicos com a Venezuela. Como ministro da Informática e Comunicações de Cuba, Valdés assinou os contratos que concederam à Albet a responsabilidade de operar o Serviço Autônomo de Identificação, Migração e Estrangeiros da Venezuela (Saime), que segundo o site da Albet "possibilitou revolucionar a emissão de cédulas e passaportes, migração em aeroportos, portos, postos de fronteira e controle de estrangeiros que se radicam no país", e a plataforma do Serviço Autônomo de Registros e Cartórios, "que controla em todo o país cada uma das operações contábeis realizadas nos cartórios", afirma a Albet.

Depois a tecnologia cubana começou a permear a indústria de petróleo venezuelana. Em dezembro de 2008 o ministro do Poder Popular para a Energia e Petróleo e presidente da Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA), Rafael Ramírez, e o titular de Informática e Comunicações de Cuba subscreveram um acordo para fundar a empresa socialista Guardián del Alba, Sociedad Anónima. Esta seria encarregada de "fabricar soluções tecnológicas integrais, nas áreas de automatização, informática e telecomunicações, para alcançar a plena soberania tecnológica". Segundo o jornal cubano "Granma", sua criação "surgiu como resposta à greve dos petroleiros [que teve efeitos na Venezuela desde dezembro de 2002 até fevereiro de 2003], quando os sistemas de controle da PDVSA foram sabotados"; 51% das ações da Guardián del Alba pertencem à PDVSA e os 49% restantes à companhia Albet.

Apesar de toda essa trajetória, o nome de Ramiro Valdés não foi citado em voz alta na Venezuela até fevereiro de 2010, quando o presidente Hugo Chávez anunciou que estava no país, junto com outra equipe cubana, para trazer soluções para a crise elétrica que o país vive desde 2009. "Está conosco à frente dessa comissão um dos heróis da revolução cubana, o comandante Ramiro Valdés", disse então o comandante-presidente, e a oposição venezuelana saltou em uma dura crítica contra a ingerência cubana. Alguns afirmaram, no entanto, que o presidente Raúl Castro enviava Valdés em missão aberta a Caracas com o único fim de vê-lo fracassar e tirá-lo do caminho. Mas de qualquer modo nessa data já havia transcorrido muito tempo desde que Valdés e compatriotas começaram a manipular os fios da fibra óptica e o poder da informação que circula na Venezuela.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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