Lula abre a cúpula da Aliança de Civilizações com declaração em defesa do acordo com o Irã

J. Arias e P. X. de Sandoval

No Rio de Janeiro

  • Vanderlei Almeida/AFP

Como anfitrião do 3º Fórum da Aliança de Civilizações, no Rio de Janeiro, o presidente brasileiro, Lula da Silva, teve a oportunidade na sexta-feira de responder às críticas dos EUA no discurso inaugural do evento. "A energia nuclear deve ser um instrumento para o desenvolvimento, e não uma ameaça", disse Lula, que dedicou boa parte de seu discurso ao tema nuclear, claramente desconectado do tom geral do fórum, como evidenciaram seus discursos posteriores.

Na sala estava presente o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan (a Turquia e o Brasil foram os países que conseguiram um acordo nuclear com o Irã, que diminuiu as tensões dos últimos tempos), assim como representantes dos EUA e do Irã, por serem ambos membros do Grupo de Amigos da Aliança de Civilizações.

Depois de fazer uma defesa expressa do acordo alcançado com o Irã ("uma solução negociada para um conflito que ameaçava a estabilidade"), Lula imprimiu a seu discurso um certo tom de advertência, com a ideia de que a América Latina não recebe lições em temas nucleares, já que é uma região completamente desnuclearizada. "Defendemos o cumprimento do Tratado de Não-Proliferação", insistiu, e o "uso pacífico da energia nuclear".

As relações entre Brasil e EUA haviam azedado, exatamente devido ao acordo realizado unilateralmente entre Brasil e Turquia com o Irã sobre o tema do enriquecimento de urânio naquele país. Para a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, o acordo "deixa o mundo mais inseguro". Lula, ao revés, pensa que o diálogo, e não as sanções ou as guerras, é o que pode dar paz ao mundo.

A representante americana havia afirmado diante do Instituto Brookings: "Dissemos ao presidente Lula e ao chanceler Celso Amorim que fazer o Irã ganhar tempo faz que o mundo seja mais perigoso". A diplomacia brasileira considerou graves as declarações da secretária, apesar de ela ter começado suas palavras em tom conciliador: "Eu vejo o Brasil como parte da solução, um país com recursos extraordinários que pode usá-los para resolver os problemas do hemisfério e cada vez mais além", disse, para no entanto acrescentar em seguida: "Mas nós discordamos e vamos continuar insistindo que os iranianos estão usando os brasileiros para ganhar tempo".

No relatório sobre a Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, divulgado na sexta-feira, o governo de Washington, cujos atritos com o Brasil crescem dia a dia, não vê esse país como participante do bloco BRIC. O documento se refere a todo momento a Índia, Rússia e China, sem citar o Brasil, que qualifica apenas como "nação cada vez mais influente", colocando-o no grupo de Indonésia e África do Sul.

O presidente e ex-sindicalista Lula, que afirmou claramente que para ele "é melhor um carnaval que uma guerra", continua defendendo o acordo obtido entre Brasil e Turquia com o Irã, e em uma carta ao presidente Barack Obama voltou a insistir que os conflitos internacionais como o do Irã só podem ser resolvidos com acordos e diálogo entre as partes, e não com ameaças de novas sanções, que segundo a diplomacia brasileira só servem para aumentar a pobreza dos iranianos.

A tese de Lula é que existe uma grande hipocrisia hoje entre as grandes potências, já que, segundo ele, ou ninguém tem a bomba atômica ou não se poderia negar a alguém o direito de tê-la.

O vice-presidente do Brasil, o empresário José Alencar, surpreendeu há alguns dias com declarações nas quais deu a entender que hoje, para ser uma grande potência no mundo, é preciso possuir a bomba atômica como arma de persuasão para evitar a guerra.

As Forças Armadas do Brasil acabam de declarar que dentro de algumas semanas esse país dominará todo o procedimento de enriquecimento de urânio para fins industriais. A Constituição brasileira proíbe a construção de armas nucleares, mas Lula está convencido de que nesse aspecto muitas das convenções internacionais, a começar pelo Tratado de Não-Proliferação de Armas, deverão ser revisadas, assim como a ONU, que para ele ficou obsoleta e não corresponde aos novos equilíbrios mundiais.

Ao mesmo tempo que Lula e sua diplomacia continuam defendendo o acordo alcançado com o Irã, nos círculos do presidente existe um verdadeiro mal-estar pela declaração do Irã, afirmando que continuará enriquecendo urânio a 20%, feita pouco depois de ter assinado o acordo. Existe a amarga sensação de poder ter sido enganados pelo Irã, embora em um primeiro momento tenham atribuído aquela declaração ao uso interno da imagem para acalmar a população, inclinada a que o Irã tenha a bomba atômica, como tem Israel, que consideram seu grande inimigo.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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