Israelenses não se veem como agressores e sim como mártires

Enric González

Jerusalém (Israel)

  • Reuters

    Ativistas ocupantes do barco Mavi Marmara seguram soldado israelense que invadiu embarcação para impedir que ajuda humanitária chegasse ao território de Gaza

    Ativistas ocupantes do barco Mavi Marmara seguram soldado israelense que invadiu embarcação para impedir que ajuda humanitária chegasse ao território de Gaza

O ataque ao Mavi Mármara na segunda-feira da semana passada de madrugada demonstrou novamente um curioso fenômeno perceptivo: diante das mesmas imagens, diante dos mesmos fatos, o mundo em geral tende a ver uma coisa e Israel tende a ver outra muito diferente. Faz anos que isso ocorre. Trata-se de uma questão de foco. O mundo não deixou de perceber que Israel mantém territórios sob ocupação e que os palestinos sofrem uma situação essencialmente injusta. Israel, por sua vez, parece incapaz de ver isso. Perdida essa referência essencial, sente-se submetido a constantes agressões e não consegue explicar a incompreensão alheia.

Desde o momento de sua fundação, em 1948, Israel gozou de amplas simpatias em todo o planeta. Pesava a recordação recente de Auschwitz e o extermínio, e pesava o genérico remorso europeu, mas mais importante ainda era a situação do novo Estado: um pequeno território submetido à agressão dos países árabes vizinhos. Compreendiam-se os atos de terrorismo (o assassinato do enviado da ONU, a bomba no hotel King David, etc.) e se justificava a expulsão de palestinos porque Israel era percebido como vítima. Uma vítima, além disso, em sintonia com as ideias predominantes no pós-guerra: Israel era um país laborioso, laico, socializante.
 

A vitória israelense na guerra de 1948 contra seus vizinhos foi percebida como uma proeza descomunal. O fracasso da invasão do Egito junto a britânicos e franceses em 1956 apenas empanou sua imagem, e a épica alcançou seu nível máximo na Guerra dos Seis Dias de junho de 1967, depois da qual Israel conquistou da Jordânia Jerusalém Oriental (incluindo a Cidade Velha) e toda a Cisjordânia; do Egito, o Sinai; e da Síria, o Golã. Os conservadores ocidentais contemplavam Israel como uma ponta-de-lança geoestratégica; os progressistas, como um modelo social. O relato palestino dos acontecimentos, e o árabe em geral, ainda não faziam parte do relato que o resto do mundo escutava.

As coisas começaram a mudar pouco depois. As revoltas de 1968 e o aparecimento da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) como força independente modificaram alguns pontos de vista externos. Dentro de Israel, cujos dirigentes afirmavam estar dispostos a devolver imediatamente os territórios ocupados em troca de acordos de paz, também se registraram mudanças profundas.

Na Páscoa de 1968, um grupo de famílias religiosas judias alugou durante alguns dias um hotel em Hebron, no coração da Cisjordânia. Passados os dias, as famílias se entrincheiraram no hotel e se negaram a sair: como se poderia negar o direito dos judeus a viver na cidade onde Abraão comprou seu primeiro pedaço de terra? O governo trabalhista cedeu e enviou soldados para proteger aqueles primeiros colonos. Foi o início de um processo de colonização que se tornou incontível.
Para um certo número de israelenses, incluindo laicos, a grande vitória de 1967 havia sido um milagre, um dom de Deus. Era difícil rejeitar um presente divino. E difícil se desprender do Israel histórico, praticamente todo ele na Cisjordânia (que Israel chama de Judeia e Samária), que incluía a adorada Jerusalém, evocada durante dois milênios de exílio.
 

Raio-x de Israel:

  • Nome oficial: Estado de Israel
    Governo: Democracia Parlamentar
    Capital: Jerusalém
    Divisão administrativa: 6 distritos
    População: 7.233,701
    Idiomas: Hebraico (oficial), árabe (usado oficialmente pela minoria muçulmana) e inglês
    Grupos étnicos: Judeus 76.4%, muçulmanos 16%, árabes cristãos 1.7%, outros cristãos 0.4%, druzes 1.6%, sem especificação 3.9%
    Fonte: CIA World Factbook


O dilema diante do presente provocou um terremoto político interno. O trabalhismo, que havia aceitado (pelo menos como ponto de partida) a divisão da Palestina estabelecida pela ONU e havia fundado o país, despencou diante dos revisionistas do Likud e das forças ultrarreligiosas, que sempre haviam reivindicado o Grande Israel, do Jordão até o mar.

Israel entrou então em seu segundo estado de auto-hipnose. O primeiro foi o da fundação: o sionismo consistia em criar um país em um território supostamente vazio ("um povo sem país para um país sem povo"), esquecendo da existência dos árabes palestinos. O segundo se referiu, e se refere, à Cisjordânia. Diante da enorme questão existencial sobre manter ou renunciar à terra do Israel bíblico, diante dos tremendos rompimentos internos que poderia causar o simples fato de colocar a questão (lembre-se do assassinato do primeiro-ministro Rabin, que oferecia aos palestinos uma modesta autonomia dentro de uma parte da Cisjordânia), a classe política e a maioria dos cidadãos preferiram evitar o assunto.

Israel mudou nas últimas décadas. A interiorização do Holocausto e sua onipresença, a sucessão de ataques terroristas, a chegada de mais de um milhão de judeus da União Soviética com agudos instintos ultranacionalistas, o apogeu dos sentimentos religiosos e a equiparação da Bíblia a um contrato de propriedade territorial, o progressivo isolamento diplomático, o fracasso no Líbano, o fortalecimento de uma ameaça como a do Irã e seus acólitos Hizbollah e Hamas forjaram para os israelenses uma nova imagem de si mesmos. Paradoxalmente, sentem-se fortes e consideram-se frágeis.

Os israelenses, agora, não veem no espelho nacional uma potência ocupante que bloqueia Gaza e raciona os alimentos de seus habitantes, que decide onde e quando um palestino da Cisjordânia pode ir dentro de sua própria cidade, que obtém um notável lucro econômico da ocupação e mantém uma arrasadora superioridade militar sobre todos os seus vizinhos. Olham-se no espelho e veem uma vítima.

O vice-ministro das Relações Exteriores, Danny Ayalon, pronunciou na segunda-feira uma frase reveladora, e sem dúvida sincera, em uma mensagem dirigida aos judeus no estrangeiro pouco depois do assalto ao navio turco Mavi Mármara: "Obrigado por escutar, por compreender, por defender e por tentar colocar as coisas na perspectiva correta, lembrando que nós somos aqui as vítimas e que somos nós que nos vemos obrigados a empreender essas ações para nos defendermos". Também devia ser sincero o primeiro-ministro Benjamim Netanyahu, quando denunciou a "hipocrisia internacional".

É claro, em Israel há associações, jornalistas e cidadãos que combatem essa percepção. Mas são minoria. A maioria não compreende que o mundo não compreenda: dezenas de pessoas atacaram os soldados no Mavi Mármara, o Hamas continua preconizando a resistência violenta e a destruição de Israel, de Gaza se lançam foguetes, os colonos da Cisjordânia são atacados a pedradas, o Irã profere mensagens apocalípticas enquanto desenvolve seu programa nuclear, cresce o terrorismo islâmico; como o mundo não vê tudo isso?

O caso é que isso se vê de fora. Mas também se vê o outro, a tragédia humanitária do bloqueio, o drama palestino. E o uso que Israel faz da ameaça terrorista (todo ato hostil já é terrorismo) para sentir-se vítima, e não potência ocupante.

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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