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Israelenses não se veem como agressores e sim como mártires

Enric González

Jerusalém (Israel)

  • Reuters

    Ativistas ocupantes do barco Mavi Marmara seguram soldado israelense que invadiu embarcação para impedir que ajuda humanitária chegasse ao território de Gaza

    Ativistas ocupantes do barco Mavi Marmara seguram soldado israelense que invadiu embarcação para impedir que ajuda humanitária chegasse ao território de Gaza

O ataque ao Mavi Mármara na segunda-feira da semana passada de madrugada demonstrou novamente um curioso fenômeno perceptivo: diante das mesmas imagens, diante dos mesmos fatos, o mundo em geral tende a ver uma coisa e Israel tende a ver outra muito diferente. Faz anos que isso ocorre. Trata-se de uma questão de foco. O mundo não deixou de perceber que Israel mantém territórios sob ocupação e que os palestinos sofrem uma situação essencialmente injusta. Israel, por sua vez, parece incapaz de ver isso. Perdida essa referência essencial, sente-se submetido a constantes agressões e não consegue explicar a incompreensão alheia. Desde o momento de sua fundação, em 1948, Israel gozou de amplas simpatias em todo o planeta. Pesava a recordação recente de Auschwitz e o extermínio, e pesava o genérico remorso europeu, mas mais importante ainda era a situação do novo Estado: um pequeno território submetido à agressão dos países árabes vizinhos. Compreendiam-se os atos de terrorismo (o assassinato do enviado da ONU, a bomba no hotel King David, etc.) e se justificava a expulsão de palestinos porque Israel era percebido como vítima. Uma vítima, além disso, em sintonia com as ideias predominantes no pós-guerra: Israel era um país laborioso, laico, socializante.  

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