Debate sobre o véu islâmico na Espanha deve ir para o campo judicial

Jesús García e Ferran Balsells

Em Barcelona e Tarragona

  • Remy de la Mauviniere/AP

    Mulheres francesas e palestinas defendem o uso da burca na França, que também o proibiu

    Mulheres francesas e palestinas defendem o uso da burca na França, que também o proibiu

Onze mesquitas de Tarragona e Barcelona, lideradas por imames fundamentalistas, levaram a proibição do véu integral aos tribunais por considerá-la "inconstitucional"

Os líderes muçulmanos mais radicais da Catalunha pretendem levar para o campo judicial a batalha da burca. Onze mesquitas ligadas à corrente salafista, que defende a ruptura com o Ocidente, anunciaram na terça-feira medidas legais para impugnar as moções de diversas prefeituras contra o uso do véu integral. A comunidade islâmica de Reus - um dos municípios que nos próximos dias proibirá que as mulheres usem burca ou nicab - é o principal bastião do fundamentalismo e liderou a rebelião contra a onda proibicionista, por considerá-la "inconstitucional".

"Recorremos à Justiça porque a decisão atenta contra a liberdade de nossas mulheres a vestir-se como quiserem", explicou Farid Katthouti, membro da junta administradora da mesquita de Reus e coautor do manifesto conjunto ao qual aderiram nove oratórios de Tarragona e outros dois de área de Barcelona (Rubí e Sant Boi). "Estas leis criarão problemas e dividirão os muçulmanos e a sociedade. Iremos até o final porque a Justiça e a liberdade democrática nos garantem", afirmou Katthouti.

Apesar de Lleida ter-se transformado na primeira cidade espanhola a proibir esses trajes (só em edifícios públicos), é em Tarragona que o debate ganhou maior força. Embora a burca (tipicamente afegã) seja quase inexistente, o nicab - um véu que cobre o corpo completamente, mas deixa um pequeno espaço descoberto na altura dos olhos - tem certa preferência nas comunidades mais conservadoras.

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O debate em torno da burca, que alguns especialistas consideram inoportuno, se espalhou como pólvora. O Partido Popular levou o debate ao Senado, onde os grupos deverão se pronunciar. Seis municípios catalães debaterão a proibição. E em pelo menos três deles (Tarragona, Reus, El Vendrell) as moções têm todas as condições de serem aprovadas em poucos dias, já que acordos esboçam uma maioria favorável.

Em todo caso, as iniciativas circunscrevem o veto aos equipamentos municipais. Proibir a burca na rua apresenta sérias dúvidas legais. E é nesse ponto que as demandas dos imames diante da Justiça poderão ter êxito.

Os líderes espirituais atuam como um filtro. O debate chegou à comunidade através deles. Mais ainda, são eles que orientam (e na prática decidem) o caminho a seguir, que neste caso passa por uma oposição frontal e ativa à proibição. "Sentem-se atacados e transformam a polêmica em uma campanha de promoção da burca", lamenta Abdennur Prado, da Junta Islâmica da Catalunha, que reúne os conversos.

Diante dos elementos mais radicais, os muçulmanos moderados rejeitam o véu completo porque não condiz com a integração. Inclusive compreendem que seu uso seja restrito em certas situações, em nome da segurança. Embora também vejam a ofensiva política contra o nicab como um ataque à sua liberdade religiosa, preferem considerá-lo com calma. Em vez de demandas judiciais, dizem, é melhor deixar o assunto esfriar pouco a pouco.

"É preciso contornar a polêmica, ignorá-la. Cairá por seu próprio peso", reflete Taoufik Cheddadi, líder da comunidade muçulmana na área de Barcelona, que recrimina os partidos políticos pelo uso eleitoreiro da burca. "Não estamos à margem, mas sim à espera. Em Reus, as coisas são mais complexas e o ritmo mais acelerado", afirma Mimoun Jalich, da União de Centros Islâmicos da Catalunha.

Os especialistas no estudo do islã na Espanha criticam que em geral seus únicos interlocutores são homens. Com o homem-forte de Reus e um dos mais influentes salafistas estabelecidos na Espanha, Said Hamdouni, ocorre algo semelhante. Hamdouni explica que sua mulher usa o nicab porque quer. "Tem total liberdade para usá-lo. Nossas mulheres não são crianças, precisam respeitar a religião", afirma o homem, que no entanto evita que sua mulher o explique pessoalmente. "É que ela não fala castelhano." Hamdouni afirma que "se uma mulher é obrigada a usar burca, deve denunciar", mas acrescenta que o traje "não faz mal a ninguém".

As mulheres muçulmanas, segundo Hamdouni, também estão se mobilizando contra a proibição. Em Lleida, a resolução da prefeitura levou algumas mulheres, por solidariedade e para defender sua identidade e religião, a vestir o nicab. E em Valls (Tarragona), a mulher de um líder espiritual optou há tempo por usar esse traje como forma de se manifestar contra o uso, excessivamente chamativo, que se faz do hijab, o véu que cobre só a cabeça e que algumas mulheres combinam com a cor das sapatilhas. Essa coqueteria não é bem vista pelos fundamentalistas, que lançam assim uma dupla mensagem: para as mulheres ocidentais, que não querem ser como elas; para as muçulmanas, que devem seguir a via ortodoxa.

A vida nas comunidades, porém, continua igual. Além das declarações dos líderes e de uma certa indignação generalizada, não há grande comoção. No bairro de Carrilet de Reus, cujos balcões cheios de parabólicas irradiam programas árabes em alto volume, o debate passa quase despercebido. O grosso dos moradores mal entende castelhano e os que o falam vivem pregados à atualidade ditada pelas televisões muçulmanas. "Não podemos interferir nas questões de Alá, é um assunto delicado. Vocês acham normal ter prostitutas na rua, mas proíbem que uma mulher esconda o rosto. Não podem sair com nicab, mas sim manter relações sexuais na esquina", explica incomodado Yusuf, 31 anos, que consultou sobre o assunto os líderes da mesquita de Reus. "Nos orientaram, mas eu nunca estive de acordo com a proibição", afirma. O assunto chega à rua peneirado pelos líderes de opinião de cada comunidade, salienta Elhassane Jeffali, líder de uma entidade local moderada. "Isso é muito perigoso, porque alguns centros fomentam o integralismo."

A mesquita da Calle del Nord de Lleida, que abriga o maior número de fiéis, é dirigida por Abdelwahab Houzi, um imame que prega a doutrina salafista mais radical, que lançou em seus sermões apelos incendiários contra a cultura ocidental e que protagonizou nos últimos anos diversos confrontos com sua comunidade e com a vizinhança, informa Lluís Visa. Houzi, que foi denunciado por maus-tratos e poligamia por sua segunda esposa, uma espanhola, defende o uso do véu integral porque, na sua opinião, não discrimina as mulheres. "A mulher mesma, por sua própria vontade, com sua própria liberdade, escolhe esse tipo de vestimenta. Ninguém a obriga."

Os líderes conservadores do islã veem a regulamentação como uma ameaça a sua influência no seio das comunidades. Daí sua resposta furiosa e também que o conflito esteja armado. A prefeitura de Reus, no entanto, confirma que se trata somente de uma medida de pressão. "Estão no seu direito, mas se enganam: seria melhor que não tencionassem a situação porque podem criar conflitos", afirma o porta-voz socialista, Eduard Ortiz. E adverte: "Seremos inflexíveis com a proibição, a menos que um juiz nos diga o contrário".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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