Peronismo dissidente forma frente comum contra os Kirchner

Alejandro Rebossio

Em Buenos Aires (Argentina)

  • Jorge Adorno/ Reuters

    Candidatura de Néstor Kirchner é apoiada por principais deputados peronistas

    Candidatura de Néstor Kirchner é apoiada por principais deputados peronistas

"Os rapazes peronistas, todos unidos venceremos", canta a marcha do Partido Justicialista (PJ, peronista), e talvez por isso tenham decidido por de lado os personalismos e aliar-se todos os dirigentes desta força que se opõem a seu presidente, Néstor Kirchner, o marido da chefe de Estado da Argentina, Cristina Fernández Kirchner. Depois de meses de negociações secretas, os expoentes máximos do peronismo dissidente, entre eles o ex-presidente argentino Eduardo Duhalde (2002-2003), concordaram na quarta-feira por escrito em um gabinete do Senado que nas eleições gerais do próximo ano apresentarão um candidato comum, seja dentro das primárias do PJ ou por fora dessa estrutura dominada por Kirchner.

Os peronistas dissidentes reagiram assim à melhora da imagem dos Kirchner, ajudados pela forte recuperação econômica latino-americana depois da crise global, e ao impulso que tomou uma eventual candidatura presidencial do radical Ricardo Alfonsín, filho do falecido ex-presidente Raúl Alfonsín (1983-1999), depois de sua surpreendente vitória nas eleições de domingo para definir a diretoria do partido na província de Buenos Aires, onde votam mais de dois terços dos argentinos.

Separados, alguns peronistas dissidentes pareciam condenados a ficar atrás de Kirchner, cuja candidatura é promovida por seus principais deputados, abaixo do radicalismo e seus aliados e inclusive, talvez, relegados frente a outras forças como a direita da Proposta Republicana (PRO), do prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, e a esquerda do Projeto Sul, do cineasta e deputado Fernando Pino Solanas. Por isso foi assinado o acordo de união do peronismo de oposição, e algumas de suas referências não descartam uma aliança posterior com Macri.

Os signatários do acordo foram Duhalde, outros aspirantes à presidência argentina como os deputados Francisco de Narváez (o empresário que derrotou Kirchner nas legislativas do ano passado) e Felipe Solá, e os governadores das províncias de Chubut (sul da Argentina), Mario Das Neves, e San Luis (oeste), Alberto Rodríguez Saá. Também o assinou o senador que nunca se decide a disputar a Casa Rosada, Carlos Reutemann, que foi vice-campeão da Fórmula 1 em 1981.

Ainda não decidiram como escolherão seu candidato, mas se se decidirem a concorrer dentro do partido fundado pelo ex-presidente Juan Domingo Perón (1946-1955 e 1973-74) quase certamente deverão enfrentar nas primárias Kirchner, que antecedeu sua mulher no governo (2003-2007). Na União Cívica Radical (UCR), as primárias podem chegar a confrontar Alfonsín com o vice-presidente da Argentina, Julio Cobos, que chegou a esse cargo em uma frente com o kirchnerismo que depois se rompeu devido ao conflito de Fernández com os agricultores em 2008.

Duhalde declarou na quinta-feira na rádio Millenium que "é óbvio" que Kirchner se preocupa com a unidade do peronismo dissidente: "Na última eleição ele não foi bem, e agora estamos convencidos de que irá muito mal". Duhalde conduziu a Argentina nos primeiros passos da recuperação da crise de 2001-2002, mas sua imagem nas pesquisas é negativa porque ficaram na memória de muitos argentinos suas medidas impopulares, como a desvalorização do peso, a conversão em pesos dos depósitos em dólares e as duas mortes na repressão a piqueteiros (desempregados que bloqueiam ruas como protesto).

O chefe de gabinete de Cristina Kirchner, Aníbal Fernández, respondeu a Duhalde pela rádio Continental: "A foto [dos peronistas dissidentes] não me diz nada. Nossa preocupação é juntar votos, e não nos preocupar com os outros". Na semana passada, Aníbal Fernández havia admitido a possibilidade de que a presidente argentina tentaria a reeleição em 2011, em vez de seu marido tentar substituí-la.

O peronismo dissidente unido talvez aspire a repetir a vitória de 2009 de Narváez contra Kirchner na província de Buenos Aires, quando o radicalismo e seus aliados ficaram em terceiro lugar. Narváez é impedido de se candidatar à Presidência argentina pela Constituição, porque nasceu na Colômbia, mas vai apelar na Suprema Corte. De todo modo, conforma-se por enquanto em se transformar em governador de sua província.

No radicalismo, Alfonsín conseguiu reviver as esperanças de que se restaure o Acordo Cívico e Social, que havia constituído nas eleições do ano passado com a Coalizão Cívica da deputada Elisa Carrió, o pequeno Partido Socialista do governador de Santa Fé (centro), Hermes Binner, e com a Geração para um Encontro Nacional (GEN) da deputada Margarita Stolbizer. Em troca, a candidatura de Cobos, cujos candidatos foram derrotados no domingo nas primárias da UCR em Buenos Aires, caminha bem nas pesquisas, mas não entre os aliados do radicalismo.

As enquetes evidenciam que, depois de dois anos nos quais se sucederam o conflito rural e a crise mundial, os argentinos estão recuperando o otimismo. Isso ficou demonstrado no ânimo dos 2 milhões que em 25 de maio festejaram nas ruas o bicentenário da revolução de independência da Argentina. Kirchner sabe que perdeu em 28 de junho de 2009, em plena recessão, embora as estatísticas oficiais não a tenham reconhecido. Por isso se ilude com um ressurgimento. Consultorias privadas calculam que a economia crescerá 5% este ano, mas com uma inflação superior a 20%. Os sindicatos peronistas negociam aumentos salariais entre 20% e 35%.

"Deus os criou e o demônio os juntou", referiu-se na quinta-feira Solanas, do Projeto Sul, ao acordo dos peronistas dissidentes. "Mas até agora, no combate dos diabos que, Kirchner anda ganhando", acrescentou, em declarações ao jornal "Clarín". A figura de Solanas cresceu como rival de Macri na cidade de Buenos Aires. Macri também capitalizou as comemorações do bicentenário porque cumpriu sua promessa de restaurar o Teatro Colón, uma das óperas de melhor acústica do mundo, mas também carrega nas costas uma acusação em um caso de escutas ilegais e as queixas cotidianas, como as das mais de 40 escolas que dão aulas sem calefação, em pleno frio outonal.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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