Paraguai mobiliza exército para derrotar guerrilha com apenas 20 membros

Soledad Gallego-Díaz

Enviada especial a Assunção (Paraguai)

  • Andrés Cristaldo/EFE

    Suspeito de pertencer ao EPP é assinalado em cartaz com suspeitos procurados pela polícia paraguaia

    Suspeito de pertencer ao EPP é assinalado em cartaz com suspeitos procurados pela polícia paraguaia

Durante 30 dias, a região norte do Paraguai foi palco de uma inusitada mobilização de mais de 3 mil soldados e policiais que patrulharam povoados e campos em busca dos supostos dirigentes de uma das guerrilhas mais desconhecidas, estranhas e pequenas da América Latina.

O Exército do Povo Paraguaio (EPP), acusado de matar um humilde policial e três guardas de segurança de uma fazenda (ou três capangas, segundo outras fontes) e de planejar novos sequestros de ricos pecuaristas (em 2008 sequestrou Luis Lindstron e em 2009, Fidel Zavala), provocou alarme e medo entre os poderosos da região e levou o presidente Fernando Lugo a declarar estado de exceção em quatro departamentos do país.

A medida singular terminou em 24 de maio, sem que, como era previsível, dada a enorme extensão do terreno a cobrir e a minúscula envergadura do grupo perseguido (não mais de 20 pessoas, segundo fontes oficiais), pudesse cumprir seus objetivos. Houve mais de uma centena de detenções, mas só uma teve algo a ver, indiretamente, com o EPP. As demais foram criminosos comuns presos porque não puderam ou souberam se esconder a tempo.

O EPP, ao qual se atribuem algumas ações violentas desde 1997 mas que se tornou realmente presente a partir de 2001, com quatro sequestros em oito anos, um dos quais terminou com a morte da filha de um ex-presidente, é um verdadeiro mistério. Para alguns, trata-se do embrião de uma guerrilha que terminará criando raízes em um território oprimido pela brutalidade dos latifundiários, a virtual ausência dos poderes do Estado e a extrema pobreza dos agricultores. Para outros, um pequeno grupo criminoso, que de vez em quando lança confusas mensagens políticas, mas que não pretende realmente tomar o poder ou mudar a sociedade paraguaia.

O ministro do Interior, Rafael Filizzola, é um jovem advogado que ajudou a levar ao poder em 2008 Fernando Lugo (um bispo católico aposentado) e que conseguiu acabar com mais de 60 anos de domínio do Partido Colorado. Em seu pequeno escritório em Assunção, Filizzola afirma que o EPP "certamente teve em algum momento objetivos políticos". "De fato, alguns de seus integrantes se afastaram de um partido de esquerda para defender a luta armada e outros procedem de movimentos sociais relacionados à Igreja, mas na atualidade o EPP não tem envergadura nem programa para ser definido como uma guerrilha", explica.

Rastro que leva até as Farc

O ministro do interior, Rafael Filizzola, afirma que o grupo que recebeu treinamento e que tem preparo militar dentro do Exército do Povo Paraguaio (EPP) não supera 20 pessoas. De fato, dos quase 40 que estão na prisão por sua relação com o EPP (a metade deles detida durante o governo do presidente Lugo), só sete têm "capacidade militar". O ministro acredita que existiu uma vinculação com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). "No famoso computador de Raúl Reyes [o nº 2 das Farc, morto no Equador] encontraram-se rastros de comunicação com gente do EPP", afirma.

No cartaz dos mais procurados que Filizzola tem sobre a mesa, está um dirigente da guerrilha colombiana, Rodrigo Granda. A primeira fila é integrada por jovens paraguaios: Osvaldo Villalba, irmão menor da mencionada Carmen Villalba (um terceiro irmão, José, também foi detido), a jovem Magna Meza, Manuel Cristaldo Mieres...

Com um lápis, Filizzola marca os nomes que foram "caindo presos": Lourdes Ramírez, Juana Bernal, Alcides Jiménez, Alcio Soria, Mary Blanca Bracho... até 23, contando os seis que foram extraditados da Argentina. O Brasil se recusa por enquanto a entregar outros três supostos membros do EPP, que buscaram refúgio atrás de sua fronteira.

Um de seus principais dirigentes, Carmen Villalba, detida pelo sequestro de María Edith de Debernardi, uma das grandes fortunas do país, reivindica na prisão "o direito à defesa, inclusive por meios violentos". "Quer mais violência que as que exercem os capangas nas fazendas contra agricultores indefesos aos quais expropriam de tudo?", declarou em uma entrevista coletiva que deu em 2008 na prisão.

"É possível que mensagens como essa provoquem simpatia em uma região que foi relegada pelo Estado, que tem grandes carências de comunicação, na qual há enormes fazendas de até 20 mil hectares e nas quais as organizações camponesas denunciam habitualmente abusos", admite o ministro. "Não sabemos com precisão quantos simpatizantes pode ter o EPP, mas o que importa é que é um grupo criminoso que atua em uma zona na qual é habitual o tráfico de drogas e de armas. Nós o levamos muito a sério, porque são perigosos. Não podem pôr em risco a estabilidade das instituições, mas sim a vida de pessoas, e aumentam a insegurança em uma zona que já é inclinada ao crime organizado."

O ministro salienta que durante os 30 dias de estado de exceção "não houve denúncias de violação dos direitos humanos". "O tema é muito delicado para nós. Sabemos que temos problemas nas prisões e nas delegacias, mas estamos trabalhando muito seriamente. Não estamos satisfeitos com os resultados, mas é um assunto absolutamente prioritário para nós e às vezes as forças policiais são acusadas sem razão", insiste.

É difícil compreender que combater um grupo tão pequeno exija uma mobilização tão grande de meios. Não é segredo para ninguém em Assunção que o ministro não era partidário de declarar o estado de exceção. Mais ainda, muitos creem que o próprio presidente Lugo foi obrigado a proclamá-lo para impedir que o Congresso, no qual não tem maioria, tomasse essa decisão por sua conta e lhe desse um prazo para deter os responsáveis máximos do EPP, coisa impossível de cumprir.

Filizzola não fala sobre esses assuntos. Limita-se a explicar que um estado de exceção de 30 dias não serve para cumprir os objetivos propostos, mas sim para outros. "O exército não estava lá para capturar os 20 ou 40 possíveis militantes do EPP na zona, mas para dar resposta a muitos outros problemas que ali existem."

De fato, ao finalizar o estado de exceção, os militares não voltaram totalmente a seus quartéis, mas algumas centenas ficaram na região para reforçar a presença do Estado, tranquilizar os fazendeiros e dar mais apoio às forças de segurança. "Para esse tipo de trabalho, todos sabemos que é fundamental o trabalho da inteligência, como nos assuntos do narcotráfico", afirma Filizzola.

O Paraguai se transformou em um dos maiores exportadores de maconha do mundo sob a ditadura do general Alfredo Stroessner, e tem uma longa tradição de militares, políticos e poderes do Estado dedicados a dar proteção a narcotraficantes. O governo Lugo não recebe, porém, ajuda significativa para lutar contra essa formidável corrupção. Inclusive o apoio do famoso DEA (departamento antidrogas) dos EUA é quase ridículo. "Será porque somos produtores de maconha e não de cocaína?", brinca o ministro.

No Paraguai parece mais fácil identificar e deter os responsáveis pelo tráfico de maconha, a apropriação injusta de terras comunitárias ou o contrabando que cruza suas fronteiras, do que os escassos dirigentes do EPP, escondidos nas montanhas e florestas, mais parecidos com fantasmas do que autênticos herdeiros do Che.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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