As medidas contra a crise abalam a coalizão de Merkel

Juan Gómez

Berlim (Alemanha)

  • Tim Brakemeier/EFE - 26.jan.2010

    A chanceler alemã Angela Merkel durante pronunciamento em Berlim, na Alemanha

    A chanceler alemã Angela Merkel durante pronunciamento em Berlim, na Alemanha

As opções são conter os danos ou recolher os escombros. Desde que Angela Merkel ganhou as eleições em setembro de 2009, a União Democrata Cristã (CDU), seu partido-irmão bávaro União Social-Cristã (CSU) e seus aliados do Partido Liberal (FDP) têm sofrido um desgaste mais próprio de um governo em seu terceiro mandato do que de uma coalizão recém-eleita. Até agora foram oito meses de desavenças e tropeços sobre cada decisão importante.

A gestão da crise do euro – vista como uma capitulação por muitos alemães que temem por suas economias -, os cortes sociais introduzidos na semana passada, assim como o bloqueio dos benefícios fiscais e outras medidas prometidas nas eleições se viram acompanhados por uma rixa política atrás da outra. A CDU e o FDP desabam nas pesquisas, enquanto a imprensa dispara críticas. A influente publicação “Der Spiegel”, por exemplo, mostra em sua primeira página uma perturbadora foto de Merkel e seu ministro de Relações Exteriores e líder liberal, Guido Westerwelle, de cara feia no Parlamento alemão, sob a manchete: “Deixem-no!”.

A última estação da via-sacra de Merkel foi a polêmica com seu ministro da Defesa, Karl Theodor zu Guttenberg (CSU). O social-cristão bávaro defendeu a profissionalização das Forças Armadas diante do corte do orçamento da Defesa. Merkel foi contra, e a imprensa registrou boatos de demissão do ministro.

Mas os problemas parecem se encadear desde o começo. A redução de impostos, jogada eleitoral dos liberais que lhes deu quase 15% dos votos em setembro, não resultou em nada. E a prometida reforma do sistema de saúde não tem perspectiva de ser desentravada.

O plano de austeridade apresentado por Merkel depois de duras negociações com seus ministros iria definir um novo rumo na política comum de democratas-cristãos e liberais, mas o “esforço excepcional” do governo para aplicar um corte de 80 milhões de euros até 2014 não só atraiu as críticas da oposição de centro-esquerda, como abriu um novo foco de discussão interna nos partidos do governo. A ala esquerda da CDU chama de “desequilibrados” os cortes na área social do plano. Entre os liberais se propaga a preocupação de que as medidas possam ser o primeiro passo para uma elevação dos impostos depois de 30 de junho.

Entendendo a crise na União Europeia

Cerca de 53% dos alemães duvida que o governo resista até 2013. A revista de economia “Capital” publicou na terça-feira uma pesquisa devastadora. Somente 6% dos 533 executivos, políticos e funcionários que ocupam altos cargos estão “satisfeitos” com o trabalho do governo. Já 92% se mostram “decepcionados”.

Em maio, democratas-cristãos e liberais perderam as eleições da Renânia do Norte-Vestfália e sua maioria na Câmara Alta (Bundestag). Para surpresa de todos, nesse mesmo mês o presidente, Horst Köhler, renunciou. Foi um duro golpe para Merkel e os liberais. Uma vez recuperados, e para demonstrar unidade no governo, Merkel e Westerwelle concordaram em sugerir para o cargo o conservador Christian Wulff. Social-democratas e verdes responderam apresentando Joachim Gauck, um dos principais líderes da oposição democrata sob o regime socialista da extinta Alemanha Oriental. Muitos democratas-cristãos e liberais veem Gauck como o candidato adequado para a liderança do Estado alemão, um cargo representativo e simbólico.

O trabalho de Gauck na investigação dos crimes do regime comunista da Alemanha Oriental empalidecem os méritos de Wulff, uma figura regional um pouco apagada. Os liberais e muitos democratas-cristãos críticos consideram a possibilidade de fazer com que Merkel pague por suas afrontas, dando seu voto a Gauck na eleição do próximo dia 30 no Parlamento. Uma derrota do candidato de Merkel poderia arruinar o governo de coalizão.

Tradutor: Lana Lim

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