"Sozinho não posso mudar o Egito", diz Mohamed El Baradei, líder pró-democracia

Ángeles Espinosa

  • Jean-Christophe Verhaegen/AFP - 24.mai.2007

    Mohamed El Baradei é ex-chefe da AIEA, Prêmio Nobel da Paz e líder pró-democracia no Egito

    Mohamed El Baradei é ex-chefe da AIEA, Prêmio Nobel da Paz e líder pró-democracia no Egito

Seu regresso ao Egito depois de três décadas de uma bem-sucedida trajetória profissional no serviço diplomático, primeiro, e depois na ONU, agitou a narcotizada cena política local. Prestes a completar 68 anos e com o Nobel da Paz embaixo do braço, Mohamed El Baradei, o ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), representa uma alternativa verossímil para a sinistra dicotomia entre o autoritarismo de Mubarak e o fundamentalismo religioso. "Eu sozinho não posso mudar o Egito", declara esse diplomata de carreira e advogado de formação durante uma entrevista de quase duas horas a "El País", em sua casa nos arredores do Cairo.

"Eu não havia planejado entrar na política, mas quando estava terminando meu mandato na AIEA comecei a receber ligações para que viesse dar uma mão, e pensei que, se pudesse, deveria ajudar a encaminhar o Egito para a democracia. Porque estou convencido de que esse deve ser o objetivo", afirma.

O mero rumor de que iria se colocar à frente de um movimento pela democracia fez com que centenas de pessoas desafiassem as advertências das autoridades e fossem ao aeroporto para recebê-lo no final de fevereiro. A maioria dos representantes de uma oposição tão dispersa quanto variada também quis somar-se ao que foi batizado de Associação Nacional pela Mudança. Desde então, essa frente teve seus altos e baixos.

"Todo mundo tinha expectativas descomunais... esperavam que eu fosse um redentor... é pouco realista", declara El Baradei. "Tento reduzir essas expectativas e explicar que para que a situação mude todo mundo tem de se mobilizar."

"Em algum artigo me chamaram de político híbrido", brinca. "É verdade, não sou um político profissional em tempo integral. Meu objetivo é ajudar a difundir ideias, falar com as pessoas. O Prêmio Nobel não é uma condecoração, é uma responsabilidade. O que posso fazer no Egito?"

Ele parece sincero quando afirma que não busca a presidência. Mas talvez seja essa falta de ambições políticas convencionais o que transforma seus propósitos em um desafio formidável para um regime atrofiado por três décadas de controle absoluto de todos os recursos do poder.

"Uma vez que haja um sistema democrático, não importa tanto quem seja o presidente. O importante é mudar o modelo de governo unipessoal por um baseado nas instituições", defende. Parece óbvio, mas no Egito beira o subversivo. "Sei que estão nervosos porque é a primeira vez que lhes dizem na cara que não enganam mais ninguém. E não gostam disso porque sabem que tenho credibilidade, reconhecimento e sempre tenho ao meu redor a mídia internacional, que acompanha o que faço. Não podem dizer que vem de alguém que não conhece a realidade. Minha vida se complicou, quando poderia estar vivendo tranquilamente", resume.

"Eu nunca disse aos egípcios que seria seu líder, mas se é isso que querem têm de estar dispostos a dar a cara", explica El Baradei. Ele propõe que assinem uma petição para exigir eleições livres e justas, e as mudanças constitucionais necessárias para que qualquer pessoa qualificada possa concorrer às presidenciais, sem as atuais barreiras aos independentes. É algo que todo o espectro político apoia, com exceção do partido governante.

"Conseguimos apenas 70 mil assinaturas porque as pessoas têm medo de expressar seus pontos de vista", admite. Isso apesar do esforço de um exército de 12 mil jovens voluntários que se mobilizaram pelas áreas rurais para levar a mensagem além do público urbano de Facebook e Twitter, onde seu sucesso foi arrasador. Mas o Egito já supera os 80 milhões de habitantes e, como lembra o próprio diplomata, 30% deles são analfabetos e 42% vivem com menos de US$ 2 por dia. O diretor de um jornal governista fixou em um milhão de assinaturas o limite para levar em consideração sua campanha.

El Baradei não se deixa obcecar pelo número. "Gostaria de ver 5, 10 milhões... Trata-se de pressionar o governo. Se conseguirmos que milhões de pessoas se declarem a favor da mudança, será mais difícil para o regime ignorá-las, tanto dentro como fora do país. E não me ocorre outra forma de consegui-lo."

Devido à Lei de Emergência, El Baradei não pode ter uma sede, dirigir um movimento civil, arrecadar fundos ou organizar comícios. "Inclusive é proibido que mais de cinco pessoas se reúnam na rua", aponta. Há gente que fala de protestos e manifestações, mas ele insiste em "fazer o regime entender que não tentamos acabar com a possibilidade de uma mudança pacífica porque seria desastroso para o futuro do país".

Agora, os Irmãos Muçulmanos ofereceram sua ajuda para conseguir o apoio popular de que El Baradei precisa. Pode ser o elemento que finalmente inclinará a balança, já que esse partido islâmico, que o regime tolera apesar de sua proscrição em 1954, constitui a principal força de oposição no Parlamento e na rua. El Baradei mostra-se pragmático a esse respeito.

"Constituem 20% do Parlamento, contra o 1% que conseguem os partidos legais, e além disso têm credibilidade porque se preocuparam em dar atenção médica e social aos menos favorecidos", constata, conhecendo as críticas que a reunião que manteve com eles despertou entre a esquerda e os setores laicos. "É claro que temos pontos de vista diferentes em questões sociais e políticas. Por exemplo, eu gostaria de ver um copta ou uma mulher como presidente do Egito. Eles discordam, mas não estamos competindo em eleições nem mesmo discutindo o conteúdo da Constituição, senão coordenando-nos para pedir uma mudança para a democracia. Também falei com os cristãos, com os socialistas, etc."

Trata-se de estabelecer valores básicos comuns, uma espécie de contrato social, ele explica. "Os Irmãos Muçulmanos não preconizam a violência, não são o ETA. Disseram publicamente que são a favor de um Estado civil. É preciso concretizar isso na Constituição. Essas são as linhas vermelhas e temos de lhes dar uma oportunidade de participar", defende. Considera que foram associados injustamente com a Al Qaeda. "Devem poder opinar inclusive se estamos em completo desacordo com eles. Se têm tanto apoio, é exatamente porque o espaço político se fechou para o resto", conclui.

A questão dos Irmãos Muçulmanos dá margem a El Baradei para se mostrar muito crítico com o Ocidente. "Sua política para o mundo árabe foi um completo fracasso. Se quiserem mudar a tendência, é preciso dar poder à população. A estabilidade se consegue com governos eleitos, o extremismo é fruto do apoio a governos ditatoriais. Talvez se consiga petróleo a bom preço, mas não dura. O Oriente Médio é uma bomba-relógio", adverte.

Deixa-se levar por sua ligação com os temas globais: Iraque, Irã, Hamas... Nota-se que são questões que o preocupam. "Todos esses assuntos estão interconectados. Não se pode falar de armas nucleares sem falar de insegurança, de pobreza, dos problemas endêmicos", afirma.

Aproveito que ele recebe uma ligação telefônica para lhe perguntar como o establishment reagiu à sua opção política. "Fingem que não importa, mas detiveram pessoas que estão ao meu redor, vários jovens que recolhem assinaturas, pessoas que me apoiaram. Inclusive no Kuwait, expulsaram 17 jovens profissionais que expressaram seu apoio a mim. Têm medo da mudança e também há uma grande expectativa no resto do mundo árabe porque sabem que se o Egito avançar na direção correta terá um efeito inclusive na África subsaariana."

Também pressionaram os donos das redes de televisão privadas para que não deem cobertura a suas atividades. Além disso, há a campanha de desprestígio.

"Fui vilipendiado profissional e pessoalmente. Disseram que eu trabalhava para o Irã e os EUA, que era anti-islâmico e pró-Irmãos Muçulmanos, que tenho diversas nacionalidades, qualquer idiotice, mas não quiseram debater a essência do meu discurso. Como podem defender que entre 6 e 7 milhões de egípcios que vivem no estrangeiro não tenham direito a voto, que não haja supervisão judicial das eleições, nem uma comissão eleitoral independente, nem supervisão internacional? Não há qualquer lógica por trás disso."

Ele reconhece que as elites se beneficiam do status quo. "A não ser que criemos um ambiente em que a maioria das pessoas percam o medo e possam expressar suas opiniões... só então poderemos, como a Espanha depois de Franco, alcançar a democracia de forma pacífica", afirma, demonstrando que as referências a Zapatero, Moratinos, Lorca ou Almodóvar com que foi salpicando a conversa são mais que uma cortesia com sua interlocutora. É consciente de que esse processo vai levar tempo.

"Ninguém sabe o que vai acontecer no Egito dentro de um ano. Todo mundo diz que é o fim do regime, mas pode ocorrer em seis meses, em um ano ou em três. Ninguém pode prever", afirma sobre a sucessão de Hosni Mubarak, que acaba de completar 82 anos. Este ainda não esclareceu se vai se candidatar a um sexto mandato nas próximas presidenciais ou se, como suspeitam muitos egípcios, pretende colocar seu filho Gamal.

"O que eu posso fazer é trabalhar, dentro e fora do país, para convencer os egípcios de todo o mundo de que temos de mudar de forma pacífica e de que a mudança é boa para todos, ricos e pobres, direita, esquerda e centro", indica. É outra das críticas que lhe fazem: que passa muito tempo fora do Egito.

"Entendo que haja diferentes pontos de vista, mas desde o primeiro dia compreendi que não poderia continuar operando como fez a oposição nos últimos 40 anos. As manifestações de meia centena de pessoas, as condenações e os comunicados não levaram a parte alguma. É preciso mobilizar as pessoas, educá-las, fazer as coisas de forma racional e não emocional", explica.

"Além disso, você percebe que muita gente tem sua própria agenda, que depois de décadas na oposição fizeram disso uma forma de vida. Não quero ser cúmplice do regime. Por isso me neguei a unir-me a um partido e dar ao sistema a única coisa que não tem, legitimidade", afirma, sabendo como seria fácil cair nessa armadilha. "Eles adorariam que eu concorresse nas eleições, disseram. Obteria cerca de 30% dos votos, me dariam a mão e me diriam 'Obrigado, o esperamos na próxima vez'. Mas não é esse meu objetivo. O que eu quero é que o Egito avance para a democracia e eu possa continuar fazendo o que fazia, e que as pessoas sigam em frente", acrescenta.

"É verdade que tenho compromissos internacionais, porque não contava com isto. Tenho de entregar o rascunho de um livro em setembro, antes de ir para Santiago de Compostela receber um prêmio; participo de vários comitês sobre assuntos de segurança e relações internacionais... não sou um político em tempo integral, e mesmo que fosse não há muito mais que possa fazer por agora. Quando tivermos mais assinaturas e as pessoas começarem a superar o medo... Tento fazer entender que a mudança não é questão de uma pessoa", reitera mais uma vez.

"Os egípcios começaram a perder o medo porque viram que eu fui capaz de falar claramente na televisão e de ver a relação entre a situação política e a falta de desenvolvimento econômico e social. Perceberam que há mais opções do que o autoritarismo ou Bin Laden. O difícil agora é conseguir que, depois de dizer "eu o apoio, vamos tirar uma foto juntos", deem um passo à frente e assinem a petição, então poderei me apresentar diante do governo e dizer que falo pela maioria dos egípcios. Neste momento não posso fazer isso", concluiu.

Se conseguir esse apoio, El Baradei será candidato à presidência? "Só se cumprirem as sete condições da petição e se a população me quiser. Não estou especialmente interessado em dirigir o país, mas se a população me pedir não a deixarei no buraco."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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