Brasil não pediu ao Irã garantias suficientes para acordo nuclear, diz FHC ao El País

Fernando Gualdoni

Em Madri (Espanha)

  • Rodrigo Capote/ Folha Imagem

    O ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso durante palestra em São Paulo

    O ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso durante palestra em São Paulo

O ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso (nascido no Rio de Janeiro em 1931) é pausado, reflexivo, tranquilo. Desfia as ideias com a clareza e a fluidez que lhe deram seus anos de parlamentar, diplomata, professor e dois mandatos à frente do governo do gigante sul-americano (1995-2003). Sua etapa e a de seu sucessor, Lula da Silva, que acaba este ano, transformaram o Brasil em uma potência econômica e política. Foram 15 anos em que o país viveu a maior transformação desde a Segunda Guerra Mundial.

El País: Que imagem o Brasil deve projetar para o mundo?
Fernando Henrique Cardoso:
O Brasil terá cada vez mais influência, não há dúvida. Mas não precisa de armas atômicas nem de um PIB espetacular para ser respeitado, e sim de uma ação internacional que tenha um conteúdo determinante, não somente impositivo. Devemos ampliar a influência segundo nossos valores, que são a paz e a democracia. Esse é o critério que creio que Lula deve deixar mais claro. Somos um país de paz e democrático, e são esses valores que nos garantirão um lugar mais importante.

El País: Qual a sua opinião sobre a atuação brasileira na crise iraniana?
FHC:
Creio que Lula deveria ter pedido ao Irã a garantia de que o desenvolvimento de seu plano nuclear será para a paz. O Brasil é favorável ao controle por parte dos países do ciclo de produção de urânio. Estou de acordo com isso, o Brasil o controla. Temos um acordo com a Argentina de vigilância mútua referendado pela ONU, e graças a isso desenvolvemos nossa própria tecnologia. Nunca ninguém suspeitou que nosso programa atômico fosse para a guerra. Não só porque a Constituição brasileira proíbe ter a bomba atômica, como porque nos submetemos a regras. O Brasil deveria exigir o mesmo do Irã. Insisto, não critico o gesto do Brasil, mas a insuficiência do gesto, porque não pediu ao Irã as garantias suficientes.

El País: Como o senhor vê a política do Brasil para Cuba?
FHC:
Lula se equivocou ao não se solidarizar com um preso político (o presidente brasileiro chegou a Havana horas depois da morte do dissidente Orlando Zapata em 23 de fevereiro passado, depois de 85 dias em greve de fome). Ele sabe melhor que ninguém o que nos custou a democracia no Brasil. Foi um momento diplomático crítico, reconheço, mas de não dizer nada a quase justificar essa morte... Isso não pode ser. Sempre tivermos uma relação correta com Cuba. Sempre fomos contra o embargo, mas isso não significa que não se possa dizer que estão enganados. É preciso dizer: Que é isso, companheiro? Creio que nos últimos seis meses Lula agiu mais com o coração do que com a cabeça.

El País: O que o senhor teria feito?
FHC:
O Brasil não pode ser o policial da América Latina, mas sim pode ter um papel pedagógico no que se refere à democracia. É lógico que tenhamos uma posição compreensiva e de não-ingerência, mas à frente sempre estão esses valores de paz e dos direitos civis. A região recuperou o maquinário da democracia, sim, mas não a alma da mesma. Ainda resta muito a fazer para que haja igualdade diante da lei e igualdade de oportunidades.

El País: O senhor e Lula demonstraram ter um caráter conciliador. Mas os dois candidatos favoritos para as eleições de outubro têm fama de duros...
FHC:
José Serra (candidato do Partido da Social-Democracia Brasileira, o de FHC) é um político duro e Dilma Rousseff (a candidata do Partido dos Trabalhadores) creio que mais dura. Conheço menos Dilma, mas Serra sim, foi meu ministro e continuo em contato permanente com ele. É um homem muito determinado, um bom administrador e tem uma grande vocação de serviço público. É também um grande latino-americanista.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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