A morte do Nobel português: Dario Fo lembra José Saramago

Lucia Magi

Em Bolonha (Itália)

  • Arquivo FolhaPress

    Morreu nesta sexta-feira (18) o escritor português José Saramago, vencedor do Prêmio Nobel da Literatura em 1998. Saramago nasceu em 1922, em Azinhaga, aldeia ao sul de Portugal, numa família de camponeses.

    Morreu nesta sexta-feira (18) o escritor português José Saramago, vencedor do Prêmio Nobel da Literatura em 1998. Saramago nasceu em 1922, em Azinhaga, aldeia ao sul de Portugal, numa família de camponeses.

O ganhador do Nobel no ano anterior ao português fala sobre as conversas com seu amigo

"Uma notícia terrível. Ainda não acredito." A voz de Dario Fo chega estranhamente apagada e emocionada pelo telefone. O ator e escritor italiano (nascido em Varese, em 1926), prêmio Nobel de literatura em 1997, está prestes a iniciar mais uma tarde de ensaios em Parma, mas não quer renunciar a lembrar o amigo que acaba de morrer.

"José e eu não éramos só companheiros de trabalho. Éramos amigos de verdade", afirma. "Nos encontrávamos com frequência, com Franca [Rame, parceira sentimental e artística de Fo] e sua mulher, Pilar del Río. Passamos muitos momentos bonitos todos juntos."

Comunista e polemista, Saramago defendeu Cuba e a fusão de Portugal com Espanha

Morto nessa sexta-feira (18), o escritor José Saramago (1922-2010) era também um militante “hormonal” do comunismo e dedicado polemista. Entre seus argumentos, o prêmio Nobel de Literatura defendia que a ditadura dos irmãos Castro em Cuba é um dos mais solidários regimes do mundo e que Portugal deveria entregar-se à Espanha para fundar uma nova nação chamada Ibéria.

A última vez foi há dois anos em Granada, por ocasião de um prêmio concedido a ambos e que de comum acordo devolveram à ilha do Ferro, nas Canárias, para que a administração local procedesse com seu projeto de torná-la 100% eco-sustentável. "Ele veio à Itália apresentar seu último livro no ano passado, mas eu não estava e por isso não voltei a vê-lo nunca mais."

A nostalgia se desata com as recordações das muitas conversas telefônicas. "Falávamos com frequência e de tudo um pouco. Posso jurar que com ele conseguia não falar de literatura", a voz deixa imaginar um sorriso. Berlusconi ("e sua torpe censura"), política, os desfalques dos bancos e o naufrágio da economia ("que sempre acaba pesando sobre as costas dos pobres"), o meio ambiente, eram alguns temas das conversas entre os dois prêmios Nobel.

No entanto, para saudar o amigo português, Dario Fo recorre à literatura. E exatamente ao autor do Renascimento italiano Ruzzante Beolco, que é um de seus grandes inspiradores, junto com Molière. Um ator e escritor do qual os intelectuais contemporâneos zombavam porque levava ao palco o cotidiano, as misérias e alegrias das pessoas comuns, a hipocrisia e a arrogância fátua do poder.

"Ruzzante diz que sempre chega o momento em que você tenta fechar as contas de sua vida. O que lhe dá a medida de como viveu é o que vai faltar para o mundo quando você não estiver mais. Hoje que José não está me falta tudo, me arrancaram um pedaço de vida, um amigo que nunca se rendeu, que sempre se manteve íntegro e de pé no meio da batalha."

Tradutor: <I> Luiz Roberto Mendes Gonçalves </i>

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