"Por trás de cada limpeza étnica há um poeta"

Francesc Arroyo

Em Barcelona (Espanha)

"Há uma poesia que atua como fundamento das pátrias e sem a qual não poderíamos entender o ódio", afirma o pensador Slavoj Zizek (nascido em Lubliana, Eslovênia, em 1949). Por isso, propõe: "Precisamos controlar a poesia, atrás de cada limpeza étnica há um poeta".

Na segunda-feira (14) ele deu uma conferência em Barcelona na qual refletiu, como em seu último livro, "Sobre a Violência", sobre o mal, as perspectivas do capitalismo, o naufrágio dos projetos coletivos depois do desaparecimento do mundo soviético.

Embora ele se reconheça como esquerdista, afirma que fala "sem nostalgia" porque "o socialismo de Estado tinha de morrer; na realidade, quando se certificou sua morte estava morto havia anos, sem o saber". E o explica com uma imagem tirada dos filmes de Tom e Jerry: "O gato corre, a terra se acaba e ele continua correndo no ar. Até que olha para baixo e vê o que faz no vazio. E cai exatamente por ter olhado".

Ele se confessa pessimista em longo prazo. "O futuro da democracia é Berlusconi", afirma, mordaz. "Um governante que constrói um Estado cada vez mais autoritário e que distrai as pessoas de vez em quando com escândalos, como quando o acusam de ser impotente e ele se oferece para demonstrar diante de qualquer tribunal que não é. Como pretendia fazê-lo?". Berlusconi, sugere Zizek, se encontra na metade do caminho entre Ubu Rei e Grouxo Marx, mas, "de modo inteligente" indica o futuro de um capitalismo "autoritário". Como na China.

"Não é nada seguro que o desenvolvimento do capitalismo ponha em ação os desejos da democracia. O capitalismo asiático funciona sem democracia e não tem problemas."

A queda do Muro de Berlim afundou o socialismo de Estado, certo tipo de sociedades autoritárias, mas acabou por liquidar o resto da esquerda europeia. "A social-democracia ria pensando que desaparecia um adversário." Grave erro. Porque o que resta agora são "partidos de direita, de centro-direita e de centro-esquerda", todos eles dedicados a "administrar o capitalismo, a torná-lo eficiente". E o rechaço a essas posições só se aprecia em "forças fundamentalistas, nacionalistas e anti-imigrantes". "Zapatero na Espanha, Obama nos EUA, supostos governantes de esquerda obrigados a tranquilizar os mercados."

Os governos de esquerda têm todos a mesma evolução: provocam no início certo entusiasmo, a convicção de que algo mudará; o capitalismo lhes permite legalizar o aborto, os casamentos homossexuais, nunca as regras do mercado. A solução para isso só pode vir, defende o filósofo com entusiasmo, "da esquerda radical, caso contrário a centro-esquerda terá de acabar pactuando com os fundamentalistas".

No presente, o que domina é a pós-ideologia, a pós-política. Há 20 anos, quando Francis Fukuyama anunciou o fim da história, foi considerado equivocado. "Mas ele venceu. Não há um só parlamentar na Europa que pense em outros termos do que o parlamentarismo liberal", conta Zizek, que não faz muito tempo se encontrou com Fukuyama e soube por este que já não crê em sua tese sobre o fim da história.

Apareceram elementos que modificam tudo, ele disse: "A biogenética e a crise ecológica". A biogenética permitirá em médio prazo atuar sobre os indivíduos, e isso "não se pode deixar nas mãos do mercado". Mas cuidado, porque se alguém vê uma luz no fim do túnel provavelmente é outro trem que viaja em direção contrária.

Enquanto isso, o que resta aos filósofos é explicar e explicar. E afastar-se do liberalismo eurocentrista. Zizek, que muitas vezes parte de anedotas, romances e filmes para deixar claro a que se refere, conta que Terry Eagleton lhe contou que o historiador Osborne foi dar uma conferência para operários e começou dizendo que o que ia lhes dizer devia ser relativizado, que era seu ponto de vista, que ele não sabia mais que seus ouvintes. E um dos assistentes retrucou: "Então vá embora, você é pago por saber mais que nós e para nos contar".

O filósofo deve transmitir conhecimentos aos demais, convidá-los a pensar o presente de forma crítica. Começando pelo uso da linguagem contaminada de violência até em seus termos aparentemente mais pacíficos. Por exemplo, "tolerância". Zizek convida a revisar os discursos de Martin Luther King ou do feminismo contemporâneo: "Não há pedidos de tolerância. King não pretendia que os brancos tolerassem os negros, nem as feministas querem ser toleradas. Reclamam igualdade, questionam o que existe", o que é algo muito diferente.

E indica a ironia de que sua intervenção ocorra em um centro de arte (Santa Mónica, em Barcelona), e não na universidade. "É cada vez mais frequente." Zizek termina sua entrevista convidando o jornalista a utilizar suas palavras: "Manipule-me orwellianamente, está autorizado. Surpreenda-me mostrando o que eu disse". Está feito.

Tradutor: <I> Luiz Roberto Mendes Gonçalves </i>

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