Alimentos importados pela Venezuela apodrecem nos portos do país

Maye Primera

Em Puerto Cabello (Venezuela)

  • Sérgio Lima/Folha Imagem

    Hugo Chávez, presidente venezuelano

    Hugo Chávez, presidente venezuelano

Mais de 100 mil toneladas de alimentos importados pelo governo para os mercados socialistas se decompõem em um porto

"Fedia como cem cachorros mortos", diz Dayana Reyes, certa de que não exagerou o suficiente. O cheiro que chegava a sua casa em Puerto Cabello era o de milhares de toneladas de carne podre. Este ano, no estado de Carabobo, onde se encontra o segundo maior porto da Venezuela, foram localizadas 103.802 toneladas de alimentos putrefatos que o governo de Hugo Chávez importou e abandonou dentro de contêineres em cais e armazéns. São milhões de quilos de comida que deveriam ser vendidos por baixos preços na rede de mercados socialistas do Estado.

Os moradores da paróquia de La Fraternidad, que têm no horizonte montanhas de contêineres que aparecem por trás dos muros do porto, foram os primeiros a sentir que havia algo de podre nas importações oficiais. Em abril de 2009 foram informados de que o odor provinha de 50 contêineres com alimentos da Produtora e Distribuidora Venezuelana de Alimentos (PDVAL), filial da estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA). Mas a notícia só se transformou em um escândalo nacional há poucas semanas, quando começaram a aparecer centenas de lotes de contêineres carregados de comida decomposta.

E no último dia 15 o governo da República Dominicana devolveu à Venezuela um navio carregado com 60 contêineres com latas de atum, leite e massas vencidas, que haviam sido enviado pelo governo de Chávez como ajuda humanitária ao Haiti.

O assunto é grave, disse o presidente-comandante, mas não representativo demais. "Estas toneladas são bastantes. Não quero minimizar em nada sua gravidade, mas não representam nem 1% do imenso caudal de alimentos que agora chega a vocês (população) graças à Mercal e à PDVAL", disse Chávez no último dia 3, quando saiu em defesa do presidente da PDVSA e ministro da Energia, Rafael Ramírez.

Para Chávez, "a oligarquia" exagerou o caso para desprestigiar a "luta pela soberania alimentar da população". Há sete anos Chávez tenta se encarregar da produção, distribuição e comercialização de alimentos para proteger-se da "sabotagem" do setor privado. Em 2003 começou por criar a empresa Mercados de Alimentos (Mercal), que instalou postos de venda de comida por baixo preço em todo o país.

Em janeiro de 2008, Chávez ordenou à administração da PDVSA que garantisse a "soberania alimentar" do país e criou a PDVAL como apêndice da petrolífera, que se encarrega desde as compras no estrangeiro até a venda de comida nos mercados socialistas. Mais de 70% dos alimentos consumidos na Venezuela são importados, e boa parte dessas compras são feitas diretamente pelo governo nos EUA, Brasil, Argentina, Uruguai e Equador, utilizando para isso uma taxa de câmbio preferencial do dólar, em meio ao férreo controle do câmbio que funciona desde 2003. Agora a revolução reconhece timidamente que deveria ter encarregado disso o Ministério da Alimentação e não a companhia de petróleo, e que talvez por sua pouca experiência a comida tenha apodrecido.

Outro tanto de responsabilidade corresponde à administração dos portos, que foram nacionalizados em 2009 e postos a cargo da Empresa Bolivariana de Portos, 51% venezuelana e 49% cubana. Os trabalhadores das docas, que pediram o resguardo de sua identidade por medo de ser demitidos, afirmam que Puerto Cabello funciona a meio vapor desde que foi estatizado. "Por pura burocracia, a mercadoria demora entre um e três meses para sair do porto", diz um deles. Na demora há um grande negócio: o aluguel de cada contêiner custa ao Estado cerca de US$ 150, que multiplicados por milhares e até por um ano somam muito dinheiro. Para suportar a espera, os contêineres refrigerados que transportam frango e carne precisam de eletricidade, mas durante duas horas por dia ficavam sem energia, expostos ao sol, por causa do racionamento que foi aplicado até algumas semanas atrás na Venezuela.

Em meio à polêmica pelas toneladas de frangos podres, neste sábado de manhã Carmen fez fila durante duas horas diante de um mercado da PDVAL para comprar um em bom estado. Tem 48 anos, parece ter 55, trabalha limpando casas alheias e ganha cerca de US$ 300 por mês. O frango lhe custou US$ 1,50, mais barato que os vendidos por US$ 2 nos supermercados privados. "Mas só vendem um por pessoa. Por isso trago um de meus filhos para fazer as compras, para poder comprar dois", diz. Na Venezuela não há cadernetas de racionamento, como em Cuba, mas racionamento simplesmente.

É culpa dos "ricaços", das empresas privadas, que o país atravesse há três anos períodos de escassez de farinha, leite, carne, frango, manteiga e arroz, e que a inflação acumulada este ano já seja de 14,2%, diz o governo. Por isso nos últimos dois anos a revolução desapropriou ou interveio em 76 empresas e propriedades ligadas ao setor alimentício. Entre as companhias afetadas contam-se grandes processadoras de cereais, café e tomate, como Molinos Nacionales (Monaca), Cargill e Heinz, e redes de hipermercados como as colombiano-francesas Éxito e Cada. A maior empresa venezuelana do setor, a Alimentos Polar, é a próxima na mira de Chávez. O presidente-comandante a acusa de armazenar alimentos e de liderar a greve que paralisou o país entre dezembro de 2003 e fevereiro de 2004.

"Lorenzo-Mendoza, se você pensa que não sou capaz de nacionalizar a Polar, não se engane", desafiou Chávez ao dono da companhia em 3 de junho. As empresas Polar foram fundadas há 70 anos, empregam cerca de 30 mil trabalhadores e têm 30 fábricas industriais e mais de 150 mil pontos de venda, segundo dados da companhia. Em março o governo desapropriou algumas de suas propriedades na cidade de Barquisimeto, no centro do país. Dois meses depois a Guarda Nacional apreendeu 120 toneladas de alimentos dos depósitos e imediatamente Chávez pediu à promotoria para abrir um processo contra a empresa, pelo delito de "especulação" por jogar descaradamente com a fome da população.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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