"O sucesso de Lula também é o meu", diz Dilma Rousseff

Fernando Gualdoni

Madri (Espanha)

  • Andre Kosters/EFE

    Em visitas à Europa, Dilma Rousseff se reúne com o primeiro-ministro de Portugal, em Lisboa

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Dilma Rousseff (nascida em Belo Horizonte em 1947) está diante do maior desafio de sua vida: transformar-se na primeira mulher a governar o Brasil. É a protegida do presidente Lula da Silva, e ele nunca duvidou de que ela deveria ser sua sucessora no cargo, apesar de a atual ministra da Casa Civil (chefe de Gabinete) nunca ter concorrido nas urnas por um cargo público.

Lula não titubeou nem quando se levantaram algumas vozes dentro do Partido dos Trabalhadores (PT) contra a candidatura de Rousseff - já que ela não é uma baronesa do partido -, nem quando ela teve de ser operada no ano passado para extirpar um tumor linfático.

Rousseff tem um passado de militância ativa e de luta contra a ditadura que o Brasil viveu entre 1964 e 1985. A candidata do PT esteve diretamente envolvida na luta armada contra os militares, até que em 1970 foi detida e enviada por três anos a uma prisão, onde sofreu torturas. Era conhecida como a Joana D'Arc do movimento guerrilheiro Vanguarda Armada Revolucionária Palmares, um dos mais importantes da época. Já no final dos anos 70 contraiu matrimônio com outro integrante da guerrilha, Carlos Franklin Paixão de Araújo, com quem teve sua única filha, e se estabeleceu no Rio Grande do Sul. Ali formou-se em ciências econômicas em 1977 e começou sua carreira política, primeiro no Partido Democrático Trabalhista e, desde 1999, no PT.

Rousseff esteve em Madri na sexta-feira passada durante algumas horas. E, por ser quem é, vale destacar que chegou com uma comitiva modesta e se hospedou em um hotel também modesto. Tem fama de dura, mas isso é impossível de confirmar em uma única entrevista. Sim, pode-se dizer que é enérgica, que parece muito segura de si e que não gosta de ser interrompida.

El País: Se a senhora ganhar, seguirá o modelo político de Lula?

Dilma Rousseff: Vou continuar o modelo de Lula, mas com coração e alma de mulher. Não para repetir, mas para progredir. Para mim, a mulher tem uma grande capacidade de cuidar e ao mesmo tempo de estimular. É claro que o homem também pode ser cuidadoso, mas o olhar feminino é diferente. O programa de assistência Bolsa Família [as famílias recebem dinheiro em troca de que as crianças vão à escola e se vacinem], por exemplo, é administrado pela mãe. Em primeiro lugar porque ela tem um papel chave na coesão da família. E em segundo porque... Por acaso você conhece uma mãe que, se lhe derem dinheiro, não o destinará ao bem-estar de seus filhos? Difícil, não? No Brasil, uma das maiores tarefas pendentes é a recomposição dos laços. Melhorar a situação econômica não basta, também é preciso reconstruir a família, porque é chave para melhorar a educação, combater a criminalidade... Definitivamente, para crescer como sociedade. Esta recomposição dos laços familiares deve ser colocada no centro da agenda política. E não é tarefa para um mandato, mas de muitos anos de trabalho... No Brasil, privilegiar a mulher não é uma política de gênero, é uma política social: 30% das famílias brasileiras são encabeçadas por mulheres; 52% da população somos mulheres e os 48% restantes são nossos filhos. Não se trata de criar um matriarcado, mas de dar à mulher a importância que tem para a estrutura familiar. Lula tem muita sensibilidade para esse tema, ele foi criado por uma mulher forte.

El País: A senhora não teme que a sombra de Lula prejudique sua carreira?

Rousseff: Sou a ministra da Casa Civil. Sou quem coordena os ministros e os principais projetos de governo. Trabalhei intimamente com o presidente Lula nos últimos cinco anos e meio. O sucesso dele é o meu. Fui seu braço-direito e esquerdo. Ele não será ministro se eu chegar ao governo, mas sempre estarei aberta a suas propostas. Temos uma relação muito forte.

El País: Esta é a primeira vez que concorre a um cargo eletivo. Como se sente? Como está sua saúde?

Rousseff: A pressão é a mesma que quando se está dentro do governo, talvez inclusive menor, porque quando se governa é preciso dar respostas todos os dias. O processo eleitoral é diferente... Há discussões, debates, viagens... Mas me permite estar mais perto das pessoas. E o povo brasileiro é muito alegre, muito sensível... Gosto muito, de verdade. E de saúde me sinto muito bem.

El País: Se a senhora governar, como vai conjugar as políticas de crescimento econômico com a proteção do meio ambiente?

Rousseff: No Brasil, 87% da energia elétrica procedem das usinas hidrelétricas, quer dizer, são renováveis. Acrescento a isto que a energia eólica está aumentando significativamente. Nosso parque automobilístico, por outro lado, utiliza o etanol, um combustível que não é fóssil. Se você me perguntar se é preciso cortar árvores para produzir mais cana-de-açúcar, digo-lhe que não. O Brasil tem uma das tecnologias agrícolas mais importantes do mundo, e as pesquisas para produzir mais em menos território avançam. Não é verdade que seja necessária mais terra para produzir mais. O que se necessita é uma melhor tecnologia para aproveitar melhor os terrenos de cultivo. Isto é o que fazemos no Brasil. E permita-me lhe dizer que a Amazônia não só está protegida por lei como também não é um terreno fértil para cultivo.

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Rousseff: A diferença mais importante é que sabemos como construir as condições para o crescimento sustentável. Crescemos ao mesmo tempo que distribuímos a riqueza. No Brasil hoje há mobilidade social, as pessoas sabem que amanhã estarão melhor: 24 milhões de brasileiros deixaram para trás a pobreza e outros 31 milhões ascenderam socialmente. Mas resta muito a fazer, ainda há 50 milhões de pessoas que ganham abaixo do salário mínimo. Temos de investir muito na educação de qualidade, porque isso nos permitirá estimular o emprego formal. Este ano serão criados 2 milhões de empregos desse tipo.

El País: Quais serão as linhas mestras de sua política externa?

Rousseff: O Brasil sempre teve uma política externa enfocada em poucos países. Os grandes sucessos destes últimos anos foram o avanço do multilateralismo e que o país tomou consciência de sua importância dentro da América Latina. Nos tratamos com respeito e sem ingerências em políticas internas. Não somos imperialistas. Promovemos a cooperação entre os países, e não políticas de imposição. Não podemos ser ricos rodeados de pobres, por isso o impulso às infraestruturas regionais é vital para nós. É muito importante também a relação com a África e com os BRICs (Rússia, Índia, China e África do Sul). O Irã tem o direito de desenvolver um programa nuclear para uso civil, e submeter o programa com a maior transparência ao controle dos organismos internacionais é a melhor política. Mas não creio que esse conflito deva ser resolvido com sanções, e sim com diálogo. É preciso construir portas, e não levantar muros.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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