Obama e Medvedev trocam o telefone vermelho pelo Twitter

Antônio Caño

Em Washington (EUA)

  • Ria-Novosti/Kremlin/Dmitry Astakhov/AFP

    Dmitry Medvedev, presidente da Rússia, ganha iPhone 4 das mãos de Steve Jobs, diretor-executivo da Apple

    Dmitry Medvedev, presidente da Rússia, ganha iPhone 4 das mãos de Steve Jobs, diretor-executivo da Apple

Adeus ao telefone vermelho. Barack Obama e Dmitri Medvedev decidiram substituí-lo pelo Twitter. O antigo instrumento, meio realidade e meio ficção, que conectava diretamente a Casa Branca ao Kremlin nos sombrios anos da Guerra Fria para conter "in extremis" a eclosão de um conflito, deu lugar ao muito mais festivo e transparente novo meio de comunicação descoberto pelo presidente russo em seu giro pelo Vale do Silício, na Califórnia.

Medvedev se interessou pelos segredos do iPad, do iPhone 4 e outros instrumentos surgidos da criatividade da Apple, reuniu-se com cérebros da Universidade Stanford, conheceu peculiaridades do modelo empresarial da Google em Cupertino e aproveitou sua visita ao Twitter para abrir sua nova conta @KremlinRussia. Obama, que tem a sua faz tempo, o convidou a usar a partir de agora esse sistema para aprofundar sua relação.

Medvedev discutiu com Obama e seus principais assessores assuntos relevantes da atualidade internacional, é claro. Mas o interesse despertado por sua estreia no Twitter, além de uma prova da influência alcançada pelas redes sociais e os novos veículos de comunicação, é um indício de que, no que diz respeito à política, as relações entre EUA e Rússia estão uma seda. "Fizemos progressos que teriam sido impensáveis há apenas 17 meses" (quando Obama assumiu cargo), disse o presidente americano.

Desaparecido o escudo antimísseis europeu, assinado o novo tratado Start para redução de armas atômicas, aprovadas as sanções ao Irã e coordenados os esforços diante de outras crises, como a da Coreia do Norte, Obama e Medvedev certificaram ontem a amizade que os une - o êxito da "reprogramação", como se decidiu chamar esse processo - e sua vontade de estender essa colaboração às iminentes reuniões do G8 e do G20, que começam hoje em Toronto (Canadá).

Tais são a cordialidade e a simplicidade de sua agenda, que os líderes tiveram tempo de sair da Casa Branca para ir comer hambúrgueres na lanchonete preferida de Obama, um modesto lugar chamado Ray's Hell, que está lotado desde que se soube da predileção do presidente. Dividiram o pacote de batatas fritas. Obama pagou. À falta de discrepâncias políticas identificáveis, tanto Obama quanto Medvedev quiseram destacar as enormes possibilidades futuras que podem ter as relações russo-americanas em outros campos.

"As relações entre nossos dois países não podem ficar nos assuntos da Guerra Fria", disse o presidente americano. "Não podem se reduzir ao tema do controle de armamentos, devem se ampliar ao comércio, ao intercâmbio, à promoção de energias limpas, aos assuntos que permitam maior prosperidade."

A visita de Medvedev à Califórnia não é motivada só pela curiosidade de conhecer de perto as novas engenhocas que cativam o mundo. O presidente russo está pessoalmente interessado em desenvolver a indústria tecnológica em seu país e está promovendo uma versão russa do Vale do Silício, um projeto na cidade de Skolkovo para o qual busca assessoria e dinheiro dos grandes gigantes tecnológicos americanos. No conselho de assessores de Skolkovo estão, entre empresários e pesquisadores russos, o conselheiro delegado da Google, Eric Schmidt, e o presidente da Cisco Systems, John Chambers, que aproveitou a visita de Medvedev para anunciar o investimento de US$ 1 bilhão na Rússia.

Medvedev e Obama falaram na quinta-feira sobre esses e outros potenciais mercados com membros das câmaras de comércio dos dois países. As possibilidades são de fato gigantescas, mas também as dificuldades. Os investidores americanos sabem que o Estado mantém uma forte conexão com os negócios na Rússia e que nem sempre garante a segurança jurídica e a liberdade de movimentos que são requisitos do sucesso empresarial. "Há coisas que devem mudar no âmbito dos negócios", reconheceu Medvedev.

Esse será, com grande probabilidade, um tema de atrito no futuro. Mas, apesar de toda a cordialidade, há outras discrepâncias neste momento. Obama admitiu que a Geórgia, país que a Rússia invadiu há dois anos, é um deles. O comércio é outro. Os EUA se queixam dos padrões comerciais impostos pelo governo russo, que bloqueavam, por exemplo, a importação de frangos americanos. Na quinta-feira houve avanços nesse terreno e Obama disse que apoiaria a entrada da Rússia na Organização Mundial do Comércio.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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