Pobreza, capangas e maconha: "El País" penetra nas terras da guerrilha do Paraguai

Soledad Gallego-Díaz

Em Concepción (Paraguai)

  • Andrés Cristaldo/EFE

    Suspeito de pertencer ao EPP é assinalado em cartaz com procurados pela polícia paraguaia

    Suspeito de pertencer ao EPP é assinalado em cartaz com procurados pela polícia paraguaia

No norte do Paraguai, no departamento de Concepción, a terra é vermelha e ampla, com belos e péssimos caminhos, salpicados de cupinzeiros e algumas manchas de florestas verdes e espessas. E, sobretudo, com enormes fazendas, mais de um milhão de cabeças de gado e dezenas de milhares de hectares, nos quais ninguém sabe muito bem qual a lei que vale: a do Estado ou a do fazendeiro.

Por aqui, em uma dessas matas, o pecuarista Fidel Zavala passou 93 dias acorrentado a uma rede e coberto por uma lona, até que em janeiro passado seus parentes pagaram US$ 500 mil de resgate, atirados em duas sacolas de um pequeno avião, em um ponto determinado por GPS. Aqui em Tacuatí também foi sequestrado em julho de 2008 o pecuarista Luis Lindstron, que pagou US$ 400 mil para recuperar a liberdade. Em Hugua Ñandú, a poucos quilômetros, atacaram e incendiaram a precária delegacia local, e dois policiais ficaram feridos.

Supõe-se que esta seja a terra por onde se movimenta o pequeno Exército do Povo Paraguaio (EPP), cerca de 20 homens e mulheres que constituem a guerrilha menos conhecida da América Latina.

Mas sobretudo é a terra onde uma única empresa, a Comercial e Imobiliária Paraguaia Argentina, Cipasa, chegou a ter, até pouco tempo atrás, mais de 400 mil hectares de terras, com 300 quilômetros de frente cercada.

Nada estranho no país que sofre certamente a distribuição de terra mais desigual e injusta do mundo e no qual há mais de um século os sucessivos governos presentearam a seus amigos ou venderam o território nacional. A Comissão de Verdade e Justiça, criada com a ajuda da ONU, estima que 64% das cessões realizadas desde 1954 --desde a chegada ao poder do ditador Alfredo Stroessner-- foram ilegais: centenas de milhares de hectares de terras invadidos e dezenas de milhares de agricultores despojados e maltratados.

O esforço para devolver a normalidade ao Paraguai, um país que o escritor e jornalista espanhol Rafael Barrett chegou a comparar, no início do século 20, com o Congo, por seu pavoroso histórico de "escravidão, tormento e assassinato" ("El Dolor Paraguayo" e "Lo que son los yerbales", ed. Capital Intelectual, 2010), é muito recente e precário. Começa praticamente com a eleição de Fernando Lugo para presidente, em 2008, porque se é verdade que a ditadura de Alfredo Stroessner acabou em 1989 os primeiros anos de democracia não mudaram em nada a situação.

O ex-presidente Andrés Rodríguez, por exemplo, que expulsou Stroessner quando este fechou sua firma de câmbio, já tinha se apossado de milhares de hectares e aproveitou o cargo para se apoderar de outros 2 mil. Foi o primeiro presidente democrático, para dizer algo, mas segundo o governo dos EUA o general Rodríguez também era o chefe do chamado Cartel do Paraguai, encarregado, como o próprio Stroessner, de proteger os bandos de traficantes de maconha e as fabulosas redes de contrabando que operavam e operam no país.

Ciudad del Este, na chamada "tríplice fronteira", é o olho do furacão de todo esse contrabando. Nasceu como cidade em 1957, no Alto Paraná, de frente para Iguaçu, Argentina e Brasil, e além de apresentar uma incrível grama de enormes armazéns e supermercados é o lugar de encontro de agentes de espionagem de meio mundo, representantes de vendedores de armas e traficantes de drogas, contrabandistas de objetos e de informação, que se movem como peixes na água no flexível território paraguaio.

Ali os americanos conseguiram capturar no último 15 de junho um dos supostos financistas do Hizbollah, Moussa Ali Handan, um libanês que agora espera sua imediata extradição. E ali se anunciou na quarta-feira, 16, que haverá um voo cargueiro direto a cada dez dias entre Ciudad del Este e Xangai. "Puro comércio informático-eletrônico", afirmam seus promotores, "que movimenta cerca de US$ 2,5 bilhões por ano só nesta cidade."

Nada a ver com Concepción, San Pedro ou Amambay, os departamentos agrícolas do norte do país, onde se vive completamente à margem desse outro Paraguai e onde ninguém se importa muito com o que acontece. Aqui não há estradas nem supermercados, apenas caminhos de terra, superfícies desabitadas e enormes extensões de pasto que pertencem a algumas poucas fazendas de gado, em sua maioria propriedade de latifundiários de empresas brasileiras, como a famosa Mate Laranjeira, que nunca foi conhecida por sua submissão a outra lei que não a sua própria.

Em boa parte dessas fazendas, os poucos peões necessários para a faina vivem ali mesmo, às vezes com suas famílias, reunidos em pequenos grupos junto à casa do capataz e talvez na casa grande, quase sempre vazia, que o dono mandou construir. Dão-lhes comida, combustível, abrigo, "um pequeno salário" e horários muito restritos: inclusive no domingo, quando aproveitam para visitar vizinhos ou formar a torcida de um pequeno time de futebol local, têm de voltar a cruzar a cerca antes que anoiteça.

Também moram ali, para sua tristeza, e bem longe dos currais onde se cuidam das novilhas, pequenas comunidades indígenas que ficaram congeladas no meio das enormes fazendas e que sobrevivem em choças de madeira e palha sem a menor assistência nem ajuda.

Lirio Benítez é o dirigente de uma dessas comunidades, enterrada na fazenda Agüerito. Identifica-se como pertencente à etnia pai tavyterá e veio ao nosso encontro quando entramos em seu território, atravessando a duras penas um caminho infame, o pior da fazenda, onde residem as 48 famílias de seu grupo. Afirma que esse pedaço de terreno encharcado se chama Hegua Hatý e que é dele há mais de 60 anos. Está aborrecido porque cortou no morro próximo algumas árvores, que agora as autoridades o proíbem de vender. Para culminar, diz que os fazendeiros, que querem que corte e venda madeira para abrir pastos, suprimiram os 15 quilos de comida por família que lhes entregavam por mês, certamente para que pressionem mais os órgãos oficiais e consigam acabar com a mata. "Com esses 15 quilos não chegamos a comer nem 15 dias", diz, magra e firme, sua mulher, Rosa.

Os indígenas não se mostram nada incomodados com a presença dos três jovens policiais que nos acompanham. Todos falam guarani entre si e brincam. Manuel, com seu fuzil M-14 de boca para baixo e um pesado colete à prova de balas, que o faz suar muito, tem apenas 23 anos e observa tranquilamente este diálogo, em castelhano, com um dos filhos de Lirio, Anastasio, 39 anos.

- Acredita que o EPP será de alguma ajuda para vocês?

- O EPP é uma ajuda. Ninguém faz isso. Ninguém presta atenção em nós. Eles ajudam.

- Os guerrilheiros passaram por aqui alguma vez?

- Eu não os vi.

Durante o sequestro de Lindstron, o EPP exigiu que a família entregasse dez cabeças de gado para determinadas etnias indígenas e que distribuísse cortes de carne em alguns bairros pobres de Assunção. Uma etnia se negou a receber o gado, alguns dizem que por medo das represálias dos fazendeiros e outros porque seus dirigentes estão cansados de que outros os utilizem para seus fins.

Aqui no norte seria difícil os indígenas rejeitarem as vacas. Sua pobreza extrema e total abandono transformam o território na zona quente do EPP, o terreno em que o comandante Alexander, cujo verdadeiro nome é Osvaldo Villalba Ayala, um jovem de cerca de 30 anos que vem de organizações sociais de raiz católica, pode se esconder e planejar novas ações e sequestros de proprietários de terras. Por ele e por sua pequena guerrilha, os pecuaristas exigem que os militares incursionem por morros e florestas para acossá-los e detê-los. Por ele, o presidente Lugo teve de aceitar um período de estado de exceção de 30 dias, que levou 3 mil soldados ao lugar, mas que não adiantou muito. Osvaldo, a jovem Magna Mez, Manuel Cristaldo Mieres e seus companheiros continuam em liberdade, em algum ponto desta impressionante terra vermelha.

Sobre esse terreno também se trava uma batalha política importante, entre os que querem que o Estado se limite a enviar o exército para procurar os guerrilheiros e os que acreditam que esta é a ocasião para tentar que o Estado se estabeleça em um território do qual esteve quase totalmente ausente até agora, deixando tudo nas mãos dos próprios fazendeiros. Uma batalha que inclusive deu origem a um confronto armado entre forças militares e um destacamento das Forças Operacionais da Polícia Especializada (Fope). Ocorreu em maio passado, quando 350 soldados sob o comando do coronel Ramón Benítez cercaram e atacaram o acampamento das Fope em Hugua Ñandú.

Só o bom-senso do oficial de polícia Derlys González, que, depois de se entrincheirar e trocar alguns tiros, deu ordem a seus homens para render-se, evitou um massacre. "Pergunto-me se o exército queria realmente que acontecesse algo ruim, para colocar em apuros o governo do presidente Lugo. Eu pessoalmente considero essa hipótese", comenta González, que tem 27 anos e está disposto a fazer carreira profissional "em uma polícia profissional".

"Militarizar este departamento não é a solução do problema", afirma Luis Acosta Paniagua, o jovem intendente da cidade de Concepción. Ele pertence ao Partido Liberal, que ajudou o presidente Lugo a chegar ao poder e a tirar o Partido Colorado, depois de 63 anos contínuos no governo. "O EPP surgiu pelo abandono que os governos anteriores fizeram desta região", afirma. "Enquanto não tivermos Estado não haverá nada a fazer."

Acosta, filho de pecuaristas, não compartilha a exigência dos grandes fazendeiros, a sempre perigosa Associação Rural. "Aqui precisamos é de caminhos que não se inundem, de escolas, saúde", afirma com cansaço. Decidiu não voltar a se candidatar, farto de não conseguir nada do que precisa. E o Estado não tem dinheiro para lhe enviar por que o governo de Lugo não consegue obrigar os fazendeiros a pagar impostos sobre as exportações de soja ou de carne, como acontece nos países vizinhos. "Os fazendeiros só querem o exército, e não o Estado", declara, "mas se enganam porque a EPP não poderá ser combatida com militares, mas com a presença do Estado."

Na boca do prefeito, a minúscula guerrilha se transforma em uma ameaça importante e em um argumento a seu favor: "Se o Estado não fizer algo o EPP crescerá". Por que os fazendeiros precisam do exército, se têm seus próprios grupos de segurança, armados e pagos por eles mesmos? "Bem, isso não impediu dois sequestros importantes na região", explica. Os serviços de segurança, dirigidos pelos capatazes, funcionam dentro das fazendas e foram empregados até agora para combater o furto de gado. "Por aqui sempre houve pequenos bandos de criminosos comuns que podem roubar duas ou três cabeças por mês", afirma Miguel Irigoyen, um jornalista local. "E nas fazendas os capatazes e seus capangas sempre estão prontos para matar."

Concepción ferve com milhares de motos de pequena cilindrada que substituíram os cavalos, levando dois, três e até quatro passageiros. "São mais fáceis de guardar e de manter", ri Irigoyen. "E além disso conseguem passar por caminhos que parecem intransitáveis, algo imprescindível nesta área." A cidade tem dois hotéis limpos, o Victoria e o Francés, e muitas lojas e comércios que atendem às fazendas que se sucedem e entrelaçam ao longo de todo o departamento: Agüerito tem mais de 20 mil hectares, mas não é a maior, dizem. Em Hugua Ñandú, a pouco mais de 100 quilômetros da capital, por esses caminhos de terra e lama, há um grupo de casas de peões, um assentamento que se tornou conhecido pela existência de associações camponesas que reclamam a distribuição da terra. Aqui, em pontos próximos como Kurusú de Hierro, Paso Barreto ou Horqueta, oito líderes camponeses foram assassinados por capangas desde 2003, sem que nunca se tenham localizado seus executores, segundo dados do relatório Chokokue realizado pela Comissão de Direitos Humanos do Paraguai (Codehupy).

Foi um momento perigoso, afirma a entidade, porque as associações de agricultores acreditaram que com a queda da ditadura poderiam intensificar suas reivindicações de terra e ocorreram várias ocupações de fazendas. Mas Stroessner havia caído, e não o Partido Colorado, e de 370 ocupações registradas entre 1990 e 2004, quase 360 foram desalojados violentamente, com mais de 7 mil agricultores detidos. Foi quando começaram a proliferar as execuções: 77 homens e mulheres ligados ao movimento camponês foram assassinados nos cinco departamentos do norte. Ninguém até agora foi detido ou condenado por essas mortes.

Na estância de Agüerito, o capataz autoriza por telefone celular que abram a cerca para nós, nos deixem percorrer a fazenda e ver a escola que o governo levantou, relativamente perto do assentamento indígena, para que as crianças recebam instrução. Trata-se de dois edifícios de madeira e amianto. Em um deles, com portas e cadeado, guarda-se o material educacional e o leite que os alunos receberão todos os dias. A escola propriamente dita não tem portas, mas sim piso de cimento, vários bancos escolares e duas lousas nas extremidades do recinto. Na dos "maiores" há deveres programados: "Escrever três orações afirmativas e três negativas". Na dos menores, um cartaz com o alfabeto guarani; 80% dos paraguaios falam essa língua própria, ao mesmo tempo que o espanhol, mas só 24% são capazes de se expressar em guarani, entre eles as crianças dessa etnia.

"Atende a escola um professor que vem de moto todos os dias. Um professor de verdade", explica orgulhoso o peão que nos acompanha. É um esclarecimento importante, porque no Paraguai ainda há centenas de professores "ad honorem", pessoas humildes e de pouca instrução, mas que sabem ler e escrever e que se oferecem para dar aulas, sem salário nem remuneração, em lugares aonde os professores de verdade não chegam nem são esperados.

Aqui mesmo em Agüerito, não longe da escola, foi registrada há algum tempo a presença de um pequeno grupo de homens que percorriam o morro. Segundo o jornal "ABC Color", "ao ver-se cercados, detonaram uma granada para intimidar seus perseguidores, civis e policiais, e empreenderam a fuga".

Em companhia do oficial Jorge Ochipindi, percorremos a chamada Calle 18, um caminho de terra que atravessa outras zonas conflituosas e no qual se instalaram barreiras móveis da polícia, encarregadas de identificar todos os que passam. As poucas caminhonetes que se movimentam pela Calle 18 têm dificuldade com o barro, enquanto as pequenas motos zumbem como os pequenos e famintos mosquitos da região. A presença de Ochipindi não basta para que o capataz da fazenda Guarani nos abra o portão. Dali são os três empregados de segurança (capangas, segundo outras fontes) que foram assassinados pelo EPP em abril passado, exatamente o ataque que deu origem ao estado de exceção. "Está escurecendo e eles têm ordem de não permitir que ninguém atravesse as cercas", explica o policial.

Relativamente perto dali, em Kurusú del Hierro, quando se arrasava um suposto local de depósito de maconha (o Paraguai é um dos maiores produtores do mundo), foi encontrado em agosto de 2009 um manual do EPP. Eram páginas desparelhadas, manuscritas, obra de Alcides Oviedo, marido de Carmen Villalba, e condenado como ela a 18 anos de prisão por sua participação em um sequestro anterior, o de Maria Edith Bordón de Debernardi. O texto, sobre a conveniência de sempre ter alguém sequestrado (técnica atribuída às Farc colombianas) e com instruções sobre como mover-se pela floresta ou como torturar um detido, foi publicado na íntegra pelo jornal conservador "La Nación", com um sucesso formidável e inesperado. Segundo seu diretor, a primeira edição de 7 mil exemplares esgotou, e por isso foi preciso reimprimir o suposto manual guerrilheiro durante dois dias consecutivos, sempre com a mesma recepção.

Provavelmente o pequeno EPP nunca sonhou em ter uma repercussão semelhante. "Com propaganda suficiente, com os dólares que vão acumulando e com a inexistência do Estado em todo o norte do país, o EPP, que hoje é um pequeno grupo criminoso, quase fantasma, poderia se transformar em um embrião de algo sério", lamenta o ministro do Interior, Rafael Filizzola.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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