Al Qaeda tenta formar células na Nigéria, país mais populoso da África

Ignacio Cembrero

Em Madri (Espanha)

O líder da organização no Magreb oferece ajuda a fundamentalistas da Nigéria

A Al Qaeda é "incapaz de ampliar suas redes, está isolada no mundo muçulmano, está asfixiada", afirma Jean-Pierre Filiu, autor de "As Nove Vidas da Al Qaeda", resumindo uma opinião generalizada entre especialistas. Das quatro "pernas" do grupo terrorista (Paquistão, península arábica, Iraque e Magreb), a que atua no Norte da África também está em declínio na Argélia, onde se transformou em vassala de Osama bin Laden em 2007, mas não ao sul, no Sahel.

As "katibas" (células) que operam no deserto arrecadam fundos graças ao contrabando e ao sequestros - dois reféns espanhóis permanecem capturados no norte de Mali há sete meses - e também conseguiram se internacionalizar. Os chefes terroristas continuam sendo argelinos, mas suas tropas são de vários países.

Esse êxito anima o chefe do ramo magrebino da Al Qaeda, o argelino Abdelmalek Droukdel, a tentar expandir-se ainda mais para o sul, no país mais populoso da África, a Nigéria. Sua população alcança 150 milhões de habitantes, a metade deles muçulmana. "Estamos dispostos a ajudar seus filhos a manejar armas e a lhes dar qualquer ajuda - em homens, armas, munições e material - para permitir que eles defendam nosso povo (...) e rechacem os cruzados [cristãos]", declara o autoproclamado emir Droukdel em um apelo intitulado "Aos muçulmanos da Nigéria" divulgado em sites islâmicos.

O chamado é dirigido ao grupo islâmico nigeriano Boko Haram, cujo nome significa em língua hausa "a educação ocidental é pecado". Mais de 300 "taleban africanos", incluindo seu chefe, Mohamed Yusuf, caíram há 11 meses em Maiduguri (nordeste) sob as balas do exército nigeriano, que quase acabou com o grupo.

"Os sobreviventes lançaram então um pedido de ajuda ao emir da Al Qaeda", afirma Fernando Reinares, pesquisador do Real Instituto Elcano, que acredita que eles tomaram a iniciativa e Droukdel lhes respondeu. "O caso é que membros do Boko Haram foram recentemente ao Mali para ser treinados pela Al Qaeda", prossegue Reinares. "Não estamos falando de um grupo de grandes capacidades", acrescenta. "Mas se desenvolve em uma zona em que até agora não havia presença da Al Qaeda, com o perigo que isto representa para os hidrocarbonetos."

O serviço secreto da Argélia vazou em junho uma lista de 108 terroristas que tinham conseguido identificar e que operam no Sahel. Representam entre a metade e um quarto do total, segundo as estimativas. Entre eles há 34 mauritanos, 21 argelinos, 21 malienses e 14 nigerianos.

"É preciso ressaltar que a violência na província nigeriana de Jos se deve a causas locais, e não importadas", explica Filiu. "Mas a oferta de Droukdel alimenta a percepção de que a Nigéria se situa agora nas prioridades da agenda da Al Qaeda."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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