Classificados para as quartas de final da Copa esboçam um mapa de países emergentes

M. Á. Bastenier

  • Richard Heathcote/Getty Images

    Robinho levanta os braços e comemora gol do Brasil

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A noite de terça-feira terminou com a formação de um segundo G8 que expressa um estado do mundo que não desdenha do G8 original. Reunidas na África do Sul, 32 seleções nacionais de futebol foram se eliminando até chegar às oito classificadas para as quartas de final que esboçam um mapa de países emergentes e emergidos; raças e culturas; religiões e filosofias, ainda que somente a Alemanha figure na lista de ambos os Gs. Era impossível que estivessem presentes todos os que são membros, ainda que sejam todos membros os que estão presentes.

O esporte – não somente o futebol, mas especialmente o futebol – é a atividade político-recreativa com mais seguidores da História. É o combate sem sangue, o confronto sem baixas entre grupos nacionais ou locais, e seu léxico, transcrição apaziguada da guerra. Ofensiva, defensiva, ataque, disparo, canhão, bombardeio, cerco, tática, estratégia, são ecos de uma briga sem quartel da qual ninguém sai ferido, mas cujos efeitos colonizam em silêncio as pesquisas para condenar governantes. Angela Merkel e David Cameron, convocados para o G8 dos grandes no fim de semana passado em Toronto, deram uma pausa em seus conchavos toleravelmente estéreis para ver quem entrava no novo conclave. A chanceler alemã sorria em meados de mandato, cheio de contratempos, e o premiê britânico constatava que sua recente vitória eleitoral não estava começando com o pé direito.

Cada um dos oito do G-televisivo integra algum bloco: América Latina, claramente vencedora, com quatro equipes, todo o Mercosul, e a Europa, com três, além de um forasteiro africano. A Alemanha, a Holanda e um dos dois países ibéricos – que até o fechamento deste artigo ainda estava por ser decidido – representam o mundo clássico. O país holandês como um dos polos de invenção do capitalismo, o germânico por seu voraz desenvolvimento industrial, e ambos de estirpe luterano-calvinista, ainda que com densos enclaves de catolicismo. Os dois peninsulares, patrulha histórica do imperialismo na América, África e Ásia, símbolos velhos mas não arruinados da fé e do Império Romano, por causa da queda da Itália e da primogênita da Igreja, são os únicos missi dominici da latinidade. Mas, que horror! Não há anglo-saxões,talvez por conta das guerras no Extremo Oriente; tampouco está representado o mundo grão-eslavo ou a Europa Oriental; o primeiro, em convalescência de uma doença chamada super-potência, e o segundo arruinado de tanto arrumar confusão na União Europeia (UE).

E se a Europa inventou o futebol, a América Latina o transformou em realismo mágico. A Argentina e o Uruguai são figura transplantada, mas original, da Europa mediterrânea, da qual herdaram a tez e a religião, e possivelmente a terra onde o esporte número um possui hoje maior rebote político do mundo; tanto que a presidente Cristina Kirchner, acossada pela oposição de seu próprio partido peronista, encarrega Maradona da vitória; e o veterano novato de Montevidéu – José Mujica – invoca a fúria tupamara pensando na final. O Brasil, a grande potência histórica, é uma Roma sem Cartago, e a Lula – com seus Jogos – , só faltaria conseguir um Mundial. E a surpresa lá atrás, o Paraguai, que apesar de ter uma equipe composta de hispânicos, é a encarnação de uma grande emergência: a dos indígenas, habitualmente representados pelo boliviano Evo Morales.

A classificação, por fim, de Gana, país cristão-muçulmano, de futebol implantado pelo colonialismo britânico, chama a atenção para outra eclosão: a macroeconomia de um continente que ressurge e só precisa que um dia o macro vire micro. Dos quase 7 bilhões de habitantes do planeta, cerca de 400 milhões desejam esse G8, desportivo só na superfície. Cerca de 180 milhões são ocidentais – Europa e parte da América Latina – ; apenas 10 correspondem ao ébano africano; e, no centro geométrico da racialidade, o Brasil, que tem de tudo: negros, brancos, asiáticos – prêmio de consolação para o Japão derrotado na terça-feira – e nativos americanos, que no caso amazônico está verde ainda para competir na cúpula.

Cerca de 300 milhões são católicos batizados, sendo que três quartos deles pertencem ao mundo latino e falam espanhol ou português; os protestantes não chegam a 100 milhões, com o alemão e o holandês como línguas principais, e manchas lusitanas e um tanto hispânicas também, descontinuidade religiosa da América Latina; completam essa teologia futebolística um sucinto islã africano que fala em inglês, para ironia dos ausentes: Oxford e Cambridge, Harvard e Yale.

Uma final entre uma quase remota península do extremo da Europa e a América Latina seria um sonho geopolítico; ainda que nenhum dos competidores figure no G8 das grandes potências.

Tradutor: Lana Lim

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