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"Dunguismo" acaba com o Brasil

José Sámano

Porto Elizabeth (África do Sul)

  • Richard Heathcote/Getty Images

    Observado por Kaká, Felipe Melo tenta levantar Robben no lance da expulsão na Copa

    Observado por Kaká, Felipe Melo tenta levantar Robben no lance da expulsão na Copa

Há 16 anos um vírus se incubou no futebol brasileiro. A seleção Canarinho estava sem ganhar o Mundial desde o México em 1970 e Carlos Alberto Parreira, o treinador da época, decidiu a mutação. O Brasil se europeizou e saiu triunfante em 1994, com Carlos Dunga, um jogador forte, bronco e sem brilho nos pés, como expoente máximo da mudança. A cepa se estendeu e, com Dunga já como técnico, o Brasil sentiu-se imune ao fracasso. Para o trono pela via industrial, sem concessões à arte que havia divinizado Leônidas, Pelé, Garrincha, Jairzinho, Rivelino... inclusive Zico, Falcão e Cerezo, que nunca foram campeões do mundo mas estão gravados na retina de todos os nostálgicos. Na sexta-feira esse Brasil mal preparado também foi repatriado antes do tempo, como a equipe de 1982. à diferença daquela, esta mal fará eco. Quase não se falará do dunguismo, exceto que no Brasil se encontre antídoto. A Holanda, seu carrasco, também não cativa como antes, mas o futebol sempre esteve em dívida com os laranjas. Em Porto Elizabeth cobrou parte dela e nem sequer precisou de uma de suas grandes gerações. Nesta Holanda não há cordão umbilical com os viveiros do Ajax de Michels e Cruyff, nem com o de Van Gaal e Kluivert, e menos ainda com o do Milan de Van Basten e Gullit. A esta Holanda um tanto destemida bastaram duas jogadas um tanto arriscadas para desterrar o pentacampeão, o que retrata mais os de Dunga, que, com tudo a favor, se contiveram à espera de qualquer ocorrência própria. Ou melhor, à espera de que o rival não tivesse nenhuma. Se se deixa o futebol nas mãos dos bingueiros, tudo é possível. Foi caricaturesco que o Brasil caísse por causa de dois graves erros defensivos, supostamente a especialidade de Dunga. No primeiro, depois de uma centralização de Sneijder do escanteio, Julio César e Melo se chocaram e a coroinha deste passará à história. Em 97 partidas nas copas nunca um brasileiro havia feito gol contra. O segundo também foi significativo. Robben bateu um escanteio e houve duas cabeçadas. A de Kuyt e a decisiva do mais baixinho no gramado, Sneijder, ancorado na pequena área de Julio César. é o que dá defender-se em uma floresta com tanta defesa própria. Para cumular, Melo, um desses dunguistas que seu técnico alinha com fórceps, conseguiu mais um título no anedotário da Copa. Desde sexta-feira é o primeiro jogador em 80 anos de torneio que marca um gol e é expulso. Antes que a Holanda avançasse, o Brasil teve a partida a seu favor. Um gol de Robinho, propiciado não só por um bom passe do onipresente Melo, mas também pela falta de aplicação dos centrais holandeses, lhe abriu as portas das semifinais. Prova do deslocamento defensivo da seleção de Van Marwijk - Ooijer se alistou na última hora devido a uma lesão de Mathijsen no aquecimento - é que ao fechamento de Robinho pelo corredor central chegou Robben. A Holanda estava gripada, com a pior versão de Van Persie, com Robben ofuscado por Robben e Sneijder fora de plano. Mas o Brasil gosta de jogar com o cadeado, sempre com cinco escoltas diante de Julio César. No mínimo, se Maicon corre, com três dos quatro defesas e os insistentes (Melo e Silva). Nos melhores momentos dos brasileiros, Kaká, primeiro, e depois Maicon estiveram perto de marcar. O Brasil não é corista. Não há acordeão: os de cima buscam a vida entre eles para que Julio César não se descubra. Nada mudou na Holanda no segundo ato, igualmente pouco fluida, exceto dois gols circunstanciais. Robben, à base de faltas que eram mesmo e outras que não, tirou do sério mais de um brasileiro. Dunga, doutorado nos jogos subterrâneos, retirou Bastos, marcador do extremo do Bayern e que já tinha um cartão, mas manteve seu titã Melo, tão inclinado aos curtos-circuitos. A um gol do empate e com mais de 20 minutos pela frente, o jogador do Juventus pisoteou Robben no solo. O árbitro Nishimura viu e diante do Brasil apareceu um himalaia. Com o sinal de Sneijder, Dunga bem poderia ter retirado um dos dois meias defensivos. Não o fez. Todo risco o paralisa. Expulso Melo, poderia ter retirado um defesa e acabar de peito descoberto. Não o fez. Ao contrário, retirou um goleador, Luis Fabiano. Derrubado o esquema defensivo, não havia outro manual, e Dunga sempre teve dificuldade para improvisar no campo e fora dele. Com o Brasil à beira do precipício, também não esgotou a terceira mudança. Nem sequer ordenou a Lucio ou Juan, seus poderosos centrais, que fizessem de atacantes postiços. O Brasil estava paralisado pelo dunguismo. Huntelaar, tosco, muito tosco, incapaz de resolver duas jogadas de atacante de jardim da infância, prolongou a angústia da Holanda. No final, mais serpentinas para Sneijder e Robben, finalistas da Liga dos Campeões, a uma etapa do último encontro do Mundial. E Kaká, de novo frustrado. Como Cristiano Ronaldo. O futebol não é cotado em Bolsa. Prevalecem outros valores. Alguns encontram atalhos de volta no exílio. Outros, como Dunga, se empenham em incapacitar a escola mais artística que já existiu.

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