Violência transborda na fronteira entre EUA e América Latina

S. Camarena / J. Elías

México / Guatemala

  • Daniel Aguilar/Reuters

    A polícia federal do México prendeu três integrantes da gangue chamada "La Linea" no dia 2 de julho

    A polícia federal do México prendeu três integrantes da gangue chamada "La Linea" no dia 2 de julho

A região é conhecida como Terceiro Mundo, o que no México já diz muito. Fica em Sonora, a 20 km da fronteira com os EUA, entrada para o terrível deserto do Sásabe, cruzamento de imigrantes sem documentos e drogas. Aí nesse Terceiro Mundo amanheceu a segunda metade de 2010 da mesma maneira que terminou a primeira: com uma enxurrada de mortos. Só nesse ponto remoto foram registrados na segunda-feira 21 assassinatos, número que em questão de horas subiu com a morte de uma promotora em Ciudad Juárez, de um chefe da segurança de uma prisão em Guadalajara e com vários homicídios no "estilo narco" em Durango (norte), Jalisco (leste) e Morelos (centro).

E tudo isso ocorria no mesmo dia em que o presidente americano, Barack Obama, anunciava sua disposição a regularizar a situação de 11 milhões de imigrantes sem documentos. A violência transbordada na fronteira sul aumenta a resistência à reforma da imigração nos EUA, diante do temor de que provoque um efeito chamada e anime as redes de tráfico de pessoas. Setenta e cinco por cento dos sem-documentos procedem do México e da América Central, região assolada pelo crime organizado.

Só neste ano a violência ligada ao narcotráfico no México deixou 5.400 mortos (uma média de 30 assassinatos por dia). Essa avalanche faz temer que este ano sejam facilmente superadas as 7.500 mortes violentas registradas em 2009. A guerra contra o narcotráfico que o México vive desde janeiro de 2007 já deixou 25 mil mortos.

Os cartéis estenderam seus tentáculos à América Central, que se transformou em escala obrigatória para a droga que parte da zona andina para os EUA. As atividades das máfias (narcotráfico, lavagem de dinheiro e tráfico de pessoas) e as "maras" (bandos criminosos) provocam a cada ano mais de 14 mil mortes. Segundo o Conselho Nacional de Segurança Pública de El Salvador, o custo econômico da violência representa quase 8% do PIB da região.

No final de junho, as forças policiais do México, América Central e Caribe se reuniram na República Dominicana para reforçar os mecanismos de cooperação e criar um "muro de contenção" contra as atividades criminosas. Mas a tarefa se apresenta difícil.

Na madrugada de 1º de julho, bandos rivais dedicados ao tráfico de seres humanos e drogas se enfrentaram a tiros durante horas em um deserto de Sonora, entre os povoados de Sáric e Tubutama. Os 21 mortos, somados a outros três assassinatos, fazem desta quinta-feira o dia mais sangrento em vários anos nesse estado fronteiriço com os EUA.

Enquanto isso, os criminosos continuavam sua caça a altos funcionários ligados à segurança. Em Guadalajara foi assassinado Marco Antonio Ontiveros, funcionário graduado do sistema penitenciário. E do outro lado do país, em Ciudad Juárez, caiu em uma emboscada Sandra Ivonne Salas García, peça-chave da promotoria do estado fronteiriço de Chihuahua. As autoridades marcaram um ponto ontem, ao apresentar à justiça Jesús Chávez Castillo, conhecido como El Camello, acusado de planejar o assassinato de uma funcionária consular americana em março passado em Ciudad Juárez e de participar de duas chacinas (em uma festa de adolescentes e em um centro de reabilitação de viciados em drogas). Junho foi o mês mais violento da história de Ciudad Juárez, onde na quinta-feira uma cabeça humana foi depositada a poucos metros da casa do candidato do Partido Revolucionário Institucional (PRI) à prefeitura.

Essa prática sinistra se estendeu à Guatemala, onde a guerra entre as maras e o governo foi marcada nos últimos 15 dias pela descoberta de quatro cabeças e o corpo mutilado de uma funcionária das prisões. As maras declararam guerra às autoridades penitenciárias devido às restrições às visitas aos presos, que haviam se transformado na principal via de introdução de drogas e armas nas penitenciárias. Não só isso: o governo teve de proibir o ingresso de menores nas prisões, já que muitas visitantes adolescentes eram violentadas nas células pelos criminosos.

Em vingança por essas medidas, nas últimas duas semanas os bandos espalharam quatro cabeças na capital (uma delas na porta do Congresso) com mensagens para o ministro do Interior, Carlos Menocal. Na semana passada um casal de funcionários de presídios foi assassinado. O corpo esquartejado da mulher foi atirado junto com uma nova mensagem ameaçadora às portas de uma emissora de rádio. "A escalada da violência, embora seja protagonizada por 'mareros', é orquestrada pelo crime organizado que, em suas diversas manifestações, operou até agora na mais absoluta impunidade", afirmou o ministro ao "El País".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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