Por ajuda a L'Aquila, tensão política dispara no parlamento da Itália

Miguel Mora

Em Roma (Itália)

  • Riccardo De Luca/AP

    Manifestantes enfrentam a polícia durante protesto organizado por moradores das áreas atingidas pelo terremoto de L'Aquila. Os manifestantes, que protestavam contra os atrasos na reconstrução após o terremoto que matou mais de 300 pessoas no ano passado, entraram em confronto com policiais que tentavam chegar perto do escritório do primeiro-ministro Silvio Berlusconi

    Manifestantes enfrentam a polícia durante protesto organizado por moradores das áreas atingidas pelo terremoto de L'Aquila. Os manifestantes, que protestavam contra os atrasos na reconstrução após o terremoto que matou mais de 300 pessoas no ano passado, entraram em confronto com policiais que tentavam chegar perto do escritório do primeiro-ministro Silvio Berlusconi

Uma briga a socos e insultos obriga o Parlamento a suspender a sessão. A manifestação de vítimas do terremoto de L'Aquila acaba com três feridos.

O governador da região de Púlia, Nichi Vendola, que além de político é poeta, definiu na quarta-feira, ao cair da tarde, a jornada de tensão que o país viveu com a seguinte reflexão: "Há a Itália falsa dos sonhos de Berlusconi e seus ministros, feita de plástico e de cenários de televisão, e há também a outra Itália, a verdadeira e real, pacífica mas desesperada, que já não confia nessa direita em debandada".

O ar que o país respira é de crescente raiva e desconfiança. Enquanto Silvio Berlusconi e Gianfranco Fini terminam de acertar as contas e definem a modalidade de sua ruptura, as regiões ameaçavam o governo de devolver as competências ao Executivo central se não for corrigido o ajuste econômico, e 5 mil vítimas do terremoto de L'Aquila se manifestavam em Roma para denunciar seu abandono e reclamar isenções de impostos e uma lei que garanta a reconstrução da cidade.

O protesto revelou a muitos italianos uma realidade disfarçada por meses de propaganda. A cidade velha de L'Aquila continua sendo uma cratera cheia de detritos, a reconstrução nem sequer começou e a economia local desapareceu. Duas mil e quinhentas empresas e 1.500 oficinas de artesanato fecharam. Das 70 mil pessoas que ficaram sem teto, só 27 mil foram realojadas pelo Estado. Delas, 18 mil vivem nas novas residências entregues pelo governo e 9 mil continuam em hotéis ou quartéis.

Em meio a uma grande tensão, a polícia reprimia com dureza os manifestantes. Três pessoas ficaram feridas. O protesto chegou até a porta do palácio Grazioli, a residência de Silvio Berlusconi, onde o primeiro-ministro se encontrava reunido com a cúpula do partido para aparar detalhes da "lei mordaça". Sob suas janelas, os manifestantes gritavam "Vergonha, vergonha" e "Berlusconi, você explorou nossa dor".

Os líderes dos partidos de oposição, Pierluigi Bersani, do Partido Democrático, e Antonio di Pietro, da Itália dos Valores, aderiram à manifestação. "O que aconteceu é inconcebível", afirmou Bersani. "A cortina de mídia que ocultou as notícias sobre L'Aquila nestes meses também obscureceu nossos protestos." Bersani recebeu aplausos mas também críticas: "Vergonha, palhaço, vocês nos deixaram sós, a oposição nos abandonou", gritou um homem. Di Pietro declarou: "A revolta social contra esse governo surdo e cego está explodindo".

Enquanto isso, a sessão da Câmara dos Deputados teve de ser suspensa devido a uma agressão coletiva contra Franco Barbato, membro da Itália dos Valores, que foi atacado por cerca de 20 deputados do Povo da Liberdade. Barbato acabou com um olho roxo no hospital. Enquanto intervinha, seus adversários, muitos deles deputados da desaparecida Aliança Nacional, o partido pós-fascista de Fini, se levantaram de seus assentos, o insultaram e agrediram. Discutia-se o projeto de lei sobre comunidades juvenis. Durante o debate, Barbato acusou a ministra da Juventude, Giorgia Meloni, de financiar "sua corrente política e supostos jovens de 30 anos". Nesse momento, a deputada do PDL Barbara Saltamartini se aproximou de Barbato junto com outros colegas, criticando-o. O líder dos deputados do IDV, Massimo Donadi, declarou: "Assistimos a uma agressão de massa de tipo fascista".


 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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