Presidente do BID reeleito é árbitro da batalha ideológica na América Latina

Antonio Caño

Em Washington (EUA)

  • Alan Marques/Folha Imagem - 16.mar.2006

    Luis Alberto Moreno (esq.), presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva

    Luis Alberto Moreno (esq.), presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Moreno, reeleito presidente do BID, prenuncia um forte destaque político e econômico do continente. "A grande lição destes anos foi entender que há um papel para o Estado."

Em um continente dominado pelos personalismos de Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez, o presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Luiz Alberto Moreno, preferiu cumprir seu papel de agitador econômico de uma forma discreta. Em uma época em que a América Latina vive um forte confronto ideológico entre liberalismo e caudilhismo, Moreno optou por ser o árbitro e se dedica a levantar projetos de desenvolvimento enquanto outros fazem discursos.

Sentado na poltrona de seu escritório no centro de Washington, Moreno, 57 anos, está exultante de felicidade na terça-feira à tarde, minutos depois de ter sido renovado em seu cargo para um segundo período de cinco anos. Sua alegria, obviamente, corresponde ao reconhecimento pelo êxito de sua gestão. Mas ele a justifica pela "honra de ocupar este cargo em um momento particularmente positivo para este continente". "Esta é a década da América Latina e do Caribe", afirma sem uma sombra de dúvida.

"Em outras crises anteriores, eram os países ocidentais e mais ricos que tinham de correr ao resgate dos mais pobres. Desta vez o resgate está nas mãos da Ásia e da América Latina", afirmou o presidente do BID. Segundo seus cálculos, o Chile logo terá a renda per cápita de um país desenvolvido; Brasil, Argentina, México, Colômbia e Peru o seguirão rapidamente.

Isso não só permitirá melhores condições de vida para os latino-americanos, como dará mais relevância política ao continente. Moreno destaca que a América Latina está adquirindo tal posição de liderança na produção de bens básicos e de minerais imprescindíveis, como o lítio, que no futuro terá a oportunidade de controlar o comércio e os preços.

O mérito deve ser atribuído, segundo Moreno, "à capacidade dos governos democráticos surgidos na última década de impor disciplina nos processos macroeconômicos e à compreensão e apoio a essa política demonstrados, pela primeira vez na história, pelos eleitorados latino-americanos". Essa combinação conseguiu tirar da extrema pobreza 70 milhões de latino-americanos e permitiu ao continente sair razoavelmente intacto da mesma crise que debilitou a Europa e outras áreas.

Na visão otimista que Moreno tem de sua região, às vezes parece esquecer-se do florescimento dos populismos em vários países, da persistência da injustiça social e da singularidade de alguns de seus sistemas de governo. "Os problemas de governabilidade não estão resolvidos", admite, "agora é necessário trabalhar para melhorar a qualidade de nossa democracia". Também não se reduziu o fluxo migratório para o norte, que Moreno considera "um gasto gigantesco", em termos de perda de recursos humanos. Mas ele acredita que "nos EUA há postos de trabalho que os americanos nunca mais vão ocupar" e que esse é um problema que será racionalizado na medida em que se restabeleça a tranquilidade econômica.

Como presidente do BID, uma entidade governada por seus membros, não está em condições de criticar a atuação particular de um país. Entende, no entanto, que surgiram nestes anos figuras que concentram a atenção da mídia. "Lula é um homem com uma capacidade de conexão descomunal. A força que sua personalidade deu ao papel internacional de seu país é desconcertante." Chávez, por sua vez, "se explica em um país de lideranças pessoais". A Venezuela, segundo Moreno, viveu durante anos "uma situação política que abre um espaço para Chávez, a quem também tocou a grande bonança do petróleo". "Chávez tem um estilo político taticamente brilhante, mas que dificulta as possibilidades de consenso na América Latina."

"Não é fácil estar acima desses debates ideológicos", lembra Moreno. Sua receita para consegui-lo foi entender que nessa região "se acentuou a heterogeneidade". "Nenhum país é igual a outro nem há soluções que sirvam para todos. É preciso aceitar a divisão ideológica e o peso que ela tem nos comportamentos políticos."

Demorou a chegar a esse ponto. Quando Moreno tomou posse no BID, em 2005, substituindo Enrique Iglesias, que deixou nessa instituição uma marca que parecia indelével, discutia-se o desaparecimento do BID. Chávez criou seu próprio banco de desenvolvimento regional, e o sucesso de uma economia ultraliberal convidava a prescindir de todo organismo estatal. "A grande lição desses anos foi entender que há um papel para o Estado", opina Moreno.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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