EUA e Rússia acertam detalhes para iminente troca de espiões

Yolanda Monge

Washington (EUA)

  • AP

    Jornalistas dos EUA identificaram Anna Chapman, que aparece nessa foto retirada do Facebook como uma das 10 pessoas presas pelo governo norte-americano sob acusação de fazerem parte de uma rede de espiões russos que atuavam nos EUA

    Jornalistas dos EUA identificaram Anna Chapman, que aparece nessa foto retirada do Facebook como uma das 10 pessoas presas pelo governo norte-americano sob acusação de fazerem parte de uma rede de espiões russos que atuavam nos EUA

O embaraçoso caso de espionagem que obscurece a nova era de relações entre Rússia e EUA poderá ser encerrado com uma imagem típica da Guerra Fria: uma troca de agentes secretos. Os dez russos que no último dia 28 de junho foram detidos em vários lugares dos EUA escutaram finalmente na quinta-feira as acusações feitas por um tribunal de Nova York, para onde foram transladados para comparecer diante do juiz. Cinco dos suspeitos foram levados de Massachusetts e Virgínia para se encontrar ali com outros cinco.

O intercâmbio dessas dez pessoas - um 11º indivíduo está em paradeiro desconhecido depois de fugir da justiça em Chipre - por outros tantos cidadãos russos acusados de espionar para os EUA e o Reino Unido, e que Moscou estaria disposta a libertar em troca, parecia iminente na quinta-feira. O caso mais claro foi o do cientista russo Igor Sutiaguin, que cumpre pena de 15 anos por espionar para Washington, segundo relatou o jornal "The New York Times". Tudo indica que esse analista teria sido libertado na quinta-feira em Viena.

Por outro lado, fontes conhecedoras da operação davam por certo que um dos dez agentes russos detidos nos EUA, Anna Chapman, 28 anos, tinha previsto chegar incógnita a Moscou na noite de quinta-feira. Sobre Chapman se escreveram rios de tinta, mais por sua presença física e comparação com uma espiã no estilo James Bond do que por seus dotes de agente de espionagem.

De fato, nenhum dos detidos nos EUA foi até agora acusado de espionagem. Todos são objeto de acusações de conspiração e alguns de lavagem de dinheiro. A resolução do incômodo incidente está sendo rápida. Em menos de dez dias teriam ocorrido, sempre segundo fontes competentes, diversos encontros entre a diplomacia russa e a americana, entre eles uma reunião do embaixador da Rússia em Washington, Serguei Kisliak, com o subsecretário de Estado americano, William Burns, na qual se chegou à conclusão de que a melhor maneira de resolver o assunto seria um intercâmbio de espiões.

Dessa maneira, Washington e Moscou estariam tentando não atirar pela borda e evitar torpedear a ratificação nos EUA do novo tratado de desarmamento nuclear. Durante a época da Guerra Fria posterior à Segunda Guerra Mundial e à polarização do mundo em dois blocos - os que seguiam os EUA e os que obedeciam à União Soviética -, o Ocidente e o conhecido como Leste praticavam as trocas de espiões, sobretudo na ponte de Glienicke, que ligava Berlim ocidental à Alemanha Oriental.

Entre os detidos há alguns dias nos EUA encontra-se Vicky Peláez, uma jornalista peruana que trabalhava para o jornal em espanhol de Nova York "La Prensa", de grande repercussão entre a comunidade latina. Seu marido, Juan Lázaro - na semana passada admitiu que essa não é sua verdadeira identidade e que trabalhava sob ordens de Moscou -, enfrentou na quinta-feira a decisão do juiz de Nova York junto com ela.
Todos os detidos são suspeitos de trabalhar para um país estrangeiro sem ter-se registrado na justiça dos EUA, um delito menos grave do que a espionagem, cuja condenação pode ser de até cinco anos de prisão. Nove dos detidos enfrentam acusações de lavagem de dinheiro, que pode se traduzir em até 25 anos de prisão.

Além de Peláez, Lázaro e Chapman, o casal Cynthia e Richard Murphy, Mikhail Kutsik (conhecido como Michael Zottoli), Natalia Pereverzeva (conhecida como Patricia Mills) e Mikhail Semenko, e os conhecidos como Tracey Lee Ann Foley e Donald Howard Heathfield, foram escoltados na quinta-feira por caminhonetes policiais à corte de Nova York, onde formalmente foram lidas as acusações e, talvez, conduzidos por uma porta traseira para um destino desconhecido, para ficar em liberdade em troca de outros companheiros de ofício.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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