Os direitos humanos em Cuba: um dia com Raúl Castro

Em Havana (Cuba)

  • Enrique de la Osa/Reuters

    O ditador de Cuba, Raúl Castro, irmão de Fidel

    O ditador de Cuba, Raúl Castro, irmão de Fidel

Um veículo de protocolo do governo cubano passou para apanhar Miguel Ángel Moratinos na residência do embaixador espanhol em Cuba e o levou no rumo de uma casa de protocolo do regime. Sua delegação o esperava para comer, mas o ministro só apareceu seis horas depois, quando já havia terminado a partida entre Espanha e Alemanha na Copa do Mundo. Embora tenha chegado tarde ao asilo de Santovenia, administrado por uma ordem de freiras, estava visivelmente satisfeito com o comunicado do arcebispado de Havana anunciando a libertação de 52 dissidentes. Moratinos se reuniu primeiro a sós com Raúl Castro e depois se transferiu para o Palácio de Convenções, ao qual também acorreram o chanceler cubano, Bruno Rodríguez, e o cardeal Jaime Ortega.

Foi naquela insólita reunião que o presidente cubano comunicou aos presentes que a libertação dos presos de consciência, que a Igreja e o regime castrista negociavam desde maio, seria anunciada nesse mesmo dia. "Esperávamos libertações, mas foi um pouco interessante e talvez surpreendente que fossem divulgadas estando aqui o chanceler Moratinos", declarou o arcebispo, que foi pego desprevenido pela encenação do acordo.

Castro quis fazer um gesto para o chefe da diplomacia espanhola, que jogou seu prestígio pessoal para conseguir que a UE normalize suas relações com Cuba. Mas não foi o único. Uma vez concluída a reunião formal, de uma hora de duração, o presidente cubano convidou os outros participantes para sua residência particular, em um bairro residencial no oeste da capital cubana, onde o almoço se prolongou com a assistência da semifinal da Copa do Mundo de futebol.

O presidente cubano, segundo o ministro, demonstrou um "enorme afeto, carinho e proximidade" pela Espanha, e não só porque "vibrou" com o gol de Puyol e a vitória da Vermelha, como também porque sua casa está cheia de lembranças da mãe pátria. A longa jornada serviu para muito. Por exemplo, para falar das reformas econômicas que Castro vem prometendo desde que substituiu seu irmão Fidel há quatro anos e que agora, depois de sucessivos adiamentos, parecem ser a sério. Ou foi o que pareceu para Moratinos.

A necessidade de enfrentar a calamitosa situação da ilha, segundo todos os especialistas, está por trás da decisão de soltar lastro com a libertação dos presos políticos. Segundo as mesmas fontes, Raúl sabe que só consolidará seu poder se se mostrar eficaz na hora de melhorar o baixíssimo nível de vida da maioria da população. Do que aconteceu na quarta-feira cabe tirar outra lição: é ele quem detém o poder e seu pulso não treme na hora de emendar as medidas repressivas decididas por seu irmão em 2003.

Muitos não acreditavam, e nem mesmo Moratinos tinha certeza, apesar de seu proverbial otimismo. "Tínhamos alguns indícios, mas nesses assuntos tão delicados nunca se tem segurança de nada", admitiu ao fim da jornada. "É um dia que não poderei esquecer", declarou. E não só pela singular companhia com a qual comemorou a vitória da Espanha.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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