Os êxitos da seleção espanhola desmentem o "deficit de identidade" que a sobrecarregava

Luis Gómez

  • Matt Dunham/AP

    Puyol, Sergio Ramos e Villa comemoram gol da Espanha contra a Alemanha

    Puyol, Sergio Ramos e Villa comemoram gol da Espanha contra a Alemanha

Assim que voltou da África do Sul, o treinador francês, Raymond Doménech, foi obrigado a comparecer diante dos deputados para explicar sua gestão durante a Copa do Mundo de Futebol. Os conflitos internos entre os jogadores, seus desplantes e insultos, a eliminação da equipe depois de uma fraca atuação, haviam envergonhado a opinião pública francesa desde o presidente da República, Nicolas Sarkozy, até o mais humilde dos articulistas. Os fatos haviam chegado ao ponto de que a França exigia uma explicação, como se um resultado esportivo tivesse o mesmo caráter que um ato de governo.

Alguns dias depois, o presidente da Nigéria, Goodluck Jonathan, decidiu suspender durante dois anos a atuação da seleção nigeriana por causa de sua eliminação, decisão que depois retificou. Ambos os fatos são consequência do poder do futebol como símbolo de identificação nacional. O que acontece com a bola se transforma em questão de Estado.

Faz 12 anos da vitória da França no mundial de 1998, quando a opinião pública internacional comemorou a diversidade étnica de uma formação capitaneada por Zinedine Zidane, um jogador de origem argelina que liderava um grupo heterogêneo com numerosos jogadores de procedência africana. Em meio à euforia, essa natureza multicultural foi interpretada como uma consequência da tolerância e da fraternidade que emanavam das ideias da Revolução Francesa, expressão que ocultava certo complexo de superioridade.

Doze anos depois, alguns articulistas desempoeiram argumentos que diferenciam os jogadores entre bons e maus rapazes, egoístas e mal-educados, substrato de bairros marginais. Aquele nacionalismo multicultural no êxito mudou para certos tons xenófobos no fracasso da África do Sul.

Não é a primeira vez que a paixão futebolística ronda as fronteiras permeáveis entre patriotismo, nacionalismo e xenofobia. Alguns filósofos haviam advertido sobre isso. Foi o que expôs o escritor turco Orhan Pamuk, ganhador do Nobel, quando declarou que o futebol na Turquia "havia se transformado em uma máquina para a produção do pensamento nacionalista, xenófobo e autoritário". Apesar de tudo, Pamuk declarou que continuaria apoiando sua seleção.

Nenhum outro esporte contribuiu para a sociologia como o futebol, nascido como atividade de lazer para as classes urbanas da revolução industrial. É desde suas origens um esporte de massas, capaz de aglutinar um sentimento de comunidade que escorre do âmbito local para sua expressão nacional. Um historiador como Eric Hobsbawn define o futebol como o meio mais eficaz para que os cidadãos se identifiquem com uma nação através de uma equipe formada por "pessoas jovens que fazem de modo estupendo o que praticamente todo o homem quer ou quis fazer bem alguma vez na vida".

Richard Giulanotti, o sociólogo mais reputado em seus ensaios sobre esse esporte, qualifica o futebol como "uma das grandes instituições culturais, como a educação ou os 'mass media', que dá forma e cimenta a identidade nacional ao largo do mundo". Depois das duas guerras mundiais, o futebol se converte em um espetáculo de massas no qual se enfrentam pessoas e equipes que representam localidades e Estados- nação, um cenário privilegiado para dar sentido ao patriotismo.

São numerosos os exemplos de políticos ansiosos para acender o fogo do orgulho nacional esperando que sirva a seus interesses. As atuações das seleções se apresentam como assuntos de interesse nacional, nas quais está em jogo o orgulho da pátria. O futebol provocou guerras (entre Honduras e El Salvador, em 1969) e conflitos diplomáticos. Seu próprio órgão reitor, a Fifa, tem mais afiliados que a ONU. Alguns pequenos territórios lutam para entrar na Fifa como passo anterior a um reconhecimento internacional. Foi o caso da Palestina ou as denodadas tentativas de Gibraltar. A Fifa desenha sua própria geopolítica: por exemplo, Israel compete com a Europa, fora de seu continente geográfico. Não é por acaso que a Fifa tem sua sede central na Suíça: não presta contas a ninguém de sua gestão.

A paixão envolta em patriotismo faz do futebol uma força dominante. Caso se houvesse realizado na África do Sul uma final Alemanha-Holanda, teriam voltado a se acender velhos brasas entre esses dois países que datam do final da guerra e que a mídia contribui para ressaltar (os sociólogos concordam em unanimidade com o papel desenvolvido pela mídia na hora de fortalecer o imaginário nacional).

A história dessa rivalidade nacional futebolística foi estudada pelos sociólogos holandeses Van Houtum e Van Dam. Holanda e Alemanha disputaram duas partidas cuja lembrança ainda perdura na memória coletiva: a final da Copa do Mundo de 1974, que a Alemanha ganhou contra a Holanda de Cruyff, e a semifinal da Eurocopa de 1988, que deu a vitória à Holanda, que posteriormente ganhou o torneio. Alguns autores compararam as comemorações de rua naquela vitória com a libertação da Holanda em maio de 1945.

"Depois de 1974, a referência à guerra foi usada frequentemente pelo lado holandês; 43 anos de ódio depois da guerra que acabou em 1945, encontraram expressão nessa vitória", indicam os autores do estudo. "Esta traumática experiência foi um instrumento de legitimação. Nessa batalha simbólica, os holandeses representavam a si mesmos como o bem, como o país tolerante e amistoso contra o vizinho diabólico." Van Houtum e Van Dam esperavam que esses sentimentos de impotência e rivalidade diminuíssem depois da vitória de 1988, "mas o ritual de argumentos e insultos continuou. Depois desse choque, todo confronto entre Holanda e Alemanha sempre foi um evento especial".

A capacidade do futebol para despertar o orgulho nacional não é um fenômeno europeu, resultado de duas guerras mundiais. É um fenômeno que transcende os continentes. Surpreendeu as próprias autoridades da Coreia do Sul, um país de escassa tradição futebolística, durante a Copa de 2002 que organizou junto com o Japão. A atuação da Coreia foi destacada. Classificou-se para as semifinais. O entusiasmo popular que despertou resultou em uma experiência nova: milhões de coreanos acompanharam as partidas envoltos nas cores de sua bandeira. Isso deu a impressão de um renascimento nacional com o olhar posto na vizinha Coreia do norte.

O treinador da Coreia, o holandês Guus Hiddink, se transformou em herói nacional em uma escala extraordinária. O governo explorou o êxito a ponto de o ministro do Comércio, Shin Kook Hwan, recomendar às grandes firmas coreanas que adotassem "o estilo Hiddink" para atrair novos investidores estrangeiros.

O futebol ocupa uma ampla bibliografia como matéria sociológica. O denominador comum é sua capacidade de fabricar identidades. Nesse aspecto há fenômenos novos por efeito da globalização e da denominada Lei Bosman: os clubes se desnaturalizam, transformados em sociedades anônimas que contratam os serviços de jogadores estrangeiros. Não há mais ídolos locais que facilitem a identidade. Tudo é mercado. Os ídolos locais ficam reservados às seleções nacionais.

No entanto, certas realidades despertam dúvidas a respeito: os torcedores do Arsenal se identificam com um time repleto de estrangeiros, com um capitão espanhol (Cesc Fábregas) e um treinador francês (Arsene Wenger)? Diminuiu a identificação com a seleção inglesa por ser dirigida por um técnico italiano (Fabio Capello)? Não está por trás do desapego que sofreu Messi em sua seleção o fato de ser um jogador formado em Barcelona e não na Argentina? Em seu momento, despertou interesse o projeto de Florentino Pérez de construir um Madrid global, transformado em uma equipe admirada e querida em todo o mundo, mas a experiência resultou efêmera.

Um caso especialmente estudado pelos sociólogos foi o espanhol. A Espanha é criticada por um déficit de identidade com sua seleção, em contraste com o apego nacionalista manifestado na Catalunha em relação ao Barcelona e no País Basco com o Athletic de Bilbao. Assim pelo menos foi até agora. Depois da guerra civil, os grandes sucessos da seleção espanhola se limitaram ao famoso gol de Zarra contra a Inglaterra na Copa de 1950 e o gol de Marcelino contra a União Soviética, que significou a conquista da Eurocopa de 1964. Foram êxitos que o franquismo utilizou em seu proveito, diante dos inimigos da Espanha oficial: a pérfida Albion e o ogro comunista.

O paradoxo espanhol foi muito estudado por sociólogos europeus: uma identidade manipulada pela ditadura causou uma aversão de parte da Espanha para com a seleção nacional; por outro lado, o regime de Franco permitiu as inclinações do Athletic e do Barcelona por considerá-las uma deriva nacionalista controlável, sobretudo com o contrapeso centralista do Real Madrid das seis Copas da Europa, versão esta muito difundida entre os autores anglo-saxões.

Chegada a democracia, as atuações da seleção nacional abundaram em inúmeras frustrações, enquanto a rivalidade entre clubes em nível internacional se equilibrou: Real Madrid e Barcelona dividiram seis Copas da Europa nos últimos 13 anos.

A seleção espanhola ficava para um lado, embora seu suposto déficit de identidade contrastasse com os dados de audiências televisivas. Em todo caso, estava em dúvida. O sociólogo José Ignacio Wert cunhou o termo "anorexia patriótica" para explicar esse déficit em um artigo publicado em "El País" depois de uma derrota da seleção em uma partida contra a Inglaterra. "O fato é que tanto pensadores nacionais (Camacho, Del Bosque) como estrangeiros (Cruyff)", escreveu Wert, "puseram sobre o tapete a suposta vinculação entre os medíocres resultados de nossa seleção e a falta de sentimento nacional dos espanhóis e, neste caso concreto, um dos selecionados (...) Vamos, que nossos rapazes não chutam atacados por uma certa anorexia patriótica quando levam o nome da Espanha bordado na camisa (...) Estamos coletivamente afetados por um deficit patriótico?". Wert respondia com um "rotundo sim" e explicava como fatores o "patriotismo excludente que alentava o regime anterior" e "os sentimentos nacionalistas que emergem em quase todas as autonomias".

Mas nasce a Vermelha: uma denominação aceita com naturalidade, não isenta de certa mensagem. E nasce com um estilo muito distante da predemocrática fúria espanhola. Nasce com uma escola. E não é preciso ir muito longe para reconhecer sua origem: Barcelona. Paralelamente ao conflito provocado pela sentença sobre o Estatut de Cataluña, suas consequências, as alusões ao possível desapego dos catalães pela ideia de um projeto nacional, a Vermelha consolida seus êxitos com uma atuação histórica no Mundial da África do Sul. Não é menor este assunto.

A Vermelha que povoa a Espanha de bandeiras como não havia ocorrido nunca depois da guerra civil é uma manifestação da escola catalã dirigida por um castelhano estoico como Del Bosque, talvez outro grau de multiculturalidade muito diferente do elogiado em sua época com a seleção francesa. Essa é a composição química de uma seleção que rompeu uma teoria assentada durante décadas. Será a partir do próximo domingo que os sociólogos terão de avaliar se esse êxito desportivo tem alguma outra consequência.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos