"É o passo mais sério que o governo deu nos últimos 50 anos", diz líder da dissidência cubana

Mauricio Vicent

Em Havana (Cuba)

Héctor Palacios (nascido em Villa Clara em 1943) é um dos membros mais famosos do Grupo dos 75. Na primavera de 2003 foi condenado a 25 anos de prisão, mas devido a seu delicado estado de saúde foi libertado em 2007. O governo o autorizou a viajar para a Espanha para receber tratamento médico, mas ele impôs como condição poder retornar. Foi o que fez em setembro de 2008, e desde então continua sua luta como coordenador da União Liberal da República de Cuba, uma das plataformas de oposição mais importantes. Acaba de voltar de Santa Clara, depois de conseguir que o dissidente Guillermo Fariñas, vice-presidente de sua organização, abandonasse uma greve de fome que durou 135 dias.

El País: Foi difícil convencê-lo?

Héctor Palacios: Bem, foi um processo. Ele sempre disse que fazia greve para conseguir a libertação de 26 presos doentes, mas que não era inflexível, que se o governo se movesse ele também se moveria.

El País: O que representa a decisão do regime de libertar os membros do grupo dos 75?

Palacios: É o passo mais sério que o governo deu nos últimos 50 anos em busca de uma concórdia nacional, e poderá abrir uma nova etapa. Se o governo começar a dar passos, seria bom para todos. A primeira condição para fazer qualquer coisa era que não houvesse presos políticos.

El País: A que se deve a mudança de atitude do governo?

Palacios: Há razões políticas, sociais e econômicas que indicam que o governo não tinha outra alternativa. O momento é crítico e o regime sabe disso, precisa soltar lastro. Mas é sobretudo uma vitória das forças democráticas de Cuba.

El País: O senhor acredita que terá implicações políticas, que se ampliaram as margens da dissidência?

Palacios: Provavelmente. O fato de um governo tão intransigente ter decidido libertar os presos é importante. Creio que com Fidel isso não teria ocorrido. No dia em que fui ver Fariñas fiz uma reunião com 200 ativistas no hospital e não aconteceu nada. Soltaram algumas pessoas que estavam pendentes de julgamento, outros, como Darsi Ferrer, o julgaram e o puseram em liberdade condicional...

El País: O governo impôs como condição que os presos saiam do país...

Palacios: Ontem [sábado] mesmo me telefonou da prisão o prisioneiro do Grupo dos 75 Eduardo Díaz Fleitas [condenado a 20 anos de prisão]. Acabava de lhe telefonar o cardeal Jaime Ortega para lhe comunicar que seria libertado com outro grupo de presos, e ele disse que não queria sair do país. O cardeal lhe respondeu que era sua decisão e devia ser respeitada, e que isso não iria afetar sua libertação. Outra coisa é que a maioria dos presos, sim, quer ir embora, e é seu direito.

El País: O senhor acredita que o governo prepara o terreno para outras mudanças? As reformas vão começar?

Palacios: Se não fizerem reformas econômicas esta revolução não dura mais um ano. A ineficiência é absoluta e não há estímulos para produzir. A dívida externa é gigantesca e Cuba precisa de créditos, e para isso não pode ter presos políticos. É a primeira vez que eu vejo um caminho pelo qual se pode transitar, agora vai depender dos limites que o governo impuser.

El País: Qual deveria ser agora o papel da UE e dos EUA?

Palacios: Quando saí de Cuba estive com Obama e falei com ele várias vezes. Ele me perguntou o que se poderia fazer. Eu lhe disse: não lhe peço que levante o embargo porque isso é muito difícil, mas é preciso ir desmontando-o. Comentei com ele que algumas medidas poderiam ser permitir as viagens dos exilados e o envio de remessas [já o fez], e também autorizar as viagens de americanos [está sendo discutido no Congresso]. Tudo isso ajudará Cuba a se abrir.

El País: E a UE?

Palacios: Não há mais razão para manter a posição comum da UE. O importante agora é que todo mundo se mova. Cuba deu um primeiro passo que serve para desemperrar as coisas, pois agora todos devem se mover, que a coisa não pare; este é um processo que começa, e quem o parar seria idiota.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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