Libertações em Cuba dividem a dissidência cubana

Mauricio Vicent

  • AFP

    Os sete ex-presos políticos em Cuba chegaram nesta terça-feira (13) em Madrid, na Espanha. Eles foram os primeiros dos 52 autorizados a deixar o país

    Os sete ex-presos políticos em Cuba chegaram nesta terça-feira (13) em Madrid, na Espanha. Eles foram os primeiros dos 52 autorizados a deixar o país

Os opositores discordam entre os que veem a libertação como uma "deportação" e os que consideram que abre uma "oportunidade" para mudanças na ilha.

A saída para a Espanha dos primeiros presos de consciência libertados pelo governo de Raúl Castro foi recebida pela dissidência com regozijo, mas também com ceticismo e divisão de opiniões sobre o alcance da medida. Na noite de terça-feira, outros dois prisioneiros acompanhados por cerca de 15 familiares partiram para Madri, com o que já são nove os libertos. Segundo a Igreja Católica cubana, nos próximos dias poderão sair outros 11. Mas ainda há numerosas incógnitas: o que acontecerá com os que não querem abandonar a ilha? O que acontecerá com o resto dos presos políticos (mais de uma centena, segundo organizações de oposição)? E a questão mais relevante: o indulto abre uma nova etapa, ou trata-se de uma operação para ganhar tempo, como creem alguns?

A dissidência está desconcertada e dividida sobre esses temas. Algumas vozes, como as dos ex-presos do Grupo dos 75 Óscar Espinosa Chepe e Héctor Palacios, ou do opositor moderado Manuel Cuesta Morúa, dizem que se abre uma "oportunidade" para Cuba e que seria irresponsável desperdiçá-la. Por isso pedem aos EUA e à UE que se movam para animar novos passos do regime. Os mais céticos, como o democrata-cristão Oswaldo Payá ou o ativista dos direitos humanos Elizardo Sánchez, afirmam que as libertações são na realidade "deportações" e que se trata só de uma "manobra" do governo para lavar sua imagem ruim e "comprar tempo".

Desde maio, quando começou a mediação da Igreja junto ao governo de Castro, se estabeleceram dois lados bem diferenciados, que em geral correspondem às diferentes opiniões do exílio e dos atores do conflito. Alguns apoiam abertamente o diálogo e a gestão da hierarquia católica, por mais imperfeita que seja. Aqui se incluem as Damas de Branco, cujo objetivo principal é a libertação de seus familiares da prisão. Os que defendem a linha mais dura veem com receio a mediação da Igreja e do chanceler espanhol, Miguel Ángel Moratinos, e consideram um insulto trocar "celas por exílio" e "dar oxigênio" ao regime. Segundo Payá, "lhes dão a escolha entre a prisão e o desterro", e portanto não há "respeito a sua dignidade nem a seus sentimentos". "Parece com o que é: uma libertação de reféns sequestrados", afirma o opositor, radicalmente oposto a que a UE mude sua Posição Comum.

"A Posição Comum diz que os cubanos devem ter direitos para que as relações da UE com Cuba sejam plenas. Moratinos quer defender interesses empresariais ou quer nos ver como pessoas merecedoras de respeito e dignidade? Que não nos trate assim", diz Payá, e acrescenta: "Eu não defendo a Posição Comum, é a Posição Comum que defende nossos direitos".

É o dilema de sempre: pressão ou diálogo. E diante de tal opção Espinosa Chepe não duvida: "Além da importância humana que terá a libertação total dos prisioneiros de consciência dos 75, a solução desse problema cria condições para continuar avançando para as reformas radicais de que o país precisa urgentemente". Na opinião dele, trata-se de "um importante primeiro passo", e agora o diálogo com a Igreja deve continuar e estender-se a toda a sociedade cubana. O governo cubano deveria "continuar" com "a libertação dos prisioneiros políticos pacíficos", e EUA e Europa dar passos ousados para mudar as relações com Cuba. "Agora se está eliminando um grande obstáculo (...) os grupos imobilistas dentro e fora do governo receberam um duro golpe, e suas possibilidades de reverter o processo de reconciliação nacional foram reduzidas consideravelmente", considera Chepe.

Palacios e Cuesta Morúa, apesar de representarem diversas tendências, pensam como ele e indicam que mesmo que o governo acabasse fraudando as expectativas é preciso tentar. Ninguém sabe o que acontecerá finalmente com os presos do Grupo dos 75 que não querem abandonar a ilha, como Héctor Maseda, marido de Laura Pollán, líder das Damas de Branco. A Igreja e o governo espanhol, e também os parentes dos presos, confiam que no final, quando a maioria dos opositores presos tiver saído para a Espanha, o governo libertará os demais. Sobre o restante dos presos políticos, que são 115 segundo Elizardo Sánchez, Raúl Castro estaria disposto a libertar os que não foram condenados por pirataria, sabotagem, terrorismo ou atos violentos; foi o que disse Moratinos. Mas será preciso esperar para averiguar. Só o tempo e os fatos dirão quem tem razão.

Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Tradutor: Em Havana (Cuba)

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