Chávez ordena a exumação dos restos mortais de Bolívar para tentar salvar seu governo

Maye Primera

Em Caracas (Venezuela)

  • Fernando Llano/AP

    Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, diante de imagem de Simón Bolívar, ícone latino-americano

    Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, diante de imagem de Simón Bolívar, ícone latino-americano

O presidente Hugo Chávez revelou aos notívagos do Twitter o que até as 2 da madrugada de ontem o governo não havia querido informar: que na noite de quinta-feira uma equipe de promotores e policiais científicos exumou os restos do libertador Simón Bolívar para determinar a causa de sua morte, ocorrida em 1830. "Olá meus amigos. Que momentos impressionantes vivemos esta noite! Vimos os restos do grande Bolívar!", anunciava o primeiro "tweet" presidencial. "Confesso que choramos. Digo-lhes: tem que ser Bolívar esse esqueleto glorioso, pois pode-se sentir seu resplendor. Meu Deus! Meu Cristo!".

Chávez está entre os que suspeitam que Bolívar não morreu de tuberculose, como estabeleceu a história. Ele afirma que foi assassinado, e que essa suposição é muito mais importante que qualquer dos escândalos que envolvem hoje seu governo. Envenenado? Baleado, talvez? Isso é o que vão determinar os 50 especialistas da Promotoria Geral e do Corpo Técnico da Polícia Judiciária que ontem foram mostrados pelo canal estatal, em pleno trabalho e vestindo trajes brancos, como que próximos de empreender uma viagem espacial.

Enquanto Chávez teoriza sobre as causas da morte do Libertador, seus críticos afirmam que se trata de uma manobra de distração para tentar encobrir a crua realidade de um país mergulhado em uma profunda crise. A inflação - 31% em junho, a mais alta da América Latina - obriga os cidadãos a raspar cada vez mais os bolsos; a economia entrou em recessão no ano passado e continuou no vermelho no primeiro trimestre de 2010.

Além disso, encontraram-se mais contêineres com comida decomposta devido à má gestão da empresa estatal responsável por sua importação (Productora y Distribuidora Venezolana de Alimentos, filial da Petróleos de Venezuela). Ao todo, foram descobertas mais de 130 mil toneladas de alimentos podres em portos e armazéns, que deveriam ser distribuídos na rede pública de mercados populares.

Na Venezuela também já começaram extraoficialmente as campanhas dos partidos para as eleições parlamentares de 26 de setembro. Por isso a oposição disse que temas como o suposto assassinato de Bolívar e a potencial ruptura de relações diplomáticas com o Vaticano, da qual também se falou nestes dias, são cortinas de fumaça erguidas pelo governo para iludir o debate sobre sua má gestão para resolver os problemas de insegurança, inflação, corrupção e serviços públicos deficientes que o país atravessa.

A crise econômica se soma ao conflito com a vizinha Colômbia, cujo governo acaba de denunciar a suposta presença em território venezuelano de três importantes líderes guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e do Exército de Libertação Nacional (ELN).

A longa lista de problemas que o país enfrenta não prejudicou o trabalho dos especialistas do governo, que em menos de 24 horas parecem ter encontrado a prova que em 180 anos os historiadores não encontraram. Elías Pino Iturrieta, diretor da Academia Nacional de História, disse a "El País" que não há qualquer evidência da época que indique algo parecido com a existência de um assassinato ou de um fato violento. "Não existe o menor fundamento científico que justifique esse espetáculo noturno. Nenhum historiador sensato pode avalizar a hipótese do assassinato de Bolívar. Só resta pensar que esta é uma maneira de fazer os idiotas se ocuparem de uma morte de 1830 e não dos desmandos que vivemos neste momento."

A abertura do sarcófago do Libertador, que repousa no Panteão Nacional, não havia sido anunciado oficialmente. O processo esteve a cargo de um cientista espanhol, o professor José Antonio Llorente, diretor do Laboratório de Identificação Genética da Universidade de Granada. Através da rede de televisão oficial, Llorente disse que a investigação foi feita "em silêncio, não em segredo ... respeitando ao máximo o corpo do Libertador Bolívar", e qualificou seu trabalho como "neutro".

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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