Dispara demanda mundial por aviões israelenses militares não tripulados

Ana Carbajosa

Aeroporto Ben Gurion (Tel-Aviv, Israel)

  • Jonathan Nackstrand/AFP

Um grupo de técnicos espanhóis assiste à dissecação das tripas de um avião não tripulado em um hangar da Indústria Aeroespacial Israelense (IAI), a empresa pública que lidera o mercado europeu da guerra teleguiada. Estudam o cabeamento do Searcher, o avião sem piloto que a Espanha voa no Afeganistão, forrado de sensores. Pode voar de dia até 15 horas seguidas e gravar o que acontece ao nível do solo, quase sem fazer ruído. Também pode filmar de noite com o sensor térmico, que distingue a temperatura de um corpo humano da de um edifício.

Até 47 países compram aviões não tripulados (UAV na sigla em inglês) dos israelenses, que viram a demanda mundial se multiplicar. A maioria desses aparelhos acaba voando nos céus afegãos, onde o trânsito desses grandes insetos com controle remoto é cada vez mais intenso. Com um faturamento próximo dos 400 milhões de euros e 15% de crescimento anual nos pedidos, nesta minicidade aeroespacial israelense está claro que na guerra do futuro os pilotos serão quase dispensáveis.

"Há 15 anos era preciso convencer os compradores. Hoje todos os países vêm claramente a importância dos 'drones' nas guerras do Iraque e do Afeganistão. É de longe o setor que mais cresce, comparado com helicópteros e outros aparelhos que fabricamos", afirma Avi Pansky, da divisão Malat, especializada nesses equipamentos. Ele acrescenta que este ano já tem contratos equivalentes ao ano e meio anterior.

No caso do exército americano, a paixão pelos teleguiados fez que em dois anos o número destes tenha crescido de algumas centenas para os 6 mil atuais, segundo a "Aviation Week". Inclusive a Turquia, cuja relação com Israel atravessa suas horas mais tensas, devido à morte de nove ativistas durante a abordagem à flotilha da liberdade em maio passado, bate às portas da aeronáutica israelense para comprar aviões não tripulados com os quais sobrevoa os territórios curdos.

Já compraram dez drones no valor de 140 milhões de euros. A última entrega - quatro Heron - está prevista para o mês que vem. Peter Singer, autor do livro "Wired for War" [Eletrônica para a guerra], que explica como a robótica está mudando as guerras, aponta que a proliferação de UAVs representa um dilema político para países como a Turquia, que desejariam reduzir sua dependência de outros países. "Por isso o Reino Unido, a China e a Turquia já trabalham na fabricação de suas próprias versões. O que vemos agora é só o princípio de uma grande mudança na aviação mundial", explica por telefone de Washington esse especialista em assuntos de defesa do Instituto Brookings.

O que se vê nessa fábrica israelense é o esqueleto. Que depois os drones sejam dotados de armamento é algo que depende da demanda do país comprador, e um tema muito delicado. Os ataques do ar são um assunto tão opaco nos EUA quanto em Israel, os dois países que competem em seu desenvolvimento e que, apesar de se tratar de um segredo aberto, mantêm certa ambiguidade na hora de reconhecer o emprego de aviões não tripulados para disparar e matar. No Ministério da Defesa espanhol explicam que o Searcher que usam no Afeganistão são utilizados só para inspecionar o território, e não para disparar.

"O país mais prolífico em assassinatos seletivos hoje são os EUA, que fundamentalmente utilizam drones em seus ataques. Cerca de 40 países têm a tecnologia e alguns já a têm e estão desenvolvendo a capacidade de disparar mísseis desses aparelhos", afirma Philip Alston, relator da ONU sobre execuções extrajudiciais em um relatório publicado em junho passado. Ele cita a Rússia, Turquia, China, Índia, Irã, Reino Unido e França entre os países que têm ou logo terão mísseis em seus aviões teleguiados.

Parte dos assassinatos seletivos israelenses é executada com UAVs, segundo Alston. Israel não confirma nem desmente, mas admite a fabricação dos Harop, que explodem sozinhos em vez de lançar mísseis; é o chamado drone suicida. Em geral, os americanos preferem fabricar seus aparelhos em vez de importá-los. Os Hunter, de desenho israelense, constituem uma exceção. São os que lançam as chamadas bombas inteligentes, embora haja muitas dúvidas sobre a inteligência desses e de outros explosivos que são lançados por UAVs.

O relator da ONU afirma que "centenas de pessoas", incluindo civis, morreram em operações realizadas pela CIA e alerta sobre o perigo da mentalidade Playstation que pode ser gerada por esse tipo de aparelhos, manejados com um simples comando de algum escritório a milhares de quilômetros do campo de batalha.

A assepsia que cerca as mortes à distância, além disso, as torna mais digeríveis para a opinião pública. Ao menos a julgar pelo aumento desses ataques pelos EUA desde que Barack Obama ocupa a Casa Branca, sem que tenham provocado grandes protestos, afirma Jane Mayer em um extenso artigo na "New Yorker" intitulado "A guerra do predador".

A variedade desses aparelhos com ou sem licença para matar é enorme. Esta macroempresa israelense fabrica desde o diminuto olho de pássaro, que pode ser levantado com uma mão, até a joia da coroa da indústria israelense: o Heron HP, lançado recentemente. Este mede 27 metros de envergadura, o que o transforma em um dos maiores do mundo, e pode voar até 30 horas ininterruptas. Faz muito pouco ruído e voa a grande altitude, o que lhe permite abarcar uma grande superfície ao tirar imagens. Por suas características poderia voar de Israel até o país arqui-inimigo, o Irã. Os israelenses o testaram em Gaza em várias ocasiões, também durante a operação Chumbo Fundido.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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